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Segunda-feira, Setembro 20, 2021

“Jamais se deve perguntar às árvores se querem água”

Delmar Gonçalves, de Moçambique
De Quelimane, República de Moçambique. Presidente do Círculo de Escritores Moçambicanos na Diáspora (CEMD) e Coordenador Literário da Editorial Minerva. Venceu o Prémio de Literatura Juvenil Ferreira de Castro em 1987; o Galardão África Today em 2006; e o Prémio Lusofonia 2017.

Antes e depois da concretização do acordo geral de paz de Roma para Moçambique entre o partido do governo da Frelimo e a Renamo, houve promessas de apoio total aos futuros desmobilizados moçambicanos, tanto a nível nacional como internacional.

Lembro-me bem de ter levantado esta questão num fórum em Lisboa em que participava um embaixador moçambicano.Então com ironia este respondeu-me: “Você é desmobilizado? Tem pelo menos algum familiar desmobilizado?” Da minha parte obteve resposta imediata e por certo  inesperada: “Sim, tenho cinco tios,um irmão e uma tia que foram compulsivamente mobilizados para o exército no esforço de guerra que então havia sido empreendido!”. De repente, silêncio total na sala. Afinal havia razões bem fortes para questionar.

Embora partilhe a ideia que temos todos os mesmos direitos, deveres e obrigações perante a lei , reconheço no entanto que em muitos casos há uma  grande diferença entre a teoria e a prática. Dura lex sed lex, não é?Então respeitemos a lei!

Hoje em pleno exercício de uma “democracia constitucional” emergente em Moçambique (longe da perfeição e com atropelos visíveis) os desmobilizados continuam numa situação dramática abandonados à sua sorte. Alguns deles com traumas psicológicos de guerra e outros até com mutilações bem mais que visíveis.

Diz-se que a necessidade aguça o engenho! Mas o que fazer com alguém que só conseguiu resolver os seus problemas diários com a ajuda das armas e que provavelmente só sabe lidar com armas, com o agravante de não ter ninguém que o oriente e ajude  no sentido da mudança, da regeneração e reintegração.

Não será correcto dizer também que a necessidade aguça o apetite dos desmobilizados (militares e polícias) pelas armas?

Sempre ouvi dizer que «Mais vale prevenir do que remediar» (remediou-se demasiado), e que «O prometido é devido» (prometeu-se demasiado e ainda não se cumpriu), que a paz não é a simples ausência de guerra e mais, que «A paz ou é de todos ou não é de ninguém!» Há quem julgue que é o dono da paz (e suponho que por inerência será o proprietário da guerra).

Chegou a altura de os desmobilizados serem integrados, reintegrados e enquadrados na sociedade civil moçambicana. O acordo geral de paz prevê-o.

É uma obrigação moral e legal. É fundamental que todas as obrigações do estado acordadas em Roma e mais tarde retomadas nas negociações em Maputo sejam respeitadas no espírito e na letra.

A marginalização, a exclusão, o desprezo, a indiferença, a memória curta, o esquecimento e a ausência de solidariedade não são nem nunca foram os valores por excelência que sempre guiaram os moçambicanos, é pois altura de mudarmos  de atitude ou então jamais nos esqueceremos do velho ditado de que «Quem semeia ventos, colhe tempestades».

A esperança será última a morrer.


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