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Sábado, Novembro 27, 2021

Festival começa hoje, sob o signo da ‘nova normalidade’

José M. Bastos
Crítico de cinema

66ª SEMINCI – Semana Internacional de Cine de Valladolid

Em Outubro de 2020, ainda a dois meses do surgimento das vacinas, a pandemia agudizava-se todos os dias. Na véspera da abertura do festival de Valladolid o governo de Castilla y León decretava o recolher obrigatório a partir das 22 horas. Nessa noite a organização desta mostra reformulou toda a programação por forma a respeitar esse condicionamento que se somava aos outros já anteriormente contemplados: ocupação de um terço da lotação das salas, lugares marcados previamente, redução do número de filmes, conferências de imprensa ‘on-line’ e supressão de todos os eventos que pudessem levar a concentração de pessoas. E fez tudo isso com sucesso. A edição de 2020 foi um êxito. O “festival impossível” tornou-se realidade e as salas de cinema foram, durante essa semana, o lugar mais seguro da cidade. A SEMINCI de 2020 ficará para a história.

Passado um ano a situação é já bastante diferente. A quase totalidade das pessoas está vacinada. Mantém-se a marcação prévia de lugares (há já duas semanas que disponho dos bilhetes para todas as sessões a que pretendo assistir) mas a lotação das salas é quase a normal.  Espera-se que o número de participantes seja muito maior que o de 2020. Esta “segunda SEMINCI da pandemia” vai certamente mostrar que estamos a caminho da normalidade ou, como se tornou hábito dizer, a caminho de uma “nova normalidade”.

A 66ª SEMINCI começa hoje e decorrerá até ao dia 30. Oficialmente são essas as datas, mas em boa verdade o festival já começou ontem. E começou com “La Naranja Prohibida” lembrando “Laranja Mecânica”.

“La Naranja Prohibida” – Os 50 anos da “Laranja Mecânica” evocados em Valladolid

Não obstante ser um marco na história do cinema, Laranja Mecânica (Stanley Kubrick, 1971) foi proibido pela censura da ditadura franquista mas, surpreendentemente, estreou na 20ª SEMINCI em 1975, numa das cidades mais conservadoras de Espanha (recorde-se que o certame de Valladolid foi fundado com o nome de Semana de Cinema Religioso e que durante muitos anos foi usado como veículo de propaganda do regime).

Muitos se interrogam, ainda hoje, como foi possível o filme ser aqui exibido nessa altura. Essa é uma das questões a que o realizador e guionista madrileno Pedro González Bermúdez, um especialista do documentário cinematográfico, procura dar resposta em La Naranja Prohibida. Neste seu trabalho, o autor de ‘Regreso a Viridiana’ e ‘El último adiós de Bette Davis’ (ambos de 2014) contou com a colaboração de Malcolm McDowell, protagonista de Laranja Mecânica, que está presente em Valladolid para apresentar o filme e dialogar com o público. Para além do documentário, Laranja Mecânica será também, obviamente, exibido durante o Festival.

Clara Roquet na abertura oficial da SEMINCI com “Libertad”

Clara Roquet

A jovem realizadora catalã Clara Roquet, vencedora da “Espiga de Ouro” para a melhor curta-metragem da SEMINCI em 2015, estreou a sua primeira longa na Semana da Crítica do Festival de Cannes deste ano. Libertad chega agora a Valladolid com a  honra de ser o filme que inaugura a secção oficial do certame. O filme conta a história da relação que se estabelece entre duas jovens, a neta de uma senhora com Alzheimer e a filha da sua cuidadora, uma mulher colombiana.

A secção oficial

A principal secção do Festival cumpre com a tradição. Alguns nomes consagrados, muitas primeiras e segundas obras, uma razoável diversidade geográfica e obras premiadas noutros festivais. 23 longas metragens, 20 delas em competição!!! É obra. Três ou quatro sessões por dia. Um difícil trabalho para o júri e, para aqueles que concentram a sua atenção na secção oficial, pouco tempo para explorar outras secções do certame.

Destacamos, à partida, alguns títulos:

The Card Counter de Paul Schrader (EUA / Reino Unido / China, 2021).  O veterano realizador, multi-premiado em Valladolid e que em 2013 foi objecto de um ciclo monográfico e recebeu uma “Espiga de Honra” regressa com um “thriller” de vingança que relata a história de um ex-interrogador do exército perseguido pelos fantasmas das decisões que tomou no passado. The Card Counter esteve na secção oficial do Festival de Veneza. Oscar Isaac, Tye Sheridan, Tiffany Haddish, e Willem Dafoe são intérpretes do filme;

Ghahreman (Um Herói) de  Asghar Farhadi (Irão / França, 2021).  Vencedor de Ursos de Ouro e de Prata em Berlim, de um Oscar e um Globo de Ouro, Césares, Goyas e prémios em muitos festivais, Farhadi, depois de uma experiência em Espanha com o dispensável “Todos lo saben”, regressa ao Irão. Aí é que ele está bem! E regressa com a história de um homem preso por uma dívida não paga e que durante uma saída precária procura convencer o credor a retirar a queixa. Com Ghahreman Asghar Farhadi conquistou, no passado mês de Julho, o Grande Prémio do Júri no Festival De Cannes;

Mali Twist de Robert Guédiguian (França / Canadá / Itália / Senegal, 2021). Autor de um cinema politicamente comprometido, o cineasta marselhês de origem arménia, vencedor de uma “Espiga de Ouro”, uma “Espiga de Prata” e um Prémio do Público, volta agora a Valladolid com uma história passada em Bamako (capital do Mali) em 1960.  Os jovens dançam ao som do twist recém importado da Europa e da América e sonham com uma mudança política. Este é o pano de fundo dos amores de um jovem casal: um rapaz com ideais socialistas  e uma rapariga que tenta escapar a um casamento forçado;

Saloon Huda de Hany Abu-Assad (Palestina / Egipto / Países Baixos / Qatar / EUA. 2020). Presente nos festivais de Nashville e Toronto o filme é de um cineasta nascido em Nazaré (Palestina), vencedor de um Globo de Ouro e nomeado para o Oscar e participante em anteriores edições da SEMINCI.  Saloon Huda conta a história de uma jovem mãe, casada com um homem ciumento, que vai regularmente a um salão de cabeleireiro até que a dona do salão a chantageia no sentido de ela colaborar com o serviço secreto dos ocupantes.

Outros títulos

  • Clara Sola de Nathalie Álvarez Mesén (Suécia / Costa Rica / Bélgica / Alemanha, 2021).  Uma primeira obra que estreou na Quinzena dos Realizadores de Cannes;
  • L’événement (O acontecimento) de Audrey Diwan (França, 2021). Segunda obra de uma realizadora francesa de origem libanesa. Vencedor do “Leão de Ouro” (melhor filme) do Festival de Veneza;
  • Ghasideyeh Gave Sefid (Balada de uma Vaca Branca / O Perdão) de Behtash Sanaeeha, Maryam Moghadam (Irão / França, 2021). Segunda obra dos seus autores;
  • Hytti nro 6 (Compartimento nº 6) de Juhp Kuosmanen (Finlândia / Alemanha / Estónia / Rússia, 2021). Segunda obra do realizador, foi galardoada com o Grande Prémio do Júri no Festival de Cannes;
  • Ich bin dein mensch (I’m your man) de Maria Schrader (Alemanha, 2021). Com o seu desempenho Maren Eggert ganhou o prémio de melhor actriz no Festival de Berlim. A realizadora é autora de Stephen Zweig – Adeus Europa, co-produção com Portugal, filmado em São Tomé e Príncipe e no Brasil;
  • Jadde Khaki (Hit the Road / Por-se em marcha) de Panah Panahi (Irão, 2021). Primeira obra do realizador o filme esteve presente nos festivais de Londres, Atenas e Cannes no qual foi candidato à ‘Câmara de Ouro’ que premeia as primeiras obras;
  • Last Film Show de Pan Nalin (Índia / França, 2020). O filme esteve nos festivais de Pequim e Tribeca;
  • Das Mädchen und die Spinne (A Rapariga e a Aranha) de Ramon Zürcher, Silván Zürcher (Suíça, 2021). Esta segunda obra participou na secção ‘Encontros’ do Festival De Berlim onde obteve o Prémio para a melhor realização e o Prémio FIPRESCI;
  • La Mif de Fred Baillif (Suíça, 2021).  Premiado em Berlim, Zurique e Namur.
  • El Rey de todo el mundo de Carlos Saura (Espanha / México, 2021). Apresentado fora de concurso este filme do celebradíssimo cineasta espanhol está ambientado no mundo da dança e conta com a fotografia do também extraordinário Vittorio Storaro, uma das “Espigas de Honra” desta edição do festival;
  • Seperti dendam rindu harus dibayar tuntas (A vingança é minha, todos os demais pagam em dinheiro) de Edwin (Indonésia / Singapura / Alemanha, 2021). Vencedor do prémio para o melhor filme, “Leopardo de Ouro”, no Festival de Locarno;
  • Las Siamesas de Paula Hernández (Argentina, 2020). Premiado no Festival de Mar del Plata;
  • Sis dies corrents (Seis dias correntes) de Neus Ballús (Espanha, 2021). Baseado em factos reais este filme aborda a relação entre os trabalhadores de uma pequena empresa de pichelaria e electricidade. Entre eles há um  imigrante marroquino. O filme obteve três prémios no Festival de Locarno com destaque para o de melhor actor atribuído  a Mohamed Mellali e Valero Escolar;
  • Une historie d’amour et de désir (Uma história de amor e desejo) de Leyla Bouzid (França, 2021). Esta é a segunda obra da realizadora tunisina e aborda a relação entre dois jovens, em Paris, um francês de origem argelina e uma tunisina recém-chegada à capital francesa;
  • Verdens verste menneske (A pior pessoa do mundo) de Joachim Trier(Noruega / França / Suécia / Dinamarca, 2021).  Prémio da melhor actriz no Festival de Cannes para Renate Reinsve;
  • Viaje a alguna parte de Helana de Llanos (Espanha, 2021). Exibido fora de concurso o filme é uma incursão na vida de dois grandes nomes da representação e do cinema de Espanha, Fernando Fernán Gómez e Emma Cohen,  e conta com a participação de vários nomes incontornáveis da história do cinema do país vizinho;
  • Zgjoi (Colmeia) de  Blerta Basholli (Kosovo / Suíça / Albânia / Macedónia do Norte, 2021), um filme oriundo de cinematografias pouco comuns nos nossos ecrãs, mas premiado em vários festivais entre eles o de Sundance.

Depois desta longa enumeração não será difícil concluir que a secção oficial da SEMINCI é um autêntico festival de festivais!

Na sessão de encerramento “Funny Boy” de Deepa Metha – a identidade de género e as tensões étnicas no Sri Lanka das últimas décadas do século XX

Deepa Metha é uma realizadora indiana radicada no Canadá, nascida em 1950. Nomeada duas vezes para o Oscar de melhor filme estrangeiro e com várias passagens por Valladolid realizou agora Funny Boy selecionado para ser exibido, fora de concurso, na sessão de encerramento deste festival. Deepa Metha é a presidente do júri internacional desta  66ª SEMINCI.

Situada no Sri Lanka dos  anos 70 e 80, o filme aborda as questões relacionadas com a evolução de um jovem “estranho”, de uma  abastada família tamil num país de maioria cingalesa. A sua vivência na meninice e adolescência, e a procura e afirmação da sua identidade sexual são o tema principal de uma trama que tem como pano de fundo a tensão entre as duas etnias que acabou por redundar numa guerra civil de mais de vinte anos.

As curtas-metragens da secção oficial

A SEMINCI dá, há largos anos, uma grande importância às curtas-metragens. Elas estão presentes em várias secções do festival havendo até sessões totalmente preenchidas por filmes curtos.

Na secção oficial competem este ano doze filmes, seis deles de animação.

É a seguinte a lista dos participantes:

  • Affairs of the Art de Joanna Quinn (Reino Unido/Canadá, 2021);
  • Aska de Clara Milo (Islândia / Canadá, 2021);
  • Duo Li, de Zou Jing (China / Hong Kong / Singapura, 2021);
  • Easter Eggs de Nicolas Keppens (Bélgica / França / Países Baixos, 2020)
  • I Gotta Look Good for the Apocalypse de Ayçe Kartal (Turquia / França, 2021)
  • L’ Enfant Salamandre de Théo Degen (Bélgica, 2020)
  • Mauvaises herbes de Claude Cloutier (Canadá, 2020)
  • Mi Última Aventura de Ramiro Sonzini, Ezequiel Salinas  (Argentina, 2020)
  • More Happiness de Livia Huang (EUA, 2021)
  • The Hangman at Home de Michelle Kranot, Uri Kranot (França / Dinamarca / Canadá, 2020)
  • Papyni Krosivky de Olha Zhurba (Ucrânia, 2021)
  • The Windshield Wiper de Alberto Mielgo (Espanha / EUA, 2021)

Júri Internacional presidido por Deepa Metha

O Júri Internacional da SEMINCI é este ano presidido pela cineasta indiana Deepa Metha. A actriz espanhola Marta Etura, a jornalista do “El País” Elsa Fernández-Santos, o historiador de cinema argentino Alberto García Ferrer, a cineasta húngara Lili Horvát (com Preparativos para Ficarmos Juntos por Tempo Indefinido conquistou a “Espiga de Ouro” para o melhor filme e a “Espiga de Prata” para a melhor realização na SEMINCI de 2020) e o argentino Javier Porta Fouz (professor de cinema e programador) são os restantes elementos do Júri.

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