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João de Sousa

Terça-feira, Julho 5, 2022

“Jamais se deve perguntar às árvores se querem água”

Delmar Gonçalves, de Moçambique
Delmar Gonçalves, de Moçambique
De Quelimane, República de Moçambique. Presidente do Círculo de Escritores Moçambicanos na Diáspora (CEMD) e Coordenador Literário da Editorial Minerva. Venceu o Prémio de Literatura Juvenil Ferreira de Castro em 1987; o Galardão África Today em 2006; e o Prémio Lusofonia 2017.

Antes e depois da concretização do acordo geral de paz de Roma para Moçambique entre o partido do governo da Frelimo e a Renamo, houve promessas de apoio total aos futuros desmobilizados moçambicanos, tanto a nível nacional como internacional.

Lembro-me bem de ter levantado esta questão num fórum em Lisboa em que participava um embaixador moçambicano.Então com ironia este respondeu-me: “Você é desmobilizado? Tem pelo menos algum familiar desmobilizado?” Da minha parte obteve resposta imediata e por certo  inesperada: “Sim, tenho cinco tios,um irmão e uma tia que foram compulsivamente mobilizados para o exército no esforço de guerra que então havia sido empreendido!”. De repente, silêncio total na sala. Afinal havia razões bem fortes para questionar.

Embora partilhe a ideia que temos todos os mesmos direitos, deveres e obrigações perante a lei , reconheço no entanto que em muitos casos há uma  grande diferença entre a teoria e a prática. Dura lex sed lex, não é?Então respeitemos a lei!

Hoje em pleno exercício de uma “democracia constitucional” emergente em Moçambique (longe da perfeição e com atropelos visíveis) os desmobilizados continuam numa situação dramática abandonados à sua sorte. Alguns deles com traumas psicológicos de guerra e outros até com mutilações bem mais que visíveis.

Diz-se que a necessidade aguça o engenho! Mas o que fazer com alguém que só conseguiu resolver os seus problemas diários com a ajuda das armas e que provavelmente só sabe lidar com armas, com o agravante de não ter ninguém que o oriente e ajude  no sentido da mudança, da regeneração e reintegração.

Não será correcto dizer também que a necessidade aguça o apetite dos desmobilizados (militares e polícias) pelas armas?

Sempre ouvi dizer que «Mais vale prevenir do que remediar» (remediou-se demasiado), e que «O prometido é devido» (prometeu-se demasiado e ainda não se cumpriu), que a paz não é a simples ausência de guerra e mais, que «A paz ou é de todos ou não é de ninguém!» Há quem julgue que é o dono da paz (e suponho que por inerência será o proprietário da guerra).

Chegou a altura de os desmobilizados serem integrados, reintegrados e enquadrados na sociedade civil moçambicana. O acordo geral de paz prevê-o.

É uma obrigação moral e legal. É fundamental que todas as obrigações do estado acordadas em Roma e mais tarde retomadas nas negociações em Maputo sejam respeitadas no espírito e na letra.

A marginalização, a exclusão, o desprezo, a indiferença, a memória curta, o esquecimento e a ausência de solidariedade não são nem nunca foram os valores por excelência que sempre guiaram os moçambicanos, é pois altura de mudarmos  de atitude ou então jamais nos esqueceremos do velho ditado de que «Quem semeia ventos, colhe tempestades».

A esperança será última a morrer.


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