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Terça-feira, Outubro 26, 2021

Hildegarda von Bingen

Maria do Céu Pires
Doutorada em Filosofia. Professora.

O século XII, na Europa, caracteriza-se pelo desenvolvimento das urbes: a vida deixa de estar centrada apenas nos castelos e mosteiros e assiste-se ao desenvolvimento de uma nova actividade económica, o comércio, com as consequentes transformações sociais, políticas e culturais. A este nível, um dos acontecimentos mais marcante é o surgir das universidades que depressa se tornaram centros de pesquisa e de produção do conhecimento, quer na chamada “filosofia natural”, quer na teologia. Algumas delas foram palco de acesas controvérsias e, para além do labor intelectual de vários mestres como Abelardo e Bernardo de Chartres, deverá destacar-se o nome de duas mulheres: Heloísa e Hildegarda von Bingen.

Hildegarda von Bingen que nasceu em 1098, numa família da nobreza, foi monja beneditina (ingressou na Ordem em 1114), mística, teóloga, compositora, escritora e dedicou-se também à medicina e à observação científica da natureza. Pertencente à elite social e religiosa da época, a sua actividade desenvolveu-se no Mosteiro de Rupertsberg, em Bingen, e caracterizou-se pela fidelidade à ortodoxia católica. Uma das suas obras mais importantes é o o Liber vitae meritorum, (Livro dos méritos da vida), onde analisa a vida humana, os seus vícios e virtudes. Para além desta, são de destacar outras obras: Scito vias Domini (Conhece as vias do Senhor) e Liber divinorum operum (Livro das obras divinas).

No seu conjunto, esta trilogia mostra o interesse da abadessa de Bingen por temas relacionados com a vida dos santos e com a virtude, para além de se constituir como narrativa das suas visões. Referindo-se a essas visões, diz-nos Maria Leonor Xavier:  (…) deram oportunidade a um labor interpretativo que não podia deixar de convocar o intelecto e a cultura pessoal de Hildegarda. As suas visões deram, por isso, origem às suas razões. Os seus livros de visões são, pois, o lugar onde se exprime a sua inteligência do universo e as suas posições doutrinárias. Aí se torna plausível discernir uma filosofia.”[1]

A conjugação entre o natural e o sobrenatural, o misticismo e a ciência, a afirmação da fraqueza das mulheres e, em simultâneo, a afirmação de força, fazem de Hildegarda von Bingen uma figura ímpar da cultura europeia medieval. Esta doutora da Igreja (a quarta mulher, entre trinta e cinco nomes, a quem foi atribuído o título), que via para além do visível e que foi detentora de uma particular sensibilidade poética e musical, antecipou, poderemos dizer, uma certa interdisciplinaridade entre todos os saberes. Na verdade, os seus interesses eram muito diversos, sendo afectada, igualmente, por todas as maravilhas que constituem o Universo. E, pese embora a sua misoginia, ao considerar as mulheres mais fracas e inferiores, ela relacionou-se com os homens do seu tempo de igual para igual. Manteve correspondência com reis e imperadores, papas e bispos e soube sempre fazer prevalecer as suas posições, assumindo, na época, um peculiar protagonismo cultural e teológico.

Meio ano antes da sua morte, em Março de 1179, com 81 anos de idade, assiste à sua última vitória: é retirada a ordem de interdição ao mosteiro que dirigia. Esta tinha surgido na sequência da desobediência de Hildegarda às ordens da autoridade da Igreja que negavam sepultura a um nobre que tinha sido excomungado.

É este legado de liberdade (qual nova Antígona), de curiosidade por todas as coisas que existem (sejam visíveis ou não) e de intervenção criadora no mundo, seja inventando a água de lavanda, seja escrevendo tratados de botânica ou de teologia, que devemos conhecer e preservar.

É parte do percurso que nos fez chegar aqui, onde estamos. E de onde partimos para novos caminhos.

[1] Xavier, Maria Leonor, Hildegarda de Bingen, as suas visões e as suas razões, in Ferreira, Maria Luísa (org), Pensar no feminino, Lisboa, Edições Colibri, 2001.

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