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Sábado, Novembro 27, 2021

Iraque, país mártir

Beatriz Lamas Oliveira
Médica Especialista em Saúde Publica e Medicina Tropical. Editora na "Escrivaninha". Autora e ilustradora.

Em 1963, os EUA ajudaram a continuar o longo pesadelo, que tem sido a vida no do Iraque, quando fomentaram  a queda do governo popular de Abdel Karim Kassem, que queria nacionalizar o petróleo iraquiano e criar programas de assistência social.

Lembra-lhes o que está agora a acontecer na Bolívia?

Naqueles anos 60 os EUA apoiaram então a ascensão de Saddam Hussein e apoiaram o seu regime ao longo dos anos, usando esse apoio como tática contra o Irão. Fizeram-no ignorando os horrores das perseguições políticas, tortura e execuções usadas pelo líder Sadam. Ignoraram a matança dos civis curdos na cidade de Halabja e os massacres de iraquianos xiitas, após a Guerra do Golfo.

Durante sessenta anos os EUA e a Grã-Bretanha desempenharam um papel central no fomento de desastres que destruíram a vida de gerações inteiras no Iraque e no Irão. Qualquer crítica ao papel que tem hoje o Irão não pode apagar as maléficas e erradas ações conjuntas de britânicos e americanos.

Crise atual

Hoje em dia vemos as notícias de sucessivas manifestações no Iraque contra o governo  presidido por Adel Abdul Mahdi, um dos protagonistas dos atuais acontecimentos

De acordo com notícias atuais emitidas pela Al-Jazeera mais de 300 pessoas foram mortas e milhares de outras ficaram feridas desde que os protestos contra o governo do Iraque eclodiram no início de outubro último provocados por uma raiva generalizada sobre a corrupção oficial, desemprego em massa e serviços públicos que nunca ultrapassaram a destruição que lhes foi infligida depois da invasão do Iraque pelos americanos. Manifestações em Bagdade e várias cidades no sul do Iraque, representam o maior desafio ao governo de um ano do referido primeiro-ministro Adel Abdul Mahdi.

Muitos manifestantes  dizem que as autoridades do país falharam em melhorar a vida de seus cidadãos, apesar de um período de relativa calma que se seguiu à derrota do Estado Islâmico do Iraque e do grupo armado Levant (ISIL ou ISIS) há dois anos.

O Iraque tem  40 milhões de habitantes dos quais 60% vivem com menos de  6 dólares por dia, segundo dados do Banco Mundial.

A miséria vivida por um país  que tem a quinta maior reserva  de petróleo do mundo.

O acesso a cuidados de saúde, educação, água potável e eletricidade são restritos e  grande parte da infraestrutura do país ficou inutilizada.

Al-Sistani pede reforma eleitoral

Na sexta-feira, o principal líder xiita do Iraque, o grande aiatolá Ali al-Sistani, pediu aos políticos do país que acelerassem a reforma das leis eleitorais, dizendo que as mudanças eram a única maneira de resolver a agitação mortal que se desenrolou nas últimas semanas.”Afirmamos a importância de acelerar a aprovação da lei eleitoral e da comissão eleitoral, porque isso faria que o país estaria a dar passos para sair da crise”.

O presidente do Iraque, Barham Salih, prometeu realizar uma eleição parlamentar logo que uma nova lei seja aprovada, numa tentativa de acalmar os manifestantes, mas não definiu nenhum cronograma para a votação. Mohammed Jamjoom, da Al Jazeera, informou em Bagdade que uma sessão parlamentar deve ocorrer no próximo sábado, durante a qual a lei de reforma eleitoral terá uma segunda leitura, abrindo caminho para uma possível votação parlamentar da legislação na próxima semana.

Mas os manifestantes desconfiam de tudo o que o governo diz.

Por isso  continuarão a aparecer nas ruas todos os dias independentemente das ameaças que lhes são feitas. Querem ver as promessas cumpridas e não só anunciadas.

Em resumo: Protagonistas iraquianos desta crise atual

  • O 1º Ministro  Adel Abdul Mahdi, 
  • o líder xiita do Iraque, o grande aiatola Ali al-Sistani
  • O presidente do Iraque, Barham Salih
  • O povo que invade as ruas em protesto

 

Antecedentes

A História do Iraque desde os tempos da dominação Otomana

Império OtomanoDe 1638 até até à  Primeira Guerra Mundial, o território do Iraque fez parte do Império Turco-Otomano.

A história moderna do Iraque começa com a última fase da regência Otomana, durante o século XIX. Até à década de 1830, o sultão otomano, sediado na capital Istambul, governava uma área vastíssima, que ia de Viena a Bassorá.

O verdadeiro poder, no que diz respeito ao atual Iraque, estava entre os poderosos líderes das tribos e  governantes locais convertidos ao Islão e que tinham a confiança de Istambul. No norte do atual Iraque, os lideres curdos sentiam-se praticamente livres. Os nómadas nunca sentiram o jugo otomano. Havia hostilidades e conflitos entre nómadas, árabes, turcos e persas que viviam na região o que impediu durante longo tempo  uma eventual unificação política.

O último líder muçulmano, um dos tais convertidos ao Islão, Daúde (1816-1831), iniciou importantes programas de modernização, que incluíram a construção de canais, indústrias, treino de 20 mil soldados e inicio da imprensa. Mas em 1831 uma  cheia devastou Bagdade, possibilitando que o sultão otomano Mhamude II estabelecido em Istambul, restabelecesse a soberania sobre o atual Iraque. O governo otomano foi instável. Bagdade teve mais de dez governadores entre 1831 e 1869.

Em 1869, no entanto, os otomanos reconquistaram a autoridade quando Midate Paxá foi indicado governador de Bagdade.

Midhat imediatamente iniciou um processo de modernização do atual Iraque nos moldes ocidentais. Reorganizou o exército, criou códigos penais e comerciais, secularizou o sistema educacional e melhorou a administração provincial. Midate estimulou a sedentarização das tribos nómadas com a venda de terras aos chefes tribais, o que reduziu a influência dos grupos que continuavam errantes. Os árabes começaram a experimentar as consequências dos novos e mais eficientes métodos administrativos otomanos, principalmente no recebimento efetivo de impostos. O grande crescimento do Império Otomano fez surgir na ressentida população um forte espírito nacionalista árabe, encorajado também pelas ambiciosas potências europeias.

 

Presença do Reino Unido e da Alemanha

Na última parte do século XIX, o Reino Unido e a Alemanha tornaram-se rivais no desenvolvimento comercial nesta área da Mesopotâmia. Os britânicos foram os primeiros a cheirarem o  interesse pela região. Em 1861 estabeleceram uma companhia de barcos a vapor no porto de Bassorá. Os alemães de Bismarck queriam construir o Caminho de Ferro do Oriente, ligando Berlim a Bagdade. Queriam também construir um caminho de ferro ligando Bagdade a Bassorá no Golfo Pérsico. Enquanto isso o Império Britânico consolidava-se no Golfo Pérsico protegendo lideres árabes locais. Também foi ocupando as costas de Omã, do Katar, dos agora Emiratos Árabes Unidos. Londres estendeu a seguir a mão para o Koweit um Emirato dependente de Bassorá. Investidores britânicos conseguem uma concessão para, em 1901, explorar campos petrolíferos do Irão.

Em novembro de 1914, no  início da Primeira Guerra Mundial o Império Otomano junta-se à Tríplice Aliança (Alemanha, Itália e Império Austro-húngara), dando motivo a que o Reino Unido envie tropas para proteger os seus interesses petrolíferos na região da Mesopotâmia, ou seja, no futuro Iraque.

Os turcos otomanos e os britânicos assinaram um armistício em outubro de 1918, mas o exército britânico continuou a mover-se para o norte até capturar Mossul ganhando controle sobre quase toda a Mesopotâmia.

O Iraque torna-se um protetorado britânico.

No plebiscito de agosto de 1921, controlado pelo britânico Colonial Office, a população das margens do Tigre e do Eufrates elegeram com 96% dos votos, Faiçal como  Rei do Iraque.

O novo monarca precisava construir sua base de apoio no Iraque. Ele concluiu essa tarefa principalmente ganhando apoio dos militares nascidos no Iraque que serviram no exército Otomano e dos árabes sunitas, líderes religiosos e comerciais em Bagdade, Bassorá e Mossul. Para ganhar apoio dos xiitas, das tribos sunitas  o rei, com apoio dos britânicos, deu aos chefes tribais amplos poderes sobre suas tribos, incluindo poderes judiciais e de coleta de impostos nos seus domínios tribais. Os líderes urbanos árabes sunitas e alguns chefes curdos dominaram o governo e o exército, enquanto que os chefes árabes xiitas e, em menor extensão, chefes árabes sunitas dominaram o parlamento, decretando leis que os beneficiavam. As classes mais baixas não tinham participação nos negócios de Estado. Faziam parte dessa classe os camponeses pobres e, nas cidades, a grande camada de jovens educados no ocidente, que eram economicamente vulneráveis e dependiam do governo para arranjar emprego. Esse último grupo, conhecido por efendiy, tornou-se mais numeroso e inquieto. Tanto a elite governante como  os efendiy abraçaram a ideia do movimento pan-arabista, que sonhava juntar todas as regiões árabes em um único e poderoso Estado. O Pan-arabismo era visto como meio de unir a maioria da diversificada população através de uma identidade árabe comum. A elite defendia alcançar o pan-arabismo através da diplomacia, com o consentimento britânico, enquanto que os efendiy desenvolveram uma ideologia radical,revolucionária e anti britânica/anti colonial.

O rei Faiçal I requereu solenemente que o mandato britânico sobre o qual o Iraque  fosse transformado num tratado de aliança entre duas nações. Apesar da Grã-Bretanha não ter terminado o mandato, em junho de 1922 foi assinado um tratado de aliança entre o Iraque e a Grã-Bretanha.

Em outubro de 1932 o Iraque entrou na Liga das Nações como um Estado livre e soberano, depois de dez anos de pressões e conversações com os britânicos que nunca deixaram nenhuma colónia de mão beijada.

Desde a independência até aos dias de hoje o Iraque sempre foi fortemente pressionado a apoiar o Reino Unido e nunca chegou a conhecer uma paz ou políticas genuinamente suas.

Durante a II Guerra Mundial, em  1942 o país transformou-se num importante centro de suporte logístico para as forças dos Estados Unidos e da Grã-Bretanha que operavam no Médio Oriente e de transbordo de armas para a União Soviética. Em 17 de janeiro de 1943 o Iraque declarou Guerra à Alemanha, sendo o primeiro país islâmico independente a fazê-lo. A Grã-Bretanha manteve a ocupação do Iraque até 1945.

Em 1953, foram feitas as primeiras eleições parlamentares por sufrágio direto. Restabeleceu-se o governo constitucional e Faiçal II cedeu formalmente o trono.

No dia 14 de julho de 1958 o exército Iraquiano fez um inesperado golpe de estado pan-arabista, liderado pelo general iraquiano Abdul Karim Kassem. O rei Faiçal,de 23 anos de idade, foi assassinado, juntamente com a sua família. O primeiro-ministro Nuri as-Said, que era tido como uma figura símbolo da ligação ao colonialismo do Reino Unido foi linchado nas ruas de Bagdade.

No seguimento do golpe de Estado de 1958 tiveram lugar algumas reformas sociais e democráticas. Foi aprovada uma nova constituição, foi permitida a formação de partidos e de sindicatos.

O petróleo foi nacionalizado, bem como outras indústrias, e foi lançada uma reforma agrária. Ao mesmo tempo era denunciado o pacto de Bagdade e estabelecidas relações próximas com a República Árabe Unida (15 de julho).

Abdul Kassem,  fez tentativas de ganhar a confiança do Ocidente mantendo a oferta de petróleo, mas sem qualquer sucesso.

Após o término do mandato britânico no Kuwait (junho de 1960), o Iraque reivindicou o território, declarando que a área fazia parte do Estado Iraquiano na época de sua formação. Convidadas pelo governante do Kuwait, forças britânicas entraram lá em julho. O Conselho de Segurança da ONU rejeitou um pedido iraquiano ordenando sua retirada.

OPERAÇÃO “LIBERDADE do IRAQUE” e presença americana

Foi lançada pelos Estados Unidos a 20 de março de 2003 no contexto e a pretexto da Guerra Global contra o Terrorismo. A invasão relâmpago durou uns escassos 21 dias e foi militarmente bem sucedida. Os americanos marcharam com apoio militar do Reino Unido, Austrália e Polónia.

O objetivo era derrubar o  regime baathista do ex amigo e tirano Saddam Hussein. O governo no poder foi destituído e o vice rei americano Paul Bremer foi entronizado.

E um novo descalabro atingiu a antiga Mesopotâmia. Como escrito no início deste artigo, quando vemos o que se passa nos dias de hoje com sucessivas manifestações no Iraque contra o governo  presidido por Adel Abdul Mahdi, um dos protagonistas dos atuais acontecimentos, vemos as consequências desastrosas da invasão e presença americana nos últimos 16 anos.


Por opção do autor, este artigo respeita o AO90


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