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João de Sousa

Sábado, Novembro 27, 2021

A guerra está longe de acabar

NINM
Colaboração do Núcleo de Investigação Nelson Mandela – Estudos do Humanismo e de Reflexão para a Paz (integrado na área de Ciência das Religiões da U.L.H.T.)

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O grupo de assassinos, retira, assim de um pedaço de terra que não é seu, diminui em boa percentagem geográfica a arrogante pretensão de estabelecer um Estado – coisa que apenas faria se a comunidade internacional o reconhecesse – e deixa uma esteira de sangue, muitos mortos, injustiça plural e impunidade imperdoável.

Enquanto parte, leva famílias inteiras consigo, muitas das que se tinham refugiado na periferia da cidade, para usá-las como escudos humanos.

São, na fuga, empurrados para o tão massacrado território Sírio, onde o destino parece esconder a paz entre os destroços e entregar-se ao conflito armado por tempo indeterminável.

A ser verdade, esta “saída”, esta expulsão, permite a libertação do que resta dos legítimos ocupantes da cidade, a terceira em importância no Iraque, mas deixa, ao mesmo tempo, todas as dúvidas legítimas: o que vai passar-se a seguir? Para onde irão os fugitivos – e os novos refugiados que, entretanto, começaram a procurar destinos onde a lei das balas e da morte os ignore, o que não será fácil num planeta a ferro e fogo?

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No terreno, as forças mais bem armadas não inspiram confiança: os Estados Unidos, potência que não respeita direitos humanos, a Rússia idem (a última notícia alarmante é a de que, na Rússia, há cada vez mais pessoas presas sob a acusação de praticarem “atividade missionária ilícita”, vá lá entender-se bem o que isso é, mas sabendo à partida que se trata de mais uma violação em matéria de liberdade religiosa a somar à lista de tantas outras.

Paralelamente, a tentação dos imperialismos não cessa. Veja-se este exemplo: apesar dos pedidos de Bagdad, Ancara tem recusado retirar o contingente turco do Iraque: assegura que a sua missão é apenas de treino, para preparar contingentes para a libertação do Iraque e da Síria.

Numa entrevista divulgada no canal televisivo France 24, foi possível escutar o apelo de Ibrahim Al-Jaafari, o ministro dos Negócios Estrangeiros do Iraque, feito às tropas turcas, para que se retirem do território iraquiano. O ministro advertiu que a soberania do país será defendida “a qualquer custo” e asseverou querer manter a cooperação com a Turquia, mas – em palavras suas:

“defenderemos a nossa soberania a qualquer custo. Não aceitamos qualquer tipo de interferência de países vizinhos ou de outros países”.

Por palavras resumidas: a guerra está longe de acabar.

A Turquia dispõe de tropas estacionadas no Iraque, na base de Bashiqa, província de Ninive com o argumento de que se destina a treinar voluntários iraquianos sunitas tendo vista à recuperação de Mossul, a segunda cidade iraquiana tomada pelo grupo extremista que se autointitula Estado Islâmico em junho de 2014 e apoiar a reconquista do território sírio, onde as forças em confronto são variadas e de ideologias pouco claras (se é que têm outra além do poder do capital que lhes acena).

Os turcos têm recusado retirar o seu contingente. Os dois países partilham uma fronteira de 350 quilómetros.

O daesh lançou contra-ataque sobre a cidade de Kirkuk. Imagem: Goran Tomasevic
O daesh lançou contra-ataque sobre a cidade de Kirkuk. Imagem: Goran Tomasevic

Entretanto, o autoproclamado Estado Islâmico, segue a sua rota desesperada e já reivindicou a autoria de mais ataques suicidas perpetrados desta vez em Kirkuk, no norte do Iraque. O anúncio foi feito pelo grupo através da agência Amaq, uma organização associada aos extremistas islâmicos. Atacaram igualmente uma central de energia localizada na zona norte de Kirkuk.

De acordo com o relato de um correspondente da agência France Presse na cidade, “dezenas de extremistas armados com granadas e espingardas de assalto tomaram posições em “vários bairros” de Kirkuk”. O correspondente referiu ter visto “nove homens armados vestidos como afegãos numa rua do bairro de Adan”.

Entretanto, testemunhas citadas pela France Presse afirmam que viram pequenos grupos de homens com armas a entrar em mesquitas e a tomar posições no interior de edifícios em várias zonas da cidade.

Uma guerra sem religião, travada por crentes extremistas, que adoram os deuses das riquezas que lhes prometeram.

Este artigo respeita o AO90

Nota do Director

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