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Quinta-feira, Setembro 23, 2021

Ku Klux Klan, Brilhante Ustra e Adolf Hitler: referências do bolsonarismo

Carolina Maria Ruy, em São Paulo
Pesquisadora, coordenadora do Centro de Memória Sindical e jornalista do site Radio Peão Brasil. Escreveu o livro "O mundo do trabalho no cinema", editou o livro de fotos "Arte de Rua" e, em 2017, a revista sobre os 100 anos da Greve Geral de 1917

Na semana em que o Brasil atingiu a marca oficial de 550 mil mortos pela Covid-19, nosso presidente teve um encontro no mínimo excêntrico, para não dizer totalmente macabro, com representantes do partido da extrema direita alemã, Alternativa pela Alemanha (Afd).

Uma das pessoas recebidas por Jair Messias, Beatrix von Storch, é neta de Johann Ludwig Schwerin von Krosigk, ministro de Finanças de ninguém menos que Adolf Hitler. Krosigk foi condenado pelo Tribunal de Nuremberg por crimes de guerra.

Criado em 2013, o Afd resgata um passado que muitos alemães gostariam de esquecer. Muitos, mas, pelo visto, não todos. Fico a me perguntar o que houve com o mundo a partir da segunda década do século 21. Foi a crise de 2008 ou foram as manifestações insufladas pelas redes sociais que tiraram os extremistas dos guetos em que chafurdavam? Ou ambos?

Adrien Brody em O Pianista, de Roman Polanski (Divulgação)

O fato é que a história de genocídio e da tentativa de extermínio dos judeus através do holocausto, muito bem retratada em livros e filmes como A escolha de Sofia (Alan J. Pakula, 1982), A Lista de Schindler (Steven Spielberg, 1993), A vida é bela (Roberto Benigni, 1997), O pianista (Roman Polanski, 2002), entre tantos outros, parece não comover grupos que surgem cada vez mais desavergonhados.

Na foto que circulou na imprensa e nas redes sociais, o Bolsonaro sorridente ao lado da neta do ministro de Hitler parecia não se importar nem com o parentesco, nem com o fato de o Afd ser monitorado na Alemanha que, assim como o Brasil, criminaliza a apologia ao nazismo.

Esse foi o presidente que o Brasil escolheu em 2018. Um militar que já foi saudado por um ex-líder da Ku Klux Klan, que apoia abertamente a ditadura de 1964, fã do torturador Carlos Brilhante Ustra e que agora aparece abraçado à herdeiros do nazismo.

É um perfil que espanta qualquer um que tenha o mínimo de sensibilidade social, espírito crítico e, sobretudo, conhecimento sobre a história, matéria que anda fazendo muito falta na consciência coletiva dos brasileiros.

Quando tento entender o que nos arrastou para esse o fosso, outro filme me vem à mente: o alemão A Onda, de Dennis Gansel, lançado em 2008. No filme o professor Rainer Wenger (Jürgen Vogel) dá um curso sobre autocracia para o colegial. Os alunos, adolescentes da terceira geração após a Segunda Guerra Mundial, duvidam que uma ditadura poderia ressurgir na Alemanha. Rainer então faz com eles uma experiência para demonstrar como a manipulação das massas é capaz de pôr em prática qualquer atrocidade política. Ele padroniza os estudantes, cria um uniforme e até um emblema para eles. Motivados pelo sentimento de pertencer a um grupo, os adolescentes pouco a pouco se transformam e constroem um ambiente de coerção, autoritarismo e de poder a base da violência.

Cena de A Lista de Schindler (Divulgação)

Este é o espírito desta época. Ou seja, se achávamos que os piores fantasmas do passado estavam mortos e enterrados, bastou uma manipulação na dose certa para que eles voltassem a nos atormentar.

No Brasil o desprezo pela história é parte desta manipulação. E ele pavimentou não apenas a eleição, mas o engajamento popular em torno de um político com atitudes tão repulsivas como Jair Bolsonaro. O resultado desta empreitada está ao nosso redor: desemprego, inflação alta, carestia, miserabilidade, descontrole sobre a nova peste e um crescente índice de mortes precoces.

Veja o trailer de A Onda:


Texto em português do Brasil

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