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Quarta-feira, Outubro 27, 2021

José Cid, i calhar la boca antes que choba?

João Vasco AlmeidaJosé Cid está a ser alvo de uma injusta campanha de insultos, depois de ter dito que se devia fazer uma muralha à volta de Trás os Montes. Os críticos, movidos pela inveja, são pessoas com um só propósito na vida: Amar como Cid amou, Sonhar como Cid sonhou, Pensar como Cid pensou, Viver como Cid viveu.

O cantor está tão à toa que veio pedir desculpa, cita-se, “às câmaras de Trás-os-Montes, que não tirem dividendos políticos desta situação”, depois de afirmar que, daqui para a frente, ia “cantar mais e falar menos”. O melhor conc(s)elho deu o pai de Cid ao Cid: “(…) o meu pai dizia filho quando fores maior Tens que ser um engenheiro ou Doutor. Qual Doutor!, dizia eu, Que mau Doutor seria, Quero é cantar numa telefonia: Música, eu nasci prá música”. bastava ter seguido isto e estava tudo bem. O Dr José Cid operava às quintas em Bragança.

É ainda estranho que se ataque José por ter dito que há pessoas sem dentes, quando o próprio admitiu ter capachinho, uma perna de pau, um olho de vidro, pêlos que nunca mais acabam e roupa em forma de disco. No fundo, estava a aproximar-se, a identificar-se, ele gosta de Trás-os-Montes.

Por isso, a raiva a Trás-os-Montes é, assim, falsa. Cid, no épico “El rei D. Sebastião“, iliba os transmontanos de dizerem asneiras sobre o rei, atribuindo culpa a outras regiões e grupos. Primeiro, ataca “as bruxas e adivinhos nas altas serras beirãs”, depois “Pastoras e trovadores Das regiões litorais” e ainda “Ciganos vindos de longe”. Como se sabe, afirma o cantor, “Todos foram desmentidos, Condenados às galés”.

O cantor, assim, destaca a sapiência dos transmontanos e dos alentejanos, os únicos que não se puseram a dizer palhaçadas sobre o puto. Mais ainda, Cid adora a transmontana, quando diz que “Todas as mulheres do Mundo, São como rosas do meu jardim, É preciso estimá-las, beijá-las, sentir seu perfume nas noites sem fim”. Ora, nada indica aqui que o artista rejeita a mulher para lá do Marão. O poema não vai assim:

E se houver quem assume o contrário
É mentira pois tenho p’ra mim
Que todas as mulheres do Mundo
São como rosas do meu jardim
Tirando as de Bragança,
As de Chaves ou Alijó
Dessas tenho medo
Que tragam dentes podres e pó

O comentário do homem do CD dourado, vejamos, tem alguma razão de ser. O que ele acha incrível é que haja gente com mau gosto musical, que tem má saúde dentária e, ainda por cima, nunca viram o mar. Um Portugal triste e datado. Sabe-se lá porque o cantador escolheu a região em causa para a culpa de tudo. Podia atacar, melhor, Lisboa, a sua Ota ou ainda a Anadia ou Coimbra, por onde andou a vida toda e há destes espécimenes em barda. Só em Cascais, onde nasceu o 1111, há lá tantos grunhos como em todo o lado.

(c) MIGUEL_ESTIMA
(c) MIGUEL_ESTIMA

O que acontecerá agora depende do tempo e se os transmontanos de raça aceitam o pedido de Cid. Ou se as Câmaras de Trás-os-Montes o riscam das festas de Verão, substituindo-o por algum pimba popularucho.

Recorde-se que, mais sapiente, o saudoso Graciano Saga tinha uma cassette bestial onde no Lado A cantava “Sou Minhoto” e no lado B “Sou Transmontano“, já para evitar ter que pedir desculpas. Saga cantou ainda “Sou emigrante”, no caso de dizer uma parvoíce qualquer e ter que fugir.

Sábio, mas mais sábio é Roberto Leal, que o seu “Sou Transmontano”, pior que o de Saga, valeu-lhe já ocupar o lugar de Cid no concerto que este ia dar não-sei-onde, mas já não vai.

Para Cid, o destino é incerto e suspeita-se de que o homem renascentista se tenha lixado. Mas, ah! ventura!, ele sabia-o quando subiu ao palco com Paulo Bragança e cantou:

Ele era um poeta, um pintor, um pianista
Seu nome não vem na lista

Pois não, Cid. Este verão, o teu nome não vem na lista. Tens de fazer uma musiquinha a Trás os Montes melhor que a do Sérgio, senão nunca passarás o túnel… Ou então assim.

P.S. – Cid é um talento. Toda a gente diz asneiras, a começar por este vosso escriba. Se não houvesse favas com chouriço não havia forma de fazer banquetes à Asterix para unir a Aldeia. Encha o carrinho e vá lá, Cid, que os transmontanos são duros de roer mas boa gente.

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