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Terça-feira, Outubro 26, 2021

“A Grande Aposta”: quem ganha com a crise?

Carolina Maria Ruy, em São Paulo
Pesquisadora, coordenadora do Centro de Memória Sindical e jornalista do site Radio Peão Brasil. Escreveu o livro "O mundo do trabalho no cinema", editou o livro de fotos "Arte de Rua" e, em 2017, a revista sobre os 100 anos da Greve Geral de 1917

Li um texto interessante sobre a aproximação de uma possível crise econômica, como a de 2008. Interessante inclusive por colocar 2008 em uma dimensão do passado, portanto, histórica. Parece lógico, afinal são dez anos. Mas não tão lógico quando se tem a impressão que todo aquele imbróglio ainda está presente. O texto se chama “O mundo já esqueceu as lições de 2008: um grande crash nas bolsas vem aí e vai ser muito pior”, e foi escrito por Alexandre Rodrigues, para o site “The intercept Brasil”, a propósito.

Ele fala que:Quando a bolha imobiliária estourou, Netflix, Spotify, AirBnb e Uber (pode botar nesse grupo o Facebook) sequer existiam ou eram empresas das quais quase ninguém tinha ouvido falar, mas contaram com o dinheiro fácil e juros baixos para crescer. Alphabet (dona do Google), Apple, Microsoft e Amazon se tornaram as empresas mais valiosas da história”.

Isso, além de ser uma perspectiva histórica interessante, que mostra mudanças de comportamento (no mínimo fecharam as videolocadoras, não acumulamos mais CDs e os hotéis e táxis sofreram um choque de livre mercado. No mínimo), revela, pelo que entendi, que a despeito de toda a tragédia social causada pela crise, existem “espertinhos” que ganham, e muito com ela.

Rodrigues fala que “estamos próximos de um crash nas bolsas mundiais, de proporções ainda não mensuráveis” e menciona, de passagem, o filme “A Grande Aposta”, no qual Christian Bale interpreta Michael Burry, o investidor que previu, em 2005, que a partir de 2007 estouraria a crise imobiliária americana. Revi, então, o filme.

De todos os filmes que abordam a crise – Wall Street o dinheiro nunca dorme, Capitalismo uma história de amor, e até Amor sem escala, para citar alguns, este é, certamente, o mais inteligente e interessante, em minha opinião. O filme é engraçado, por conta da representação de investidores desengonçados e excêntricos. Mas, seu conteúdo, que aborda justamente “espertos” que ganham com a desgraça alheia, é trágico. Engraçado e trágico. O resultado é pura ironia. A ironia de um sistema econômico que se impõe na vida das pessoas ora dando a falsa sensação de inclusão, ora mostrando a crueza de uma realidade onde elas, as pessoas, não tem lugar.

Em certo momento um dos investidores mostrados no filme diz: “Achei que éramos melhores”. É uma constatação, que pesa, após um processo de descobertas infelizes. Entendi que, naquele momento ele, que acreditava no “sistema capitalista”, conclui que tal sistema é incapaz, ao contrário do propagado, de se autorregular. Em outro momento, muito revelador, outros investidores, em um trabalho de campo para avaliar se as previsões de Michael Burry eram realistas, visitam a agência de risco Standart & Poors e descobrem que a agência vende, isso mesmo, “vende”, avaliações, análises e pesquisas. Por aí se vê que não são apenas as pobres pessoas individualmente que correm sérios riscos nas mãos do mercado.

Enfim, “A grande aposta” é um exemplo de como o cinema ultrapassa as fronteiras do entretenimento, instigando intelectualmente e colocando questões para quem o vê.

Se estamos na porta de entrada de uma nova crise global, ou se já saímos daquela de 2008, não sei. A complexidade das entrelinhas das oscilações da bolsa de valores, como diria Julian Assange, é uma forma de censura pela da dificuldade de compreensão. O que observo é que, as pretexto da crise, entramos numa onda conservadora na qual surfam governantes “espertalhões”, fazendo miséria com programas sociais e com o (ou a falta de) poder aquisitivo do povo, que só perdeu.

Texto original em português do Brasil

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