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Quarta-feira, Janeiro 26, 2022

Ilícito, de Paulo da Costa Domingos

Yvette Centeno
Licenciou-se em Filologia Germânica, e e doutorou-se com uma tese sobre A alquimia no Fausto de Goethe. É desde 1983 Professora Catedrática da Universidade Nova de Lisboa, onde fundou o Gabinete de Estudos de Simbologia, actualmente integrado no Centro de Estudos do Imaginário Literário.

Ed. Averno 2020. A poesia de Paulo da Costa Domingos não permite leituras apressadas, exige a demora, a lentidão de um pensamento que acompanhe o som da sua voz.
Sobre fundo negro, o cinzento do que poderíamos chamar um mandala, ou um círculo mandálico, tendo por dentro rasgões e peças do quotidiano. É assim a poesia de Paulo: eleva o quotidiano que lhe chama a atenção a uma esfera outra, transcendente, que não explica, deixa em suspenso para que o nosso olhar se fixe e se demore, enquanto lê. A poesia de Paulo da Costa Domingos não permite leituras apressadas, exige a demora, a lentidão de um pensamento que acompanhe o som da sua voz. Podemos ler em voz alta e logo se perceberá melhor o que se diz, num diálogo com um Mestre invisível, Deus ou Diabo, que não respondem à pergunta essencial:

“Que tempo fará
quando eu estiver ausente?”

O poema forma-se, diz ele, como “um veio” (p.6)

“no meio
da fractura
avulsa
d’escritura avulsa”.

Os poetas sabem que sem fractura não haverá poema, sem dor não haverá a exaltação final tão desejada. Há um veio no mandala da capa, que é já um sinal. Dentro estarão os verso que o preenchem.

Adiante de novo um apelo ao Mestre:

“Mestre, mestre
esta máquina pós-moderna
ceifa os doze indomáveis na hora
primeira, o homem da montanha
na hora terceira. Fende o dique
para que o dia anoiteça em óleo
e lama: a lama dúbia da noite”.

Dos pesadelos da noite surge a escrita do dia, o verbo que se faz livro, “árvore de cordel” (p.9). Em tudo Paulo sente a fragilidade, do que começa ou do que acaba:

“Eu sozinho, mestre, perplexo
ante a ciência que me deste
do compasso, pétala e agulha”.

(p.13).

A conclusão devagar se vai afirmando, como os versos anteriores, discretos, deixavam suspeitar:

“Nada resta
senão a feroz inteligência da cobra
em todos expulsar do seu rastro”

(p.19).

No  poema da página 20, bem como no último com que se fecha o livro, há uma reminiscência da infância (a inocência) perdida e a descoberta de um “nome novo”. Nome novo que poderá ser de um homem novo, sem “idolatria nem religião.”

Na fresca escuridão, uno.

Foi preciso descobrir e despojar-se, de todas as grandes e pequenas coisas, para atingir este momento em que liberto afirma: “E aqui eu pude, por fim descalçar-me”.

Despido e entregue, como Job, tem por fim o poema, o verso libertador, do Uno e do Todo da Tábua de Esmeralda, que não cita, mas reconhece e resguarda.

 

Paulo da Costa Domingos

Ilícito
ed. Averno

2020

 

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