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Sexta-feira, Setembro 17, 2021

José Faure da Rosa

Helena Pato
Antifascistas da Resistência

(1912 – 1985)

Cidadão antifascista, integrou a Resistência contra a Ditadura e os combates pela Liberdade, notabilizando-se como escritor. Homem discreto, de raras qualidades de carácter, serenidade e lucidez, foi um escritor exigente e probo, comprometido sobretudo com a sua visão das coisas e do mundo e cuja obra se impôs e constitui um valioso legado literário. A família era o seu refúgio e vivia rodeado de coisas simples, de livros e música. O seu exemplo de vida teve eco nos adolescentes que privaram de perto com ele. Faure da Rosa deixou memória unânime em democratas de diversas tendências políticas.

Homem discreto, e um escritor exigente

José de Azevedo Faure da Rosa nasceu a 2 de Junho de 1912, em Nova Goa (Índia), onde se encontrava temporariamente o pai, José Augusto Faure da Rosa (1879 – 1950), militar, professor e escritor, nascido em Leiria.

Terminados os estudos secundários, vem para Lisboa e inicia a sua vida profissional como empregado de escritório e contabilista. Os títulos “Fuga”, o seu primeiro romance, em 1945, e “Espelho da Vida”, em 1955, reflectem essa experiência. Da altura em que morou no Alentejo, em 1931, surgiram alguns contos que a Censura proibiu sistematicamente, e que viriam a ser incluídos, em 1962, no volume de contos e novelas “A Cidade e a Planície”. Mas os primeiros contos e novelas foram publicados, em 1932, no Notícias Ilustrado, n’O Diabo, na Seara Nova, Magazine Bertrand, Colóquio Letras e Vértice. Porém, foi como ficcionista de elevada qualidade que exprimiu melhor a sua sensibilidade, legando-nos obras como: Ficção, Retrato de Família, De Profundis, Escalada, As Imagens Desconhecidas, Massacre e O Adágio.

Casou em 1940 e faltaram-lhe condições económicas que o libertassem das amarras do quotidiano de contabilista numa empresa, para poder entregar-se totalmente à escrita – como tanto ambicionava. Precisou dessa profissão e das traduções para poder manter uma família, educando dois filhos, a quem deu cursos superiores.

O ano de 1939 marca, no nosso país, o início de uma luta, na frente da Cultura, de um numeroso grupo de escritores – a geração do neo-realismo – que aspirava a uma sociedade diferente, nova, mais justa e mais fraterna. O regime fascista teve mão pesada sobre esses escritores: foram perseguidos, censurados os seus trechos e apreendidas muitas das suas obras. Nesse grupo de escritores Faure da Rosa ocupa um lugar de destaque. Na verdade, desde muito jovem, colabora em revistas e jornais, tais como O Diabo, a Vértice, a Seara Nova; e publica, desde 1945, obras de ficção que relevam de uma alta exigência e qualidade de escrita, a par de um apurado sentido de ligação às realidades. «José Faure da Rosa situou-se entre os nomes cimeiros do realismo interferente em Portugal». Tornou-se conhecido por combinar nos seus trabalhos a análise crítica e social com a análise psicológica das famílias da pequena burguesia e média burguesia, e seus dramas domésticos ligados à sobrevivência. Um escritor que se distinguiu, nos seus romances, pela análise rigorosa da família pequeno-burguesa urbana e especialmente da condição económico-social e cultural da mulher, numa sociedade bloqueada por valores “machistas”. Um romancista injustamente esquecido.»

José de Azevedo Faure da Rosa faleceu em Lisboa, aos 72 anos, na sequência de problemas cardíacos graves. Estava reformado da Sonap e encontrava-se a concluir um romance.

Era casado com Maria Clotilde Pato Faure da Rosa, com quem tinha dois filhos: Maria Manuela Pato Faure da Rosa Soares e Rui Pato Faure da Rosa.

Legado literário de Faure da Rosa

O escritor e poeta José Manuel Mendes evocou na Assembleia da República o nome do companheiro José Faure da Rosa, referindo o seu legado literário.

No estudo de problemáticas tão diversas como as do meio urbano ou rural, procurou enlaçar os conflitos sociais numa época de combustão e renovo com a indagação psicológica em todas as latitudes.O homem confrontado com o real, posto perante opções decisivas, foi um dos seus temas dilectos. Não há na estratégia artística de Faure da Rosa esquematismo ou duplicidade; tudo se passou numa zona profunda de fronteira onde se operam os actos conscientemente assumidos. Exegeta finíssimo das contradições ideossensíveis e políticas da pequena e média burguesia no tempo da ditadura, como de tecidos sociais impregnados de disforia, pôde transmitir-nos, através das suas páginas, um legado de combatividade e de esperança que só podia ter desaguado no Abril de tantas colectivas hipóteses de construção.

Sonhou com esse dia uma vida inteira. Teve-o, como nós o tivemos, e morreu em pleno coração do crepúsculo, antes dos primeiros sinais de um novo horizonte.

Num dos textos que escreveu, a propósito do perecimento de uma das sua personagens centrais, procedeu a estas secas e amargas reflexões:

Aformosearam-lhe o funeral com homenagens, pessoas graves, belos discursos, tudo perpetuado em duas colunas do jornal diário. Dias volvidos haviam-no substituído e, como é de regra, esquecido. Bem gostaria que este acto, honrando o grande escritor e combatente da liberdade, do 25 de Abril, que foi Faure da Rosa, meu camarada, viajeiro dos anelos comuns, contribuísse, de modo positivo, para que sobre ele se alongasse a luz de uma permanência sem reservas na nossa comunidade cultural. Isso mereceu com o seu labor exemplar; só isso devemos. E tanto é.»[1]

Em Fevereiro de 2013 realizou-se no Museu do Neo – Realismo (Vila Franca de Xira) uma sessão evocativa do centenário do seu nascimento, com intervenção de Maria Alzira Seixo sobre o percurso do escritor, a sua obra e significado na corrente literária do Neo-Realismo.

O Museu do Neo-Realismo, em Vila Franca de Xira, recebeu o espólio literário de Faure da Rosa, entregue pela filha, com centenas de documentos do escritor: poesia, romance, adágios, contos, novelas, notas, apontamentos, entrevistas e correspondência.

  • Fuga, 1945;
  • Retrato de Família, 1952;
  • Espelho da Vida, 1955;
  • De Profundis, 1958;
  • Escalada, 1961;
  • A Cidade e a Planície: contos e novelas, 1962;
  • As imagens destruídas, 1966;
  • Massacre, 1972;
  • Adágio, 1974;
  • Nós e os Outros, 1979;
  • Apassionata, 1982.

 

Livro: Fuga, 1945

 

Livro: Espelho da Vida, 1955

 

Livro: De Profundis, 1958

 

Livro: Escalada, 1961

 

Livro: Adágio, 1974

 

[1] Palavras do escritor e deputado José Manuel Mendes, na Assembleia da República, sobre José Faure da Rosa, na sessão em que foi aprovado, por unanimidade, um voto de pesar pelo seu falecimento, e houve intervenções de todos os grupos parlamentares.

 


Dados biográficos:

 

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