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Sábado, Dezembro 3, 2022

Israel-Palestina: Que conflito é esse?

O “lar nacional para os judeus” pretendido pelos sionistas em 1897, ou o Estado puramente judeu, é uma estratégia, da qual fazem parte a expansão dos assentamentos judaicos e a consequente limpeza étnica, iniciada em 1948.

O conflito na Palestina não tem nenhuma relação com as percepções do senso comum e da opinião “publicada”, que visa à redução da sua dimensão de luta libertária a uma suposta “guerra religiosa” ou “terrorismo”, justificativa utilizada para se referir ao esforço da resistência palestina para se livrar da opressão do apartheid sionista.

No final de 2019, foi lançado o livro, de minha autoria, “Palestina: do mito da terra prometida à terra da resistência” (Anita Garibaldi/Ibraspal, 2019. 412 p), um trabalho que demonstra que as questões históricas e políticas do conflito, que já dura quase cem anos, não decorrem de uma disputa político-religiosa travada entre judeus e palestinos.

Nessa obra, procuro demonstrar que o conflito é parte de um contexto mundial que evoluiu a partir do surgimento do sionismo internacional, um movimento nacionalista judaico de direita, criado na Europa do século XIX, que passou a reivindicar a Palestina como território para o estabelecimento de um Estado judeu, uma aberração teocrática que se concretizou com a fundação de “Israel”, em maio de 1948.

Os sionistas e seus apologistas utilizam todos os recursos de mídia e a internet, com suas redes sociais, a fim de concretizar essa narrativa e atingir seu objetivo de criar uma “cortina de fumaça” sobre a busca incessante para eliminar o povo palestino e sua longa história, além da cultura e da terra palestina, e para, em seu lugar, expandir o Estado judaico.

O “lar nacional para os judeus” pretendido pelos sionistas em 1897, ou o Estado puramente judeu, é uma estratégia, da qual fazem parte a expansão dos assentamentos judaicos e a consequente limpeza étnica, iniciada em 1948, depois que a Organização das Nações Unidas (ONU) dividiu a Palestina secular em dois Estados e, posteriormente, deu as condições para a criação de um “Estado” sem fronteiras, sem constituição, sem governo e sem nação.

Criança palestina em meio aos escombros de uma escola bombardeada pelo exército israelense (UN Photo/Shareef Sarhan)

A ONU é a responsável pelos meios políticos e o aval internacional ao projeto colonial sionista, promovendo as condições que permitiram o surgimento desse monstro que adota todas as formas de violações, racismo e genocídio na Palestina e em toda a região do Oriente Médio. Os líderes israelenses não aceitaram e não respeitaram os termos da Resolução 181/1947, que previu a criação do Estado palestino e deu status especial à cidade sagrada de Jerusalém.

Após a fundação de “Israel”, em 1948, as milícias terroristas sionistas desencadearam a ocupação das terras e casas dos palestinos, por meio da expulsão e aniquilação física de seus donos. Esse evento ficou conhecida como nakba, palavra árabe que designa a tragédia que se intensificou com a chamada Guerra dos Seis Dias, uma agressão terrorista das forças israelenses ocorrida entre 5 e 10 de junho de 1967, que ocupou a Faixa de Gaza, o Sinal (Egito) e as Colinas de Golã (Síria).

O objetivo principal do projeto colonial de supremacia judaica é a completa desenraização e destruição da Palestina, em benefício exclusivo dos judeus, visando reconhecer o Estado de Israel em todo o território da Palestina histórica, sem fronteiras definidas e em permanente expansão, transformando o que sobrar da Palestina em pequenas ilhas de terras, como se fosse um miniestado, pulverizado, cercado e sufocado pelo ocupante por todos os lados.

O que Israel tem feito ao longo dos últimos 73 anos é contrariar e violar o Direito Internacional ao adotar uma política militarista, expansionista e colonialista nos territórios palestinos e a ocupação de territórios nos países árabes vizinhos (Jordânia, Síria, Egito e Líbano).

É notório que o agressor tem sido Israel, que praticou ataques assimétricos contra Gaza e as forças do Movimento de Resistência Islâmica (Hamas), em 2008/2009, 2012, 2014, 2015, 2018 e em maio deste ano, como forma de legitimar a ocupação, expandir ilegalmente o território do chamado “Estado judeu” e destruir a infraestrutura de Gaza, gerando o caos visando enfraquecer a resistência palestina que luta há 73 anos por direitos, dignidade e existência.

Uma das melhores definições de para onde caminha a situação de impasse e onde essa torrente irá desaguar foi dada pelo escritor Ilan Pappé, um israelense odiado pelos sionistas, que defende a ideia de que o único regime razoável parece ser um estado democrático e laico para todos os habitantes da Palestina. Se não for encontrada uma solução como essa, a tormenta nas fronteiras de Israel se acumulará com uma força ainda maior do que teve até agora.

Segundo Ilan Pappé, no artigo “A solução de dois Estados morreu faz uma década”, os israelenses podem ocupar o melhor camarote no Titanic, mas o navio continua afundando, de qualquer maneira. Isso, porque, por todos os lados no mundo árabe, os povos e os movimentos de resistência estão buscando formas de mudar os regimes arcaicos e as realidades políticas opressivas. Esse dia chegará também para Israel.

Há um evidente crescimento da impopularidade de Israel em todo o mundo. As ruas de várias cidades em diferentes países são palcos frequentes de manifestações de apoio à causa palestina e de franco repúdio às ações do apartheid sionista. Ao mesmo tempo, são positivas para a causa palestina as ações de instituições internacionais, como o Tribunal Penal Internacional, sediado em Haia, na Holanda, que deu início a um inquérito para investigar os crimes de guerra e de lesa-humanidade praticados contra a Faixa de Gaza desde 2014.

Carreata “Palestina Livre” pelas ruas da Fronteira entre Brasil e Uruguai (Marcelo Pinto/APlateia)

Essas são ações importantes em favor dos legítimos direitos dos palestinos. No entanto, é preciso que todas as forças que defendem a justiça e o respeito ao Direito Internacional exijam dos seus países, e especialmente da ONU, que ajudem a pôr fim à ocupação colonial israelense, para que os palestinos possam viver com dignidade na sua terra ancestral da Palestina, tendo a sagrada Jerusalém como sua capital.

Para o povo palestino, que luta há tantos séculos contra ocupações, não importa quanto tempo o apartheid de supremacia judaica permaneça em sua terra, porque os sionistas serão derrotados, mesmo com todo aparato militar e apoio estadunidense que “Israel” possui. Os palestinos estão com a verdade e a justiça.

O palestino tem um desejo avassalador pelo respeito aos seus mais legítimos direitos. Esse povo lutará até seus direitos serem assegurados, em concordância com a democracia, o Direito Internacional, a justiça, a garantia do direito de retorno dos refugiados, além da compensação e da permanência de todos na terra palestina.


por Sayid Marcos Tenório, Historiador, Vice-presidente do Instituto Brasil-Palestina (Ibraspal) e autor do livro Palestina: do mito da terra prometida à terra da resistência (Anita Garibaldi/Ibraspal, 2019). E-mail: [email protected] – Twitter: @HajjSayid

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