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Segunda-feira, Setembro 27, 2021

Filmes e imagens da cidade sob a ditadura

Urariano Mota, no Recife
Escritor e colunista da Boitempo e do Direto da Redação. Colabora também com Vermelho, Carta Capital e Fórum.

Em mais de uma oportunidade, tenho recebido esta pergunta de pesquisadores: como era a cidade, como as pessoas viviam no tempo da ditadura?

A pergunta se faz porque imaginam um clima de tiros e bombas, de tropas do exército os dias todos nas ruas. Imaginam a cidade em guerra permanente na forma e feição que ocorreram em Santiago do Chile em 11 de setembro de 1973.

Santiago do Chile em 11 de setembro de 1973

 

Ou no Recife em primeiro de abril de 1964

 

Como viviam os jovens? Como eram as ruas?

O cenário, a paisagem desse tempo é necessária para os roteiristas e pessoas comuns também. Como vão rodar as imagens sem que caiam no clichê, que a tudo se refere e esvazia em um só movimento? Como podem usar cenas externas usando fotos repetidas do estudante que cai, golpeado e cercado, ao infinito?

Como viviam os jovens? Como eram as ruas? são perguntas que tenho escutado quando se deseja o cenário onde circulam os personagens dos romances que tenho escrito, como “Soledad no Recife” e o recente “A mais longa duração da juventude”. Então eu respondo sempre que viviam sob o terror, o terror do Estado. Que os estudantes não conseguiam nem conversar livremente, porque sempre tinham que olhar em torno antes. E se estivessem no ônibus, deviam evitar até certas palavras ou expressões de conteúdo ambíguo aos ouvidos policiais. “Socializar”, por exemplo. “Sem bandeira”, também. E no trabalho, ou nas salas de aula, se fazerem de alienados, com as preocupações máximas de música ou cinema. Até o amor, no terreno último da cama, estava sob censura. Para que falar sobre o que poderia ser delatado, quem sabe, sob tortura?

No entanto, mais adiante, uma nova pergunta se levanta: como vivia, como se comportava o povo? Então sempre me ocorre dizer que o povo era livre para fazer tudo o que os ditadores permitiam. A saber: torcer nos estádios de futebol, ouvir Roberto Carlos, ver o programa de Sílvio Santos aos domingos, beber até cair. Um paraíso que era o horror da negação de cidadania. Nada de reivindicação trabalhista, nada de movimento sindical, nada de expressão do livre pensamento. O povo estava condenado a uma vida vegetativa cujo esplendor se encarna hoje nos apoiadores de Bolsonaro. Esse era o tipo de gente querido na ditadura.

 

Ruas do Recife em 1973, o ano das seis execuções dos socialistas, os “terroristas” em um só massacre

E vem adiante o cenário buscado pelo roteiro de quem era mais jovem e não viveu nesse tempo. Naquele clima de terror, como eram as ruas, soturnas, em trevas, tristes tigres sem dentes e garras? Então eu pesquiso e vejo na internet o cotidiano das ruas em alguns filmes amadores para o Recife em 1973, o ano das seis execuções dos socialistas, os “terroristas” em um só massacre.

Observo que no filme a seguir o som, a batida, vem do hit parade americano, para ilustrar uma alegria “jovem”, de se mostrar moderno sobre velhas imagens. Ele quer filmar cenários turísticos, praia, sol, doce vida. Mas termina por ser um pesadelo pela visão de mundo, ruim em tudo.

É claro que em arquivo talvez se encontre documentário à maneira de Jean Manzon, especial para o Recife turístico de 1973. O certo é que o cotidiano não refletia de modo claro, eloquente, o caráter de uma cidade vigiada, exposta ao terror,  à tortura e mortes. Só nos jornais podemos ver, de repente, outras imagens que vêm de 1973, fotos de “terroristas” que estouram como um escândalo, como um corpo de terror que cai do céu, do estrangeiro. Mas as fotos impressas  nada falam da vida subterrânea, porque estavam sob censura policial. Nelas, jamais poderemos saber das vidas que desejavam abraçar o mundo e combater o fascismo.

Nos jornais, não podemos encontrar as imagens que só a pesquisa recupera em arquivos familiares, como a da bela Soledad Barrett, bela de luta, de futuro da humanidade e de feições.

Acredito que o documento da memória, a verdade da literatura é que realiza as imagens e o filme do Recife em 1973. Tentei, cometi um atentado talvez, no recente romance “A mais longa duração da juventude”, do qual copio um breve trecho:

 

Soledad Barrett

Em janeiro de 1973, houve um acúmulo de histórias e pessoas que tiveram um só desenlace. Se os militantes clandestinos fossem gases no ambiente fechado do Recife, teria havido uma explosão. Mas o destino dessas pessoas resiste a qualquer simplificação.

Na memória, a imagem de Soledad Barrett volta em preto e branco ou sépia. Em uma ampliação fotográfica, o sépia. O preto e branco na penetração de um sonho. Ela é a mulher pretendida por mim e outros militantes naqueles anos. Há um sentimento de delicadeza que nos invade. Eu a vejo no quintal da casa de Marx, em Jaboatão. Cheia de uma beleza que não desejava chamar atenção, me ocorre. Então ninguém podia imaginar que a visão das suas pernas, que ela nos furtava com túnicas, calças jeans, saias longas, cobriam o trauma de cruzes nazistas em cicatriz, gravadas à força em suas coxas no Uruguai. No entanto, a aparência de pudor era superficial, porque o furto e a negação para os olhos não detinham toda a Soledad, feminina plena do rosto aos seios e pessoa. Há sempre um tom da verdade que busca o núcleo sensível da imagem em sépia. Toca no músculo mais vivo, ponto delicado.

Ela representava o sonho dos desejos da revolução. Alta, magra, meiga, doce. Precisava dizer que era linda? Esse era um adjetivo que não lhe caía em cima como um chapéu, aquele, que deixaria conhecida sua imagem na posteridade. A beleza não se punha sobre Soledad. Ela era a outra definição da palavra sem que se pronunciasse o nome ‘beleza’. A sua feminilidade atraía quanto mais a evitávamos, coisa rara, futuro da sociedade que desejávamos. Aos nascidos para o voo, Soledad inspirava receio com seu corpo esguio, quebradiço. ‘Cuidado, ela vai cair. Cuidado!’ ”.

 

Milhares de estudantes foram às ruas de São Paulo protestar contra a ditadura militar em 1º de abril de 1968 – AP


Texto em português do Brasil


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