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Sexta-feira, Junho 21, 2024

Memórias da fronteira de Gaza com o Negev

Paulo Casaca, em Bruxelas
Paulo Casaca, em Bruxelas
Foi deputado no Parlamento Europeu de 1999 a 2009, na Assembleia da República em 1992-1993 e na Assembleia Regional dos Açores em 1990-1991. Foi professor convidado no ISEG 1995-1996, bem como no ISCAL. É autor de alguns livros em economia e relações internacionais.

Estávamos em 2010, comigo a começar o exílio político em Bruxelas, depois de uma campanha de ódio encomendada pelas autoridades iranianas e conduzida na imprensa portuguesa com enormes cumplicidades entre dirigentes socialistas, por ter ousado dar a cara pela resistência iraniana contra a tirania teocrática.

Depois de uma curta estadia no German Marshall Fund dos EUA – que me encomendou um trabalho de investigação sobre a reforma da política agrícola europeia – lancei-me num mar de pistas sobre as mais variadas matérias.

A mais apaixonante foi sem dúvida a de Gaza. Tendo estabelecido sólidas cooperações pessoais quer em Gaza quer no Negev – deserto que é o hinterland natural da faixa marítima e onde se encontram os kibutz em que o Hamas realizou as chacinas de 7 de outubro – comecei a trabalhar num plano de paz, que tinha como principais parceiros um empresário de Gaza que tinha perdido tudo na guerra de 2008 e o presidente da Câmara de Comércio israelo-palestiniana, para além de um influente deputado egípcio próximo do Presidente Mubarak.

O projecto acabou por ter um fim trágico com uma grave doença do empresário de Gaza e o fim do regime de Mubarak, mas permitiu-me algo que considero precioso, e que foi ouvir os habitantes de Gaza dizerem a verdade, sem terem medo da repressão dos fanáticos islamistas.

Para o dito empresário, cujas instalações tinham sido arrasadas pelo exército israelita, e que ambicionava a paz erguendo uma terceira força política palestiniana independente da OLP e dos fanáticos, a responsabilidade total para os dramáticos acontecimentos de então era do Hamas e restante falange de grupelhos islamistas.

Por outro lado, pude obter de viva voz de civis de Gaza a denúncia do uso sistemático de civis como escudo, e em especial crianças, para as acções de terror por parte do Hamas. Por vezes, o Hamas lançava propositadamente mísseis das propriedades dos seus inimigos para provocar a retaliação israelita, matando assim dois coelhos de uma cajadada, livrava-se dos inimigos e alimentava o antissemitismo.

Contando com a cooperação dos meios da comunicação e da intelectualidade ocidentais – por atavismo antissemita, por dinheiro, por imitação ou por falta de inteligência – o Hamas punha assim a render as vidas de civis que supostamente defende, e especialmente crianças, cuja morte é a mais rentável nos écrans de televisão.

Um coro de protestos erguia-se sempre em volta dos mesmos argumentos, começando pela ‘falta de proporcionalidade’, sendo esta entendida como número equivalente de vítimas e danos.  Em nenhum manual sério de doutrina militar, ou de limites humanitários à guerra, se defende um conceito tão absurdo de proporcionalidade. A proporcionalidade é medida pelos efeitos militares em proporção aos efeitos colaterais, não é uma contagem de cadáveres.

Pixabay

E na contagem de cadáveres, Israel fica quase sempre a perder, porque, como aliás propagandeiam os Islamistas, os israelitas amam a vida e eles a morte, melhor dizendo, são indiferentes à morte da sua população, embora não a queiram para si.

E depois temos uma narrativa enviesada da história e da realidade, sempre contra Israel, e que apesar da falta de sentido do que defende, continua cada vez mais imparável.

O mais grave é que, tanto no Médio Oriente como entre nós, se faz vista grossa ao que é um crime de guerra inaceitável, que é o uso dos civis como escudo.

Isto era assim já em 2008 e a situação foi-se agravando até aos dias de hoje, sendo que para a matança que desencadeou esta guerra há certamente mais elementos a considerar. Espero que haja a capacidade de, quando a situação militar o permitir, escalpelizar seriamente tudo o que a tornou possível.

Ainda estava no Parlamento Europeu quando de visita a uma exposição municipal sobre projeteis (e havia-os de todos os feitios, sofisticação e alcance) lançados sobre Sderot – cidade israelita que fica praticamente em cima do muro divisório com Gaza – me foi explicado que cerca de um quarto dos lançados em Gaza caíam em Gaza, provocado vítimas que depois eram sistematicamente atribuídos a Israel.

Porque há que dizê-lo, a principal razão pela qual os Islamistas massacram desta maneira os civis palestinianos, é a prontidão com que a opinião pública lhes dá razão cada vez que os civis são mortos!

E esta semana tivemos o mesmo disco de sempre, tocado ainda com mais força, a propósito de uma barragem de foguetes lançada por um dos grupos Islamistas contra Israel do qual um caiu no pátio fronteiro ao hospital.

Apesar de haver desta vez evidência esmagadora de que se tratava de um projétil disparado pelos Islamistas, apesar da longuíssima história de repetida mentira por parte destes, não faltaram as vozes da opinião pública – mesmo das mais responsáveis – a fazer eco da mentira.

Não, não foram quinhentas vítimas provocados por bombardeamentos de Israel que atingiram um hospital, como reclamado pelo movimento criminoso Hamas (rebaptizado como Ministério da Saúde de Gaza pela desinformação oficial). Foram pessoas que estavam no pátio fronteiro ao hospital onde caiu um dos projeteis lançado da vizinhança pelo grupo ‘Jihad Islâmica’.

E mesmo quando não havia já quaisquer dúvidas do que se tinha passado, não se viu ninguém ter a humildade, o bom senso, ou a ética de se colocar à frente e emendar a fabricação em que participou.

A falta de envergadura moral é aqui a causa directa da continuação dos massacres de civis inocentes!

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