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Sexta-feira, Outubro 22, 2021

Marcos Valle | Ditadura, trabalho árduo e os Azymuth

José Alberto Pereira
Professor Universitário, Formador Consultor e Mestre em Gestão

Quando regressou ao Brasil nos últimos dias de 1967, Marcos Valle não vinha só. Trazia na bagagem novas canções e, no início de 1968, gravou um novo disco, chamado “Viola enluarada”.

Os temas incluíam duetos com Milton Nascimento e Novelli, num trabalho de autor onde participam nas letras Ronaldo Bastos e Ruy Guerra, para além do seu sempre presente irmão Paulo Sérgio. No ano seguinte lança “Mustang cor de sangue”, um disco que representa uma mudança importante na sua carreira. A bossa vivia um momento de declínio no Brasil e Marcos, sempre atento ao panorama musical, virou-se para a pop cosmopolita.

Com um talento natural para criar grooves e apaixonado por ritmo, Marcos incorporou a soul norte-americano e as sonoridades de Wilson Simonal na sua música. Longe da inocência juvenil dos primeiros tempos, o novo Marcos Valle passou a ser associado à modernidade, à tecnologia e a uma imagem de cidadão do mundo. As letras de Paulo Sérgio Valle tornaram-se mais críticas, abordando a sociedade de consumo e a ditadura militar. Os irmãos produziram algumas obras primas nessa altura, embora essa vertente da sua obra seja pouco conhecida. Descendente de alemães, loiro e rotulado como “bem-nascido representante da elite carioca”, Marcos não se identificava com o padrão intervencionista do movimento Tropicália e as suas músicas foram ignoradas pela crítica e pelo público.

A década de 70 entrou com uma intensa produção em bandas sonoras de telenovelas e na área publicitária, com diversos jingles de sucesso. Em 1970 grava “Marcos Valle” e em 1971 “Garra”, onde sobressai “Black is beautiful”, gravada por Elis Regina. Em 1972 lança “Vento Sul”, um disco que representa um momento de grande cansaço para o artista. Com uma extensa lista de encomendas (bandas sonoras e jingles), Marcos sentia-se limitado na sua criatividade e queria despejar toda essa tensão. Surfista desde a juventude, começou a frequentar a pequena vila de Búzios, onde alugou uma casa, permaneceu com alguns amigos e idealizou parte do disco. A ideia era contestar preconceitos e explorar uma maior liberdade criativa. Acompanhado pelos músicos Vinícius Cantuária, Cezar Mercês e Sérgio Hinds, mergulhou na contracultura, na música psicadélica e no rock-and-roll.

Em 1973 compõe a banda sonora de “O Fabuloso Fittipaldi”, documentário de Roberto Farias. Esta trabalho marca o início da colaboração de Marcos com José Roberto Bertrami (órgão e sintetizadores), José Alexandre Malheiros (baixo) e Ivan Conti (bateria). A partir desse ano, os 4 prosseguiram uma carreira juntos, sob o nome de Azymuth. O grupo juntava a bossa ao jazz, tendo sido uma das primeiras formações de fusão na música brasileira. Estes músicos trouxeram a Marcos novas sonoridades, como os sintetizadores e outros sons ligados ao rock progressivo. Já com a participação dos Azymuth, Marcos lança nesse ano “Previsão do Tempo”, um disco com temas co-escritos por João Donato, Eumir Deodato e o seu irmão Paulo Sérgio.

Azymuth

Já em 1974, Marcos compões e publica a banda sonora do programa “Vila Sésamo”, onde toca um piano Fender Rhodes e divide as vozes com João Mello e Suzana Machado (o Trio Soneca). Ainda nesse ano grava o disco “Marcos Valle”, influenciado pela pop de Elton John e pelo rock progressivo. O disco conta com a participação dos Som Imaginário e reflete a tristeza do artista pelas limitações que a censura lhe impõe, com os temas a transmitirem uma sensação de tristeza e despedida. De facto, farto da censura e enfrentando problemas de saúde que lhe afetavam a voz, Marcos voltou a deixar o Brasil. Entre 1975 a 1980 morou nos Estados Unidos, onde trabalhou com Sarah Vaughan, Airto Moreira, os Chicago e diversos músicos negros de rhythm and blues, onde se destacou Leon Ware, um colaborador frequente de Marvin Gaye.

 

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