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Quarta-feira, Fevereiro 1, 2023

Goran Paskaljevic em busca de quarta vitória no Festival

José M. Bastos
José M. Bastos
Crítico de cinema

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Por três vezes distinguido com o galardão máximo da SEMINCI – a “Espiga de Ouro” – (em 1995 com “Someone Else’s America”/A Outra América, em 2006 com “Optimisti”/Optimistas e em 2009 com “Honeymoons”/Luas de Mel), na edição de 2015 presidiu ao júri oficial deste Festival.

Dois novos candidatos

Este ano volta à competição com “Dev Bhoomi”/Terra dos Deuses, um filme passado na região “sagrada” de Uttarakhand, nos Himalaias. Tendo conhecido no Festival de Goa – em que foi presidente do júri – o actor indiano Victor Banerjee (o protagonista de “Passagem para a Índia” de David Lean/1984), este levou-o a visitar a sua casa nos Himalaias.

Aí começou a germinar na cabeça de Paskaljevic a hipótese de fazer o filme de que agora falamos.

Dev Bhoomi

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O guião de “Dev Bhoomi”, muito influenciado pela espiritualidade da poesia de Rabindanath Tagore, é partilhado pelo realizador e pelo actor e conta a história de um homem, radicado há décadas em Inglaterra, que regressa (por uma última vez) à sua terra natal. Aí é confrontado com o reavivar dos problemas do passado que o levaram a partir e que, no presente, ainda subsistem: o tema das castas, dos casamentos combinados pelas famílias, os amores impossíveis e outros preconceitos ancestrais que tardam a desaparecer.

Ao contrário do que se passa noutro filme indiano presente na competição – “EshtebaK” de Deepa Metha, de que falámos em texto anterior – em “Terra dos Deuses” a violência não é tão explícita. É uma violência escondida mas, no dizer de Paskaljevic, não menos perigosa.

As idílicas paisagens dos Himalaias contrastam com a brutalidade de muitas das tradições dos povos que aí habitam. Nome cimeiro de entre os cineastas sérvios, prestigiadíssimo internacionalmente mas quase desconhecido em Portugal – apenas o Festróia lhe dedicou há alguns anos uma retrospectiva – Paskaljevic esteve fora do seu país durante o consulado de Milosevic quase deixando de filmar na sua pátria. Isso não o impediu de continuar a fazer filmes que diríamos conterem “mensagens universais”, como este “Dev Bhoomi”/ Terra dos Deuses, um trabalho de muito baixo orçamento mas também um projecto muito pessoal do seu autor e que constitui um dos momentos mais marcantes desta edição da SEMINCI.

Como afirmou na conferência de imprensa que se seguiu à projecção, para ele, que com maior ou menor dificuldade vai conseguindo financiar os seus trabalhos, seria “moralmente insuportável” candidatar-se agora a fazer um filme na Sérvia e açambarcar todo o dinheiro estatal dísponível para a produção cinematográfica impedindo os jovens realizadores de concretizarem os seus projectos. Entre outros méritos Goran Paskaljevic tem o de ser solidário com os mais novos e nada egoísta…

La Madre

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Dos outros filmes que pudemos ver na secção oficial o maior destaque vai para “La Madre” do ‘vallisoletano’ (assim se designam os naturais de Valladolid) Alberto Morais, uma produção em que está presente a Alfama Films – empresa francesa criada por Paulo Branco para impulsionar as co-produções europeias. Uma mãe sem trabalho e um filho que alterna a permanência num centro de acolhimento de menores com trabalhos precários muito duros partilhados com imigrantes romenos, são as figuras centrais de “La Madre”, um retrato possível de uma sociedade em crise que se vive não só em Espanha, mas um pouco por toda a Europa povoada pelas vítimas de “uma guerra social e económica” para utilizar uma expressão proferida pelo realizador. De “La Madre” poder-se-á dizer tratar-se de um filme sóbrio, de grande seriedade, dignidade e contenção.

Outros dois concorrentes aos principais prémios

Menos conseguidos são, em nossa opinião, outros dois concorrentes aos principais prémios deste certame de Valladolid.

King of Belgians

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“King of Belgians”/Rei dos Belgas, de Peter Brosens é uma paródia que joga com as rivalidades linguísticas e territoriais entre francófonos e flamengos. O argumento está centrado na descrição de uma viagem atribulada, através dos Balcãs, do Rei da Bélgica e dos seus asssessores, surpreendido por uma inopinada declaração de independência da Valónia numa altura em que está de visita oficial à Turquia. Pese embora a coincidência com a crise que está a acontecer por estes dias com o veto da Valónia ao acordo comercial da Europa com o Canadá, o filme de Brosens não passa de uma caricatura fastidiosa. É manifestamente menor.

La Ciénaga – Entre el Mar y la Tierra

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Apesar de tudo mais interessante nos pareceu “La Ciénaga – Entre el Mar y la Tierra” filme colombiano, feito com recurso ao micro-mecenato, realizado por Manolo Cruz e Carlos del Castillo. Uma situação que já vimos retratada no cinema em “Mar Adentro” de Alejandro Amenábar é aqui protagonizada pelo próprio Manolo Cruz que interpreta a figura de um homem jovem portador de uma doença degenerativa muscular que o amarra a uma cama numa quase total dependência da mãe e do apoio de uma jovem vizinha. A grande diferença para o filme interpretado por Javier Bardem está, para além da manifesta inferioridade dos recursos de produção, no local da acção: aqui estamos num sítio marcado por uma grande pobreza, em casas lacustres implantadas num pântano situado numa zona costeira das Caraíbas.

Os filmes em vídeo

 La Madre

La Ciénaga – Entre el Mar y la Tierra

King of the Belgians

King of the Belgians by Peter Brosens & Jessica Woodworth star…TRAILER ALERT! The King is continuing his journey from Venice to Film Fest Gent this fall! Take a first sneak peak at the film here! #kingothebe #Venezia73 #ffgent

Publicado por King of the Belgians em Segunda-feira, 29 de agosto de 2016

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