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Quinta-feira, Junho 24, 2021

Hong Kong por trás do espelho – Parte II

Arnaldo Xarim
Economista.

O acordo de devolução do território à China, firmado entre chineses e ingleses, previa um período de transição de 50 anos, durante o qual deveriam manter-se as principais linhas que levaram aquela antiga colónia a um patamar de crescimento e prosperidade invejável na região.

A antiga colónia britânica no sudoeste asiático e última a ser “libertada” ao abrigo de um acordo com o governo chinês que previu a instalação do regime “Um País, Dois Sistemas”, tem sido alvo de um já longo processo de contestação popular originado no que os seus promotores designam como uma tentativa de limitação de direitos e liberdades. O acordo de devolução do território à China, firmado entre chineses e ingleses, previa um período de transição de 50 anos, durante o qual deveriam manter-se as principais linhas que levaram aquela antiga colónia a um patamar de crescimento e prosperidade invejável na região.

A pressão Ocidental continua

Os EUA e a Grã-Bretanha continuarão determinados a impulsionar as forças políticas oposicionistas, pois apesar das advertências chinesas, este é apenas mais um episódio na guerra comercial decidida pela actual administração norte-americana, cujo poder militar na zona (Japão, Coreia do Sul, Filipinas, etc.) também é um factor a considerar, até porque toda e qualquer agitação será capitalizada para justificar e intensificar essa presença.

O apoio à contestação em Hong Kong é apenas mais uma vertente do conflito que opõe os EUA à China e deve ser analisada como parte de um todo que inclui a já referida “guerra comercial”, a tentativa norte-americana de travar a difusão da tecnologia 5G da chinesa Huawei, o cancelamento projectos científicos conjuntos e a prisão de executivos chineses.

Desde a assinatura do acordo sino-britânico para a transferência da soberania sobre Hong Kong, em 1997, que deveriam ter terminado as reivindicações coloniais e as intervenções estrangeiras em Hong Kong, mas o Reino Unido não deixou apenas uma pesada herança colonial e ainda antes de abandonar a região logrou estabelecer partidos políticos e organizações sindicais, compostos pelos seus mais leais colaboradores e financiados pelo NED (National Endowment for Democracy, ou Fundação Nacional para a Democracia) dos EUA e outras ONG, como denunciou Alexander Rubinstein no artigo «American Gov’t, NGOs Fuel and Fund Hong Kong Anti-Extradition Protests» publicado na página mintpressnews.com.

A promoção da suspeição e hostilidade contra a China, em nome de um pretenso passado democrático na região, não é apenas uma falácia nem um problema local na medida em que este modus operandi é sistematicamente aplicado nas mais variadas regiões e com os mais diversos objectivos. No caso vertente tudo parece feito para exigir à China que acabe com os apoios públicos às suas indústrias, com a propriedade pública dos seus bancos e o com o seu sistema de planeamento económico.

Os cidadãos de Hong Kong em geral enfrentam agora o dilema de aceitar um modelo de economia planificada, que tem permitido à vizinha Zona Económica Exclusiva de Shenzhen um apreciável crescimento, ou continuar com os seus salários quase estagnados e a viver na cidade mais cara do mundo e as gerações mais jovens poderão até alimentar a crença numa maior independência relativamente a Pequim e pensar que com um sistema eleitoral baseado no sufrágio universal onde os partidos independentistas poderiam ter finalmente a maioria necessária para convocar um referendo, ampliariam uma dissensão ainda maior na região e colocariam o governo chinês perante a necessidade de reagir de forma musculada e ver a sua actuação criticada, ou ceder e abrir a possibilidade de ser questionado por mais regiões. Esta, que é uma visão ocidentalizada da realidade chinesa, acredita ainda que a opção pela escalda na repressão da contestação implicará o fim da preponderância de Hong Kong como centro financeiro da região, mas estará a esquecer duas importantes lições da História: nenhum governo ocidental colocará em risco o equilíbrio global por uma questão desta natureza e os grandes interesses financeiros facilmente substituirão a praça de Hong Kong por outra que assegura a continuidade dos seus negócios, que o mesmo é dizer o fluxo de capitais estrangeiros de que Pequim carece.

Conclusão

Ao abrigo dos acordos de 1997, a Região Administrativa Especial de Hong Kong é um território chinês onde vigora um sistema especial (popularizado na expressão “Um País Dois Sistemas”) que tendo possibilitado benefícios para todas as partes é agora posto em causa por interesses externos. Existindo o precedente de Tiananmen e no contexto do conflito que opõe o Império Americano ao Império do Meio, onde o primeiro procura minar as hipóteses de ascensão do segundo recorrendo a todos os arsenais não bélicos à sua disposição, Hong Kong e os seus habitantes constituem uma ínfima fracção que em última instância até poderá ser sacrificada.

Conhecendo-se os danos, ambientais e sociais, provocados pelo modelo chinês do capitalismo de estado e pelo seu congénere ocidental é de todo em todo desaconselhável analisar a situação em Hong Kong à luz de uma mera digladiação ou de uma simples comparação entre custos e benefícios dos dois modelos.

Não fosse o somatório de contradições, falsas afirmações e dúbias intenções e talvez a contestação em Hong Kong não tivesse atingido a dimensão que se lhe conhece – incluindo alguns dos excessos que até a imprensa ocidental tem relatado – e pudesse até merecer outro tipo de apoio ou simpatia. Assim, a crise em Hong Kong aparenta ter mais de xadrez internacional – um jogo onde além do domínio imperial se disputa a perpétua busca de lucros – que de liberdades ou garantias locais, que, como num jogo de espelhos, reflecte múltiplas realidades mas raramente a que verdadeiramente determina o bem-estar das populações ou o interesse-geral.



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