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Domingo, Outubro 24, 2021

José Magro

Helena Pato
Antifascistas da Resistência

(1920-1980)

Não há quem, na longa ditadura fascista, tenha ultrapassado este antifascista no número de anos em que esteve afastado de uma vida normal, da família e dos amigos. Coragem e abnegação. Uma vida dedicada à causa da Liberdade e da Democracia para o povo português: 21 anos nas prisões fascistas e 29 anos na clandestinidade.
Nascido em Lisboa, na freguesia operária de Alcântara, participou activamente nas lutas estudantis de 1937/1942. Ainda estudante, em 1940, aderiu ao PCP, cujo quadro de funcionários clandestinos integrou desde 1945. Em 1946, está entre os militantes que participam no (histórico) IV Congresso do PCP.

Vida dedicada à causa da Liberdade e da Democracia

José Magro, foto de Ephemera

Pouco depois, foi destacado para funcionário do Movimento de Unidade Nacional Antifascista (MUNAF), tarefa que assegurou durante três anos. No cumprimento dessas tarefas, deslocou-se para o Norte do País, de forma a assegurar um contacto regular com o presidente do Conselho Nacional do MUNAF, general Norton de Matos, que residia em Ponte de Lima.

Em 1949 José Magro reingressou no quadro de funcionários do PCP e integrou a direcção da organização do Porto. Mas devido à vaga de prisões ocorrida nesse ano – Álvaro Cunhal, Militão Ribeiro, Sofia Ferreira, António Dias Lourenço, Georgete Ferreira, entre outros – voltou para Lisboa, tendo como tarefa principal assegurar o controlo, na organização do PCP, do conjunto de empresas dos arredores de Lisboa. Por essa altura, foi cooptado para membro suplente do Comité Central do PCP. Em Janeiro de 1951 é preso pela primeira vez.

Submetido às mais violentas torturas, recusou-se sempre a prestar declarações. Libertado em Fevereiro de 1957, regressa à clandestinidade, desenvolvendo a sua actividade primeiro no Norte e novamente em Lisboa, desta vez na preparação das «eleições» presidenciais de 1958 (Arlindo Vicente e Humberto Delgado). No ano anterior, no V Congresso do Partido, fora eleito para o Comité Central.

Novamente preso em 1959 e novamente sujeito a violentas torturas, José Magro manteve a sua postura firme perante os carcereiros. Em Dezembro de 1961 está entre os participantes na histórica fuga de Caxias no carro blindado – de que foi o principal organizador.


Em 4 de Dezembro de 1961, oito presos políticos personificaram uma fuga do forte de Caxias, não menos espectacular do que a de Peniche, ocorrida quase dois anos antes. José Magro foi o principal organizador e um dos fugitivos

De volta à liberdade, regressa também à luta, assumindo um papel destacado na grande jornada de luta de 1.º de Maio de 1962. Mas seria novamente preso, só saindo da prisão no dia 27 de Abril de 1974. Tinha, então, 54 anos – 21 dos quais passados na prisão.

«Cartas da Prisão»

Resistiu sempre aos brutais interrogatórios a que foi submetido pelos torcionários da PIDE.


21 anos nas prisões fascistas e 29 anos na clandestinidade

Cada interrogatório era visto visto por ele como uma batalha com o inimigo – uma batalha que travava «com serenidade». Nas suas «Cartas da Prisão» fala da sua alegria e do seu orgulho após cada uma dessas batalhas – «A alegria e o orgulho de (obter) vitórias sucessivas sobre torturadores profissionais» – e desvenda a origem da serenidade com que encarava cada confronto com as bestas da PIDE: «A minha serenidade reside só na consciência de ser capaz de sofrer por muito tempo, ou de morrer mais ou menos depressa, pelos interesses da minha gente». Pouco tempo antes de ser libertado, escreveria:

Sou um funcionário do Partido, qualquer que seja a situação. Serei útil, mais ou menos, conforme a situação, é bem certo!; mas sei por experiência que, de algum modo, o poderei ser sempre.

Até os meus vinte anos de cadeia, infelizmente, terão a sua utilidade prática, ao revelar aos olhos do país e do estrangeiro o que é o fascismo, a dureza do seu carácter repressivo, a violência fria do seu ódio de classe; e, ao mesmo tempo, ao mostrar a capacidade dos comunistas para resistir e superar longas e sacrificadas provas como esta».

Depois do 25 de Abril

Depois do 25 de Abril, foi membro da Direcção da Organização Regional de Lisboa do PCP e deputado à Assembleia Constituinte e à Assembleia da República. Foi reeleito para o Comité Central do Partido em todos os congressos, até à sua morte em Fevereiro de 1980.

Aida Magro (1918- 2011), com quem casou, foi a sua companheira de sempre[1].

Em 2007, 27 anos depois da sua morte, o PCP publicou em Edições Avante o livro Cartas da Clandestinidade, da sua autoria.


Campanha de libertação de José Magro, quando em 1973 cumpria 20 anos de prisão. Foto de Ephemera. officialjpp.com/bio-m.html

 

Cartas da Clandestinidade

Em 2007, 27 anos depois da morte de José Magro, o PCP publicou em Edições Avante o seu livro

 

[1] A «histórica militante do PCP» Aida Magro nasceu e viveu a sua adolescência em Angola, onde as condições de vida da população negra a preocupavam muito. Em Portugal envolveu-se em várias lutas estudantis até acabar por se tornar militante do Partido Comunista Português em 1942, com 24 anos. Formou-se em Engenharia Química.

Em 1945, passou à clandestinidade como funcionária do PCP assumindo, entre outras tarefas, o controlo do Comité da Zona Oriental de Lisboa, na altura a zona operária mais importante da cidade. A sua actividade neste partido levou-a a viver 12 anos na clandestinidade e seis anos na prisão de Caxias.


Aida Magro (1918- 2011), companheira de sempre de José Magro


O casamento com José Magro, muito mais do que um compromisso pessoal, representou um compromisso com o colectivo partidário, a um nível de exigência e perigosidade que longe de a fazerem vacilar, mais fortaleceram as suas opções, por mais sofrimento pessoal que lhe exigissem. Obrigada a mergulhar na clandestinidade, de 1945 a 57, foi muito além da disciplina e do rigor no cumprimento das tarefas específicas das mulheres: manter a segurança das casas clandestinas, alimentar rotinas de aparente normalidade, aquietar a curiosidade dos vizinhos, encenar cuidadosamente a vida de um casal vulgar. Suportou o isolamento e a solidão, a doença, a monotonia e a burocratização do trabalho, o stress permanente, as súbitas mudanças de casa (passou ao todo por catorze casas clandestinas) por cada vez que se levantavam suspeitas (com ou sem fundamento) de que a PIDE andava por perto. Inventou comida e roupa, desmanchou pacientemente à mão fatos gastos do marido, costurando-os depois do lado do avesso, para que parecessem novos, construiu mobílias de caixotes velhos e, tentando romper com a tradicional subalternidade das «companheiras», colaborou activamente nas publicações clandestinas do partido, às quais, por sua iniciativa, se juntou A Voz das Camaradas»

Dados biográficos


 

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