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João de Sousa

Sábado, Janeiro 22, 2022

Mais denunciantes…

José Cipriano Catarino
Professor (aposentado) de Português. Licenciado em Estudos Portugueses e Franceses pela Faculdade de Letras de Lisboa. Mestre em Linguística pela mesma faculdade.

As mulheres odiavam-se. Mesquinhamente. Ralhavam, brigavam por tudo, de questões de águas a passagem por serventia que entendiam ser sua. Mãe e filha contra a prima. Que é em família que nascem e se apuram as maiores inimizades.

Os homens não se envolviam. Na taberna, no café, no adro, falavam-se, sem azedume, mas sem grandes confianças. As crianças conviviam entre si, às escondidas das mães.

Certa noite, uma delas, a estudar em Alcobaça, contou que nós, da família inimiga, planeávamos deitar a mão a casal de pombos do Mosteiro, levá-los para a aldeia, fazer criação – para sermos os felizes donos de tão belas aves, invejados pelos demais garotos.

Era verdade, mas detinha-nos o medo. De sermos apanhados a roubar. De denúncia na escola, onde os pombos cativos teriam de permanecer escondidos nos nossos sacos até à hora de saída. De valente surra ao chegar a casa com eles, que os nossos pais não nos criavam para ladrões, o mal é começar, seja por alfinete, fruta, ou casal de borrachos.

A mulher exultou. A hora da vingança chegara. Contra o mais velho de nós, órfão de pai – assim atingiria mais cruelmente toda a nossa família. E havia o despeito por órfão e pobre andar “a estudar”.

Na manhã seguinte, logo à saída da camioneta, o filho convidou o outro: queria mostrar-lhe uma coisa. Que o acompanhasse, ia ter uma surpresa.

Teve. Ao passarem pelo posto da Guarda Nacional Republicana, entrou e gritou para o guarda da portaria:

– Venho fazer queixa deste menino, que anda a roubar pombos no Mosteiro!

O guarda devia ser pai, saber o que são crianças. Talvez detestasse denunciantes.

– Desaparece já daqui, senão quem fica preso és tu!

Acrescentou ainda, para correr dali com o miúdo, paralisado pela surpresa:

– Por levantares falsos testemunhos!


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