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Quarta-feira, Fevereiro 21, 2024

Fui despedido de uma Universidade (em Angola) onde lecionava por dizer verdades sobre o país

Vitor Burity da Silva
Vitor Burity da Silva
Ph.D em Filosofia das Ciências Políticas. Doutor Honorário em Literatura e Filosofia. Professor Universitário Auxiliar. Investigador Auxiliar. Escritor.

Eu formei-me em jornalismo em Portugal, doutorei-me na Itália, pós doutorei-me na Rússia e em Évora, Portugal. Sou professor catedrático em filosofia das ciências, pós-doutorado em ciências da educação e psicologia, em Évora, Portugal, pós-doutorado em filosofia, sociologia e literatura na Rússia. Com essa formação, eu sempre procurei desenvolver um pensamento crítico, rigoroso e independente, baseado na pesquisa, na evidência e na argumentação. Eu sempre acreditei que a educação é uma ferramenta fundamental para o desenvolvimento humano, social e económico, e que a liberdade de expressão é um direito inalienável de qualquer indivíduo e de qualquer sociedade.

Foi com esse espírito que eu aceitei o convite para lecionar em uma universidade pública em Angola, há onze anos. Eu vi nessa oportunidade uma forma de contribuir para a formação de uma nova geração de angolanos, capazes de pensar por si mesmos, de questionar o status quo, de propor soluções inovadoras e de participar ativamente na construção de um país mais justo, mais democrático e mais próspero. Eu também vi nessa oportunidade uma forma de enriquecer a minha própria experiência, de conhecer uma nova cultura, uma nova realidade, uma nova perspetiva.

No entanto, ao longo desses onze anos, eu fui-me deparando com uma série de obstáculos, de resistências, de conflitos, que me foram afastando cada vez mais do meu ideal de educação e de cidadania. Eu fui testemunha e vítima de um sistema educativo marcado pela corrupção, pela burocracia, pela falta de recursos, pela falta de qualidade, pela falta de autonomia, pela falta de liberdade. Eu fui confrontado com uma sociedade marcada pela desigualdade, pela pobreza, pela violência, pela repressão, pela censura, pela falta de transparência, pela falta de participação. Eu fui alvo de uma elite política e económica que se apropriou do poder, dos recursos e da informação, que se tornou arrogante, autoritária e intolerante, que não aceita a crítica, o debate, a divergência, que não respeita a lei, os direitos humanos, a vontade popular.

Eu não me conformei com essa situação. Eu não me calei. Eu não me vendi. Eu não me rendi. Eu continuei a exercer o meu papel de professor, de investigador, de cidadão, com honestidade, com responsabilidade, com coragem. Eu continuei a dizer verdades sobre o país, sobre os seus problemas, sobre as suas potencialidades, sobre as suas soluções. Eu continuei a defender os meus valores, os meus princípios, os meus ideais. Eu continuei a lutar pela educação, pela liberdade, pela democracia.

Mas isso teve um preço. Um preço alto. Um preço injusto. Um preço que eu não merecia. Eu fui despedido da universidade onde lecionava, sem justa causa, sem aviso prévio, sem direito a defesa, sem direito a recurso. Eu fui despedido por dizer verdades sobre o país. Eu fui despedido por exercer o meu direito de expressão. Eu fui despedido por cumprir o meu dever de educação.

 

Conclusão

Afinal, em que mundo estamos? Em que mundo vivemos, quando um professor é despedido por dizer verdades sobre o país? Em que mundo vivemos, quando a educação é vista como uma ameaça e não como uma oportunidade? Em que mundo vivemos, quando a liberdade de expressão é reprimida e não respeitada? Em que mundo vivemos, quando a democracia é ignorada e não valorizada?

Eu não sei responder a essas perguntas. Eu só sei que esse não é o mundo que eu quero. Eu só sei que esse não é o mundo que eu sonho. Eu só sei que esse não é o mundo que eu mereço.

Eu sinto-me perdido em Angola, um país que não me dá felicidade, mas que também não me deixa indiferente. Um país que me fascina e me frustra, que me acolhe e me rejeita, que me ensina e me desaprende, que me inspira e me desilude. Um país que eu amo e que eu odeio, que eu quero e que eu não quero, que eu sou e que eu não sou.

Eu não sei o que fazer com Angola. Eu não sei o que fazer com a minha vida. Eu não sei o que fazer com o meu ensaio.

Eu só sei que eu sou um professor. Eu só sei que eu sou um jornalista. Eu só sei que eu sou um filósofo. Eu só sei que eu sou um investigador. Eu só sei que eu sou um cidadão. Eu só sei que eu sou um ser humano.

E eu só sei que eu vou continuar a dizer verdades sobre o país. E sobre o mundo.

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