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João de Sousa

Segunda-feira, Dezembro 6, 2021

Injecções

Paulo César
Professor e escritor galardoado.

Desde 2007, a Caixa Geral de Depósitos foi já injectada com 6,25 mil milhões de euros, o BES/Novo Banco com um total de 6,7 mil milhões de euros, o BPN com 4,33 mil milhões de euros, o Banif com 3,35 mil milhões de euros, o BPP com 450 milhões de euros, o BCP com 3 mil milhões de euros e o BPI com 1,5 mil milhões de euros, embora se deva dizer que estes dois últimos já devolveram estes empréstimos injectados.

Quando criança, talvez com cinco, seis anos, com uma frequência inaceitável surgiam bolinhas de pus na minha garganta, sinalizando o aparecimento de mais uma amigdalite. A dor de garganta, a febre e a dor de cabeça, a dificuldade em engolir e a falta de apetite eram apenas os sintomas desagradáveis que já adivinhavam o sacrifício supremo a que teria de me submeter por causa de uma maldita bactéria que tinha tido a ousadia de profanar o meu sagrado corpo, protegido pelas rezas da minha avó para que eu não ficasse doente, entrando por ele dentro e instalando-se em trono de rainha bactéria espalhando o reino do terror no meu debilitado corpo sem que Deus tivesse ouvido as preces diárias da minha avó e as minhas, que ainda não chegara à catequese, que consistiam em pedir ao meu anjo da guarda que me guardasse a alma de noite e de dia, mas, provavelmente, teria de pedir que me guardasse também o corpo, sobretudo as amígdalas da diabólica bactéria.

O verdadeiro sacrifício supremo consistia na ida à farmácia para levar uma injecção de penicilina. A dor causada pela injecção de penicilina era tão aguda e intensa que a minha avó tinha de me levar ao colo até casa, facto constrangedor e cansativo para ela porque, além do choro cortante que eu emitia junto ao seu ouvido, a distância até casa não era tão curta como o caminho que o Capuchinho vermelho fez para chegar a casa da sua avó e eu já não pesava dez quilos como quando tinha dois anos, pesava já bem perto dos vinte, mas, felizmente, naquele tempo só comíamos um pão com manteiga e um copo de leite, de manhã e a meio da manhã e da tarde, não enfardando, como agora em tão tenra idade, bollycaos, manhãzitos, cereais com acúcar, chocapics, croissants, pão com doce ou nutella, iogurtes açucarados, entre outras porcarias doces e gordurosas que se ingerem actualmente.

A grande vantagem das avós e mães é que agora não precisam de carregar os gordinhos filhos ou netos ao colo e a berrarem, pois já toda a gente tem um automóvel próprio ou chama um táxi ou manda vir um uber. Ainda em criança, passei a pedir ao meu anjo da guarda que me livrasse das amigdalites e das injecções de penicilina de noite e de dia e descurei o pedido de guardar a minha alma. O anjo da guarda foi meu amigo e, felizmente, não precisei mais de ter uma das minhas pernas paralisadas depois da injecção de penicilina, consoante fosse administrada na nádega esquerda ou na direita.

Porém, desde 2007, a dor das injecções voltei a senti-las, não já no corpo, mas na alma e no bolso. Desde 2007, a Caixa Geral de Depósitos foi já injectada com 6,25 mil milhões de euros, o BES/Novo Banco com um total de 6,7 mil milhões de euros, sendo que destes 1,15 mil milhões em 2019, o BPN com 4,33 mil milhões de euros, o Banif com 3,35 mil milhões de euros, o BPP com 450 milhões de euros, o BCP com 3 mil milhões de euros e o BPI com 1,5 mil milhões de euros, embora se deva dizer que estes dois últimos já devolveram estes empréstimos injectados.

Durante estes anos, senti um aperto forte na minha alma e uma contracção evidente no meu bolso porque, à medida que a seringa do Estado injectava estes bancos privados e um público com gestão “à privado”, usava essa mesma super-seringa para extrair do bolso dos contribuintes os euros necessários para socorrer ao que não geriram bem as suas finanças, aplicando o dinheiro dos seus depositantes privados em operações especulativas e acções e dívidas públicas de países débeis, esperando não retribuir os seus depositantes se tudo corresse bem, mas esperando esses banqueiros usurpadores encherem mais os seus bolsos usando arriscadamente dinheiro que, na verdade, não era deles.

Entretanto, desde há uns anos, o Estado lá foi repondo algum desse dinheiro que sugara do bolso dos seus fiéis contribuintes. Infelizmente, surgiu a pandemia do novo coronavírus, o Covid 19 ou Sars Cov 2, e a recessão e a contracção económica e financeira tornava-se óbvia. O dinheiro iria faltar ao país, mas eis que surge o Cristiano Ronaldo das Finanças a marcar um golo de pontapé de bicicleta, completamente inesperado, tão inesperado que o seu treinador nem queria acreditar que tal acontecera, e mete na baliza do Novo Banco mais 850 milhões de euros, quando é previsível que o Estado precisa de apoiar a população em geral, as empresas, a segurança social face ao aumento do desemprego e ao prolongamento do “lay-off”.

Esta última injecção quase levou ao definhamento da minha alma e como é previsível levará ao definhamento do meu e do bolso de todos os contribuintes, como já foi dito entre dentes pela competentíssima Ministra da Reforma do Estado, Alexandra Leitão, promovida a ministra por ter conseguido, por exemplo, enquanto Secretária de Estado da Educação, apagar mais de seis anos de trabalho de professores para efeitos de progressão e justa devolução do dinheiro que também estes “emprestaram” ao Estado para estes salvarem os agiotas da Banca.

Invade-me um sentimento contraditório, pois, se agonio em alma por mais esta injecção, confesso que já tenho pedido ao meu anjo da guarda que ajude os cientistas a arranjarem uma vacina contra o Covid 19 para ma injectarem no braço e eu poder recuperar a minha liberdade que eu tanto prezo. Estranhamente, tenho também pedido ao meu anjo da guarda que, numa boa acção de propaganda da eficácia das suas ideias na luta contra o Covid 19, Donald Trump transmita em directo a sua nova vacina contra este vírus coroado, uma injecção de lixívia, já que a injecção de desifectante directamente nos pulmões  por ele sugerida não foi seguida correctamente, apesar da eficácia comprovada pela morte do coronavírus e do seu hospedeiro, um efeito secundário menor, em meia dúzia de fiéis seguidores da Igreja dos Últimos Dias dos Seguidores de Donald Trump que decidiram beber desinfectante.  Trump, em directo, a injectar esta nova vacina é o meu último pedido ao meu anjo da Guarda. Tenho pena que ele não permita agora que brasileiros entrem no Brasil, pois, assim, poderia convidar o seu amigo presidente (e como ele inimigo dos jornalistas hostis e ao serviço do inimigo que é só as suas reeleições) Jair Bolsonaro para, numa clara demonstração da capacidade de ambos de acabarem com a pandemia do Covid 19 nos seus países, e do número crescente de infectados e de mortos, se injectarem os dois nos braços, não nas nádegas, para não tornar ainda mais arrepiante o “freak show”, em directo, para os seus países, com a fantástica vacina de lixívia.


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