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Segunda-feira, Julho 15, 2024

Guterres enfrenta o pântano

Alexandre Honrado
Alexandre Honrado
Historiador, Professor Universitário e investigador da área de Ciência das Religiões

antonio-guterres

 

A nomeação de António Guterres para Secretário-Geral da ONU, que o prestigia e, por inerência, dignifica o rincão do mundo capaz de acreditar ainda no diálogo e na intolerância perante a violência que opõe Nações e em seu nome dizima povos inocentes, ocupou, sem surpresa, os grandes títulos da imprensa internacional.

Por cá, o único comportamento desviante prendeu-se com aqueles que procuraram colar esta nomeação ao passado do engenheiro Guterres primeiro-ministro de Portugal e à sua opção de permitir um novo sufrágio à governação do País, depois de detetar a impopularidade do que propunha – e do grupo político que o sustinha.

Nada mais ingrata e pouco inteligente, essa atitude de alguns jornalistas, alguns com créditos provados, que à força quiseram um regresso ao passado português para por em causa o presente internacional.

Por mais diferendos políticos ou diferenças intelectuais, a honestidade de Guterres pondo o cargo à disposição só o torna coerente com a honestidade do cidadão do mundo António Guterres, pondo a vida à disposição de um sonho utópico de melhores dias para a humanidade.

Comparar Guterres com Barroso

O que há de comparável com aquele Guterres que pôs um ponto final no XIV Governo Constitucional depois dos resultados dos socialistas nas autárquicas de dezembro de 2001, para evitar – mas suas palavras – um “pântano político” que realmente se previa, é uma coerência.

Já agora, nada há de comparável com a vergonhosa demissão do primeiro-ministro que lhe sucedeu. (Lembram-se da atitude de Durão Barroso, cumprida apenas metade da legislatura do XV Governo Constitucional, ao apresentar a demissão do cargo de primeiro-ministro, em julho de 2004, por ter sido indigitado para o cargo de presidente da Comissão Europeia, cargo de maior prestígio, mais bem remunerado, e a muitos quilómetros do pântano político que deixava para quem quisesse herdar a aventura?

Aliás, Durão não fez nada que se visse na Comissão Europeia, para além de levar a Europa para a Guerra do Golfo e para a crise económica devastadora que impôs ao seu país natal as mais absurdas sanções, criadas para pagar a Europa dos ricos que chapinhava num outro pântano de melgas de luxo e ambições vastas).

Também graças a Durão Barroso, Guterres terá agora a vida dificultada pelas diferenças registadas no mundo atual, tão agravadas pela Comissão Europeia e pelos Estados Unidos, de mãos dadas, nos últimos anos. É claro que Durão é apenas um dos moços de recados dos grandes interesses internacionais – e a ONU é apenas uma das organizações que procuram minorar os descalabros gerados por esses interesses.

Direitos Humanos

Após a II Guerra Mundial, a ONU adotou a Declaração Universal dos Direitos Humanos, que colocava em pauta o “respeito universal e observância dos direitos humanos e liberdades fundamentais para todos, sem distinção de raça, sexo, língua ou religião”.

Este ideal foi reforçado em 1999, ano em que líderes budistas, protestantes, católicos, cristãos ortodoxos, judeus, muçulmanos e de várias outras religiões se reuniram para assinar o Apelo Espiritual de Genebra. O documento pedia aos líderes políticos e religiosos o que, no papel, parecia simples: a garantia de que a religião não fosse usada para justificar a violência.

Passados muitos anos e outras muitas tentativas de garantir a liberdade religiosa, grande parte dos conflitos que hoje acontecem no mundo ainda envolve crenças e doutrinas, que se misturam a uma complexa rede de fatores políticos, económicos, raciais e étnicos.

Porque o Capital – e a política que o celebra e defende – governa o mundo. Agora, António Guterres, tal como Quixote contra os moinhos, vai enfrentar um dos maiores pântanos do Universo. Conhece bem a inquinação que produz. Guterres exerceu o cargo de Alto Comissário das Nações Unidas para os Refugiados.

A sua cultura, ao contrário da de Durão Barroso, confere-lhe o conhecimento do lado do mundo que merece justiça. Merece o apoio de todos os que acreditam em causas justas, afinal, aquelas que ainda acreditam no Homem como centro da afetividade, que só é possível com liberdade, com fraternidade, com igualdade e com reconhecimento de direitos universais para os seres humanos.

Este artigo respeita o AO90

Nota do Director

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