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Domingo, Outubro 24, 2021

Jornalismo, piratas e outros lobistas…

Paulo Vieira de Castrohttp://www.paulovieiradecastro.pt
Autor na área do bem-estar nos negócios, práticas educativas e terapêuticas. Diretor do departamento de bem-estar nas organizações do I-ACT - Institute of Applied Consciousness Technologies (USA).

Sabemos que a Agência Francesa para a Segurança dos Alimentos, Ambiente e Trabalho (ANSES) demonstrou em Setembro passado preocupação relativamente à alimentação das crianças d tenra idade.

Um estudo encomendado pela “Fundação Changing Markets” para o mercado francês mostra a existência de níveis elevados de acrilamida, uma substância potencialmente cancerígena, nos biscoitos para bebé “P’tit Biscuit” da gigante multinacional Nestlé. A concentração desta substância era de 226,1 microgramas por kilograma[1].

Estranho é que para que a Nestlé[2] não ficasse “sozinha” também outras duas grandes marcas, desta feita cumpridoras da norma, são igualmente citadas, causando imenso ruído em torno deste tema. Por que é que isso acontece?

Então, veja-se. Pela leitura do relatório ficamos a saber que próximo do limite (200) estavam os biscoitos de laranja da marca Picot (Lactalis) com 198,3 microgramas e os biscoitos júnior de chocolate da marca Carrefour com 192 microgramas. Desde quando o cumprimento da lei é associado a uma notícia negativa?

O título da notícia que se segue diz-vos algo? “Nestlé, Picot, Carrefour… Uma substância cancerígena detectada nos biscoitos para bebés” – sic.

Lembram-se do que atrás ficou dito? É, portanto, mentira o que se afirma neste título. E, o que poderá justificar isso?

Agora, a mesma notícia, no formato RTL: “Uma substância cancerígena detectada nos biscoitos para bebés. Produtos das marcas Nestlé, Picot e Carrefour estão implicadas em revelações da Fundação Changing Markets” – sic.

E poderíamos ficar aqui o dia todo a ler desvarios…

Investigando. Sabemos que a Agência Francesa para a Segurança dos Alimentos, Ambiente e Trabalho (ANSES) demonstrou em Setembro passado preocupação relativamente à alimentação das crianças de tenra idade. E percebemos, ainda melhor, o porquê destas imprecisões jornalísticas, se pensarmos que é já no próximo mês de Março que este assunto será discutido na Comissão Europeia.

O que parece haver neste caso é a preocupação de influenciar no sentido de fazer baixar os limites de substâncias potencialmente nocivas nestes alimentos. Ou, alternativamente, poderemos estar na presença de uma tentativa de criar tensão entre as partes para uma negociação mais informal. Abrindo, desta forma, as portas aos grupos de pressão. Pessoalmente acredito mais na segunda possibilidade.

A acrilamida é uma substância ainda longe de ser suficientemente estudada pelo que será altamente recomendada a sua investigação. Pasmem-se. Ela “é formada naturalmente quando certos alimentos (ex: pão, batatas, cereais, etc.) são fritos, grelhados, cozidos, torrados ou mesmo colocados em micro-ondas, isto a elevadas temperaturas”. Ora…

O meu velho tio Rogério, jurista, disse-me há muitos anos. Só haverá justiça no mundo no dia em que for enforcado o último advogado! Eu, talvez por ser criança, retive essa frase. Hoje imagino o que ele diria face a um jornalismo que o deixou de ser…



[1] O limite para a OMS são as 200 microgramas por kg
[2] A Nestlé diz estar disponível para tentar perceber como se chegou a estes índices, mostrando-se surpreendida uma vez que estes testes são igualmente realizados a seu pedido por laboratórios independentes, não havendo nota de tal discrepância. Afirmando, ainda, ser a segurança alimentar a sua primeira prioridade

As opiniões expressas nos artigos de Opinião apenas vinculam os respectivos autores.

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