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Quinta-feira, Setembro 23, 2021

Massacre de centenas de civis de Axum pelas tropas da Eritreia

Etiópia: Massacre de centenas de civis de Axum pelas tropas da Eritreia pode constituir crime contra a humanidade

  •  Amnistia Internacional entrevistou 41 sobreviventes e testemunhas de assassínios em massa
  • Tropas realizaram execuções, bombardeamentos indiscriminados e pilhagens
  • Imagens de satélite mostram provas consistentes de locais que serviram como novos cemitérios

Tropas da Eritreia que lutaram no estado de Tigray, na Etiópia, mataram centenas de civis desarmados na cidade de Axum, entre os dias 28 e 29 de novembro de 2020, abrindo fogo nas ruas e conduzindo ataques porta a porta. De acordo com um novo relatório da Amnistia Internacional, este massacre pode representar um crime contra a humanidade.

A organização entrevistou 41 sobreviventes e testemunhas, incluindo refugiados recém-chegados ao leste do Sudão. De forma consistente, descreveram execuções, bombardeamentos indiscriminados e pilhagens, depois de as tropas da Etiópia e da Eritreia terem liderado uma ofensiva para assumir o controlo da cidade, durante o conflito com a Frente de Libertação do Povo Tigray, em meados de novembro.

A análise feita a imagens de satélite pelo Crisis Evidence Lab da Amnistia Internacional confirma os relatos de bombardeamentos indiscriminados e pilhagens em massa. Além disso, identifica sinais de novos locais que serviram para sepultar pessoas, perto de duas igrejas da cidade.

As provas são convincentes e apontam para uma conclusão assustadora. Tropas da Etiópia e da Eritreia cometeram vários crimes de guerra na ofensiva para assumir o controlo de Axum. Porém, além de tudo isto, mataram sistematicamente centenas de civis a sangue frio, o que parece constituir crimes contra a humanidade”.

Os assassinatos em massa ocorreram pouco antes da celebração anual de Axum Tsion Mariam, um importante festival cristão ortodoxo etíope (30 de novembro). Normalmente, o evento atrai muitos peregrinos e turistas à cidade sagrada.

Estas atrocidades estão entre as piores que, até agora, foram documentadas neste conflito. Além do número de mortos, os residentes de Axum foram atirados para dias de trauma coletivo, durante a violência, o luto e os funerais em massa”.

 

A ofensiva militar

A 19 de novembro de 2020, as forças da Etiópia e da Eritreia assumiram o controlo de Axum através de uma ofensiva em grande escala, matando e deslocando civis com bombardeamentos e disparos indiscriminados. Nos nove dias que se seguiram, os militares da Eritreia envolveram-se em pilhagens de propriedades civis e execuções, sendo facilmente identificados pelas testemunhos, pois deslocavam-se em veículos com matrículas do país, usavam uniformes diferentes dos utilizados pelos soldados etíopes e falavam árabe ou um dialeto de Tigrínia não falado na Etiópia.

Outras caraterísticas distintivas eram as cicatrizes faciais que alguns militares eritreus tinham, comuns entre o grupo étnico Ben Amir, que não vive na Etiópia. Em alguns casos, os soldados não esconderam a sua identidade, referindo abertamente aos residentes que eram do país vizinho.

 

“Tudo o que víamos eram cadáveres e pessoas a chorar”

De acordo com testemunhas, a vaga de violência cometida pelas tropas da Eritreia decorreu entre os dias 28 e 29 de novembro de 2020. Tudo aconteceu depois de um pequeno grupo ter atacado a base dos soldados na montanha Mai Koho. Os milicianos pró-FLPT estavam armados com espingardas e eram apoiados por residentes que dispunham de armas improvisadas, como varas, facas e pedras.

Através de vídeo gravado na manhã de 28 de novembro é possível constatar que os disparos podiam ser ouvidos em toda a cidade. “Os soldados da Eritreia têm formação, mas os jovens residentes nem sabiam como disparar. Muitos dos combatentes começaram a fugir e largaram as suas armas. Os soldados eritreus entraram na cidade e começaram a matar de forma aleatória”, afirmou um homem de 22 anos, que queria levar mantimentos à milícia.

De acordo com os residentes, as vítimas não tinham armas e muitas fugiam dos militares quando foram baleadas. Um homem que se escondeu dentro de um prédio inacabado relatou que viu um grupo de seis soldados eritreus a matar um vizinho com uma metralhadora pesada montada num veículo, perto do Hotel Mana: “Ele estava de pé. Acho que estava confuso. Os soldados estavam provavelmente a cerca de dez metros. Atiraram contra a suacabeça”.

“Vi muita gente morta na rua. Até a família do meu tio. Seis dos seus familiares foram mortos. Tantas pessoas foram mortas”, partilha um morador de Axum de 21 anos.

As mortes deixaram as ruas e as praças empedradas cobertas de corpos. Um homem que fugiu da cidade voltou à noite, já depois de o tiroteio ter parado. “Tudo o que víamos eram cadáveres e pessoas a chorar”, disse à Amnistia Internacional.

Um dia depois, a 29 de novembro, os soldados eritreus disparavam contra qualquer pessoa que tentasse mover os corpos. As incursões porta a porta continuaram, com a morte de homens, alguns jovens e um número mais reduzido de mulheres.

Os entrevistados referiram dezenas de pessoas que conheciam e que foram mortas. A Amnistia Internacional recolheu mais de 240 nomes de vítimas, mas não foi capaz de verificar de forma independente o número total. Depoimentos consistentes de testemunhas e provas corroborantes fazem com que seja plausível que centenas de residentes de Axum tenham sido assassinados.

A maior parte dos corpos foram sepultados no dia 30 de novembro. Depois, o exército da Eritreia iniciou uma campanha de intimidação, espancando e ameaçando de morte alguns homens, caso resistissem.

Os residentes de Axum testemunharam um aumento nas pilhagens dos militares da Eritreia durante este período, que visaram lojas, edifícios públicos, incluindo um hospital, e residências particulares. Bens e veículos de luxo foram saqueados, assim como medicamentos, mobiliário, utensílios domésticos, alimentos e bebidas.

O Direito Internacional Humanitário proíbe atos de violência deliberados contra civis, ataques indiscriminados e pilhagens. Violações destas normas constituem crimes de guerra. As execuções que fazem parte de um ataque generalizado ou sistemático contra civis são crimes contra a humanidade.

“Com urgência, deve haver uma investigação liderada pela ONU sobre as graves violações em Axum. Os suspeitos de crimes de guerra ou de crimes contra a humanidade devem ser acusados e alvo de julgamentos justos, e as vítimas e as suas famílias devem receber reparação integral”, explica Deprose Muchena, que repete o apelo ao governo etíope para que conceda “acesso total e livre” das organizações humanitárias, de direitos humanos e da imprensa a Tigray.


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