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Sexta-feira, Abril 19, 2024

Finalmente, a escola com partido

Tereza Cruvinel, em Brasília
Tereza Cruvinel, em Brasília
Jornalista, actualmente colunista do Jornal do Brasil. Foi colunista política do Brasil 247 e comentarista política da RedeTV. Ex-presidente da TV Brasil, ex-colunista de O Globo e Correio Braziliense.

E eles que falavam em Escola Sem Partido, hein. Agora temos verdadeiramente a escola com partido. Combater isso é uma urgência, em nome das próximas gerações.

No dia seguinte à sua posse, Jair Bolsonaro postou mensagem em redes sociais prometendo melhorar a educação e combater “a ideologização das nossas crianças”. No mesmo dia o primeiro titular do MEC em seu governo, Vélez Rodrigues, tomou posse prometendo combater “o lixo marxista” que teria tomado conta do ensino público. Um ano depois, estamos assistindo a uma deplorável ideologização do MEC e da educação, na senda do que já aconteceu com o Itamaraty e outros ministérios. Mas na educação é mais grave. Outras políticas públicas poderão ser corrigidas lá adiante mas já não será possível apagar, dos corações e mentes de jovens e crianças de hoje, os efeitos da doutrinação obscurantista a que estão sendo submetidos.

É impressionante a capacidade do governo de fazer tudo aquilo de que acusavam os governos petistas de fazer. Aí está a política externa mais ideológica que já tivemos, no sentido de atender mais às crenças do que aos interesses nacionais. E enquanto discutimos o “impressionante” com C do ministro da Educação, Educação, Abraham Weintraub, ele vai tocando a ideologização do ensino.

Bolsonaro tomou a si, pessoalmente, a tarefa de atacar o nome e o legado de Paulo Freire, um dos educadores mais citados no mundo, que chamou de energúmeno. Ele xinga, nós gastamos energia discutindo o xingamento e enquanto isso Weintraub vai fazendo. Ou desfazendo, como no caso das universidades, que além dos recursos, podem perder a autonomia se a nefasta medida provisória for aprovada.

No final deste semestre, o MEC poderá reconduzir, mas tudo indica que vai trocar, metade dos 24 integrantes do Conselho Nacional de Educação, órgão máximo do setor para a definição de diretrizes gerais, inclusive pedagógicas para o setor, com participação da sociedade civil. Como a maioria foi nomeada ainda nos governos petistas, naturalmente são vistos como “marxistas”.  Nele existem a Câmara de Ensino Básico e a de Ensino Superior.

As universidades estão na mira mas a ideologização mais preocupante é a do ensino fundamental, que alcança jovens ainda sem condições intelectuais de resistir a investidas doutrinárias. Este ano serão implantadas 54 escolas cívico-militares em 24 unidades da federação. Por iniciativa dos governadores (como o do Distrito Federal) algumas escolas já foram militarizadas mas ainda não recebem o suporte de R$ 1 milhão do MEC para se adequarem. Como sabido, em tais escolas, que devem ter de 500 a mil alunos,  a responsabilidade será compartilhada entre o corpo pedagógico e militares da reserva especialmente treinados para isso.

Nas que já funcionam como piloto, como as do Distrito Federal, os alunos usam farda, devem usar cabela cortado à escovinha e batem continência para os supervisores militares.

A última novidade é a implantação do programa Valores, que orientará as escolas a ministrarem pelo menos uma hora semanal de conteúdos “cívicos”. Isso faz lembrar a disciplina EMC, Educação Moral e Cívica do tempo da ditadura. Nada contra o ensino de valores como honestidade e solidariedade, alguns dos citados pelo ministro como exemplos. Mas por tudo que sabemos do governo, especialmente do ministro, tais aulas não ficarão nisso. Ou alguém duvida que vão carregar as tintas contra “fantasmas” como marxismo, comunismo, ideologia de gênero?

E eles que falavam em Escola Sem Partido, hein. Agora temos verdadeiramente a escola com partido. Combater isso é uma urgência, em nome das próximas gerações.


Texto original em português do Brasil



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