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Domingo, Fevereiro 25, 2024

“O que mata não são os sismos, são as casas”

Joaquim Ribeiro
Joaquim Ribeiro
Jornalista

São palavras do geólogo João Duarte que vai receber no próximo dia 26 de Abril, em Viena, o prémio da União Europeia de Geociências, que distingue actividade científica de excepção a nível mundial e é atribuído a cientistas desta área em fase inicial da sua carreira.

É a primeira vez que um português a trabalhar em Portugal recebe este prémio, neste caso pelo seu trabalho de divulgação científica em Geologia Marinha e Tectónica. João Duarte nasceu e reside em Torres Vedras, tem 35 anos e coordena uma equipa de investigação no Instituto D. Luiz da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa.

Licenciado em Geologia pelo respectivo departamento da Faculdade de Ciências, fez um mestrado na Universidade de Évora, regressou a Lisboa para fazer um doutoramento e esteve quatro anos a fazer um pós doutoramento em Melbourne, na Austrália.

Jornal Tornado: Este é um prémio da União Europeia de Geociências para cientistas em início de carreira. Até quando se está em início de carreira?

João Duarte: Antigamente consideravam que se era jovem cientista até muito tarde. Mas agora há uma definição certa, que é sete anos depois do doutoramento. O sénior é quando a pessoa consegue um lugar permanente numa instituição, mas aí começa a ter outras responsabilidades administrativas, a fazer parte de painéis de avaliação, dos órgãos da universidade e naturalmente começa-se a perder alguma mobilidade para fazer investigação de ponta. Eu estou a passar por essa fase, já começo a ter alguns alunos de doutoramento e de mestrado e vou tendo cada vez menos tempo para fazer investigação.

Daí que este prémio não seja menos importante por se destinar a cientistas em início de carreira, porque é quando fazem mais investigação?

Exacto. Normalmente há dois prémios. Um de final de carreira, de consagração. Este funciona um pouco como motivação. Falar de prémios é sempre complicado, porque este é atribuído a nível mundial e eu consigo identificar uns 20 ou 30 cientistas que o poderiam receber também.

 É um prémio a nível mundial atribuído pelos pares, ou seja, pelos próprios cientistas da mesma área?

Sim. É uma associação europeia de geólogos, mas qualquer cientista no mundo pode ser membro. Os prémios são decididos na assembleia geral anual, que reúne em congresso internacional entre 14 mil e 17 mil cientistas durante uma semana.

“Este prémio é de toda a minha equipa”

Porque é que acha que foi escolhido para receber este prémio? Quais foram os critérios?

Este prémio é de toda a minha equipa. Na Geologia Marinha não se faz nada sozinho. Mas penso que eles avaliaram o facto de ser novo, as publicações e sobretudo porque eu gosto muito da divulgação. Com os sismos em Itália fui várias vezes à televisão e estou sempre disposto a participar e tento comunicar através dos meios sempre que publico alguma coisa nova. Há outros cientistas cujo trabalho é muito melhor que o meu, mas penso que eles distinguiram o meu gosto pela divulgação.

Foi a primeira vez que este prémio foi atribuído a um português a trabalhar em Portugal. Há boas condições no nosso país para desenvolver este tipo de investigação?

Esta investigação de ponta é dominada por certas instituições, em geral alemãs, francesas ou suíças. Fazem investigação muito melhor do que a nossa porque investem muito dinheiro e acabam por atrair investigadores de todo o mundo. Na Austrália estive num dos melhores departamentos do mundo de geodinâmica da Terra e quase não tem australianos.

Foi importante ter estado quatro anos na Austrália?

Foi, porque consegue-se criar uma rede internacional e corta-se o cordão umbilical com os nossos orientadores. Em Portugal é mais difícil atrair dinheiro, mas é possível e Portugal está a mudar muito. Os Estados Unidos eram uma grande potência científica mas com o Trump está a ser limitada a divulgação científica, estão proibidos de publicar coisas sem passar por um crivo político. Depois há o acesso à informação. Há 30 anos se eu estivesse na Universidade de Cambridge ia à biblioteca e tinha lá tudo e aqui em Portugal não. Agora com a internet isso acabou, eu estando em Lisboa ou em Cambridge tenho acesso à mesma informação.

O IPMA (Instituto Português do Mar e da Atmosfera) adquiriu recentemente um navio, o “Mar Portugal”, para investigação marinha. Existem boas condições de trabalho em Portugal?

O IPMA é um laboratório do Estado, não faz investigação. A minha ligação deve-se aos meus orientadores e além disso há muita gente do IPMA que está também no Instituto D. Luiz, na área do clima, das pescas e da Geologia e Geofísica Marinha. Já tinham alguns barcos pequenos e este foi adquirido no âmbito de um protocolo com a Noruega.

É importante Portugal apostar na investigação marinha, com tanto território marítimo que possui?

O que está a acontecer é que neste momento está-se a trabalhar na extensão da plataforma continental, ou seja, aumentar a área sobre a qual temos direito de exploração marítima. Para isso basta juntar as 200 milhas à volta dos Açores e da Madeira. Nós fomos uma grande potência mundial quando decidimos usar o mar. No meu grupo há um projecto europeu de 10 milhões de euros para exploração de minérios no fundo do mar, os nódulos de manganês, umas bolas de ferro que têm quantidades de minerais muito raros usados por exemplo em telemóveis.

“O que mata não são os sismos, são as casas”

O seu trabalho está relacionado também com os sismos e as placas tectónicas. A Terra está sempre em movimento?

A melhor maneira de ver que isto está a mexer é com o GPS. Move-se entre um a 10 centímetros por ano. Esse crescimento é mais rápido do que parece. Na Nova Zelândia houve agora um sismo e há locais onde a terra se deslocou 50 metros. É impressionante, mesmo para nós cientistas.

Para qualquer cidadão um grande sismo é uma tragédia, mas para um cientista é uma oportunidade de estudo?

Eu costumo dizer que o que mata as pessoas não são os sismos, são as casas. Hoje um sismo é mais dramático devido ao aumento da população, à ocupação do litoral e ao crescimento muito rápido em locais onde não se devia construir.

Provavelmente vai-se repetir um sismo em Portugal como o de 1755, mas ainda não é possível prever com exactidão quando?

É difícil. Nós para prevermos um sismo precisamos de saber três coisas: onde, quando e qual a magnitude. Em relação aos sismos na nossa zona, sabemos mais ou menos onde é que vão ser e podemos ter uma ideia das magnitudes e até das periodicidades. No entanto, temos quase cem por cento de certeza que vai haver um grande sismo, mas não sabemos quando. Pode ser amanhã ou pode ser daqui a mil anos. Quanto a isso não há nada a fazer, mas podemos apostar em estratégias de prevenção.

“Apostar na prevenção sai mais barato”

A aposta deve ser na prevenção e na minimização dos eventuais estragos?

Um sismo pode causar prejuízos equivalentes a duas ou três vezes o PIB de um país. É um custo incalculável. Portanto, apostar na prevenção sai mais barato. Hoje sabe-se que a decadência do império português começou com o terramoto de 1755, porque grande parte do ouro do Brasil tinha sido gasto em monumentos que em segundos desapareceram completamente. A consciencialização das pessoas é extremamente importante, porque pode salvar-lhes a vida.

Nunca vai ser possível fazer previsões sísmicas como se fazem para o clima?

Se nós tivéssemos uma rede sísmica a nível global, a fazer monitorização constante dos continentes, já conseguiríamos fazer algumas previsões. A japonesa é impressionante, eles têm um sismómetro a cada 100 metros.

Como é que a Geologia Marinha e Tectónica pode ajudar nesse campo?

Fiz um trabalho para tentar demonstrar que o Atlântico pode já estar a começar a fechar. Para fechar o Atlântico vão ter de ser criadas zonas de subducção, como existem no Pacífico, no chamado Anel de Fogo. É a zona que está mais activa. As margens do Atlântico estavam menos activas e foi sempre um paradoxo muito grande o sismo de 1755, de magnitude 9, na margem Atlântica. Parte deste prémio tem que ver com a nossa hipótese alternativa, que é fechar o Pacífico e o Atlântico ao mesmo tempo. Para isso precisamos de abrir outro oceano, que existe, o Índico. Daqui a 20 milhões de anos se a Eurásia fracturar podemos ter uma situação em que fechamos o Atlântico e o Pacífico e forma-se um novo supercontinente daqui a 300 milhões anos. Isto foi um artigo que publicámos recentemente. As outras duas hipóteses são fechar o Atlântico e abrir o Pacífico ou fechar o Pacífico e o Atlântico continuar a abrir.

Trabalhar em hipóteses é complicado, porque só podem ser confirmadas pelos cientistas do futuro…

Há modelos numéricos que conseguem simular a Terra como um todo, mas aqui diria que é um pouco especulação, é levar o raciocínio ao limite, porque é fazer previsão. Mas a ideia é ganhar algum conhecimento do que aconteceu no passado.

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