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João de Sousa

Domingo, Fevereiro 25, 2024

Movimento cívico quer discutir o futuro nas praças de todo o país

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A petição apela a “todos e todas que querem participar para que se organizem e o façam”, pode ler-se. A meta é atingir as 80 mil assinaturas, tendo sido já ultrapassada a fasquia das 62 mil.

No manifesto constante da página de Internet, dizem que “desde o dia 31 de Março, milhares de pessoas reúnem-se na Praça da República em Paris, e em toda a França”, numa espécie de debate público espontâneo e aberto a todos, para discussão da situação actual do país, longe dos poderes estabelecidos. “A política não é um assunto de profissionais, é um assunto de todos. O ser humano devia estar no centro das preocupações dos nossos dirigentes. Os interesses particulares tomaram o lugar que era do interesse geral”, acusam.

Este movimento de cidadania francês está já em dezenas de cidades francesas, e ultrapassou as fronteiras do país: de acordo com o site, existe já em duas cidades belgas (Liège e Bruxelas), na capital da Alemanha, Berlim, e seis cidades em Espanha (uma das quais a capital, Madrid). As assembleias populares são transmitidas ao vivo, pelo site.

Com as hashtags NuitDeBout e OnVaut MieuxQueÇa (“Valemos Melhor Que Isto”), este grupo de cidadãos e cidadãs tem ainda páginas nas redes sociais Facebook, Instagram e Twitter. São três as formas de participação: as assembleias populares (que se reúnem diariamente às 18h), a ajuda operacional (sob a forma de voluntariado) e constituir comissões de discussão sobre os vários temas. Por exemplo, discutem-se obras e melhoramentos necessários nas cidades, questões laborais, económicas, salariais, os direitos das mulheres, a situação dos refugiados, entre muitos outros.

 

Os que discordam

Apesar da adesão dos cidadãos a esta iniciativa, que insiste em afirmar-se pacífica, nem todos estão de acordo com o Nuit Debout. François Fillon, candidato de direita a primeiro-ministro, manifestou ao jornal francês Le Monde o seu desagrado.

“Compreendo a cólera das pessoas de esquerda em relação à política de François Hollande , mas estou profundamente chocado que, por um lado, exista um estado de emergência, e por outro, toleramos este tipo de reuniões”, declarou.

Fillon criticou “o espectáculo dos polícias insultados pelos manifestantes, enquanto que há dois meses atrás, a França estava em comunhão com a polícia”, lamentou o político, para quem o movimento representa uma minoria.

François Fillon diz que é uma ”incoerência total” articular o estado de emergência e permitir a circulação de “zadistes”, ou seja, “zadistas”. Este nome é utilizado para referir os apoiantes da Zone à Défendre (ZAD), um neologismo que designa uma espécie de esquadrão político que age ao ar livre e destina-se em geral a opor-se a acções de gestão do território que implicassem alterações drásticas, como a expropriação de terrenos para construção civil.

Estes esquadrões nasceram na região de Notre-Dame-des-Landes (região administrativa de Pays de La Loire, nordeste do país) e são acusados de recorrerem à violência em vez de serem activistas pacíficos.

A palavra “zadista” já entrou para o léxico francês, recorda Blandine Le Blain do Le Figaro. Do conceito de ZAD ao de “zadista” foi um passo, tendo os jornalistas sido os primeiros a apropriarem-se do termo, o qual entrou na linguagem corrente de França. A própria internet é um espelho disso, prossegue a autora do artigo, com as crescentes estatísticas de buscas com o termo ”zadista” e o conceito de ZAD.

 

Mairie de Paris avança com queixa devido a estragos

O jornal Le Figaro avança que a mairie de Paris (equivalente à Câmara Municipal) vai avançar com uma queixa contra desconhecidos no início da próxima semana, depois dos activistas da Nuit Debout terem supostamente causado estragos na Praça da República. Ocorreram confrontos e detenções na noite de sábado para domingo, tendo sido detidas oito pessoas por porte de arma proibida, causarem incêndios e atirarem projécteis.

Os desacatos ocorreram depois de uma marcha de protesto que visava a residência oficial de Manuel Valls, primeiro-ministro francês, que se encontra em viagem oficial à Argélia. Os manifestantes foram travados pelas forças policiais que utilizaram gás lacrimogéneo.

Colombe Brossel, responsável pela Segurança, disse que “pode haver uma ocupação do espaço público, mas não uma degradação do mesmo”. Esta queixa surge depois de serem divulgadas fotografias nas redes sociais que mostram o estado da Praça, que fora recentemente renovada com obras que custaram 24 milhões de euros.

A responsável autárquica refuta, no entanto, a ideia de evacuar a Praça, como o fizeram já outros responsáveis da região parisiense. “Não tenho resposta”, declarou ao jornal francês, quando questionada até quando esta ocupação seria permitida. Sobre os autores dos desacatos, Colombe Brossel diz que “não seria honesto” confundir os activistas do movimento com os amotinadores, que podem ser exteriores ao Nuit Debout.

 

O que diz um investigador de Ciência Política

Sélim Smaoui, doutourando do Instituto de Estudos Políticos de Paris, falou ao jornal francês Le Monde sobre o movimento Nuit Debout, o qual considera estar ainda “embrionário”, acrescentando que todas as possibilidades estão em aberto. Mesmo assim, para o investigador, “é imperiosa a necessidade de levar este acontecimento a sério e não se contentar em ver um ovni que confunde as nossas categorias de entendimento político”, sublinha, acrescentando que a “incerteza face ao desconhecido” é comum mas é também “má conselheira”.

Smaoui recorda no artigo a reacção do poder político aos movimentos de protesto contra a crise económica em Espanha, em que milhares de espanhóis exigiam uma mudança de vida face às crescentes dificuldades de sobrevivência de grande parte da população.

“Alguns apressaram-se a ceder à tentação de se isolarem, ao menosprezar estes milhares de cidadãos que ousavam subtrair-se às formas canalizadas de protesto político, arriscando o efeito de censura exercido pelo monopólio dos profissionais da política sobre a coisa pública. Do discurso falsamente optimista, quase paternalista, louvando o folclore de uma ‘juventude simpática mas um pouco enfática’, com declarações francamente desdenhosas, mostrando um desprezo de classe, estigmatizando os vestuários e criminalizando os comportamentos, esta desqualificação expressa de um quadrante ao outro do tabuleiro de xadrez da política espanhola envergava atavios, alguns clássicos, do processo de legitimidade e competência políticas. Mas depois de tudo, o que poderia resultar de sério deste entrelaçar de palavras luxuriantes e dispersas?”, reflecte o investigador.

 

Indignados espanhóis e Indignés franceses: causas comuns, modus operandi distintos

Os Indignados espanhóis, recorda Smaoui, “agrupavam as suas individualidades numa condição comum: num mesmo movimento, identificavam de forma colectiva as forças imediatas das injustiças das quais eles eram as vítimas. Longe de se referir a um corpus de doutrina, a sua crítica comum resultava da soma de experiências vividas”, recorda. O tempo quotidiano social ia ficando politizado.

Dá o exemplo dos conceitos de mecanismos económicos, que à partida insignificantes para a maioria da população, foram sendo assimilados no discurso das pessoas. “O acampamento permitiu, na prática, estabelecer as condições de uma luta colectiva para a justiça social. Longe de se limitar a uma aliança de circunstância entre organizações, a convergência das lutas permitiu tornar mútuas uma grande disparidade de assuntos (corrupção, direitos dos imigrantes, habitação, educação, saúde, ambiente…) num roteiro comum”, prossegue o investigador.

Cinco anos mais tarde, desta vez em França, repete-se o fenómeno, mas com diferenças. O facto das forças policiais irromperem pela manhã pelos acampamentos exige, ao contrário do caso espanhol, um continuado esforço de reestruturação dos mesmos. “Contudo, a marcha das assembleias parisienses, a organização logística e o desejo comum de se reapropriar do espaço público assemelham-se a retomar-se o modo de mobilização que floresceu do outro lado dos Pirinéus”, escreve Smaoui. O doutorando termina salientando que os que lamentam uma “privatização do espaço público” e que se deleitam com os princípios democráticos, “dos quais acreditam ser os únicos depositários”, estarão a ser muito pouco prudentes em ”cortar as plantas, enquanto estas florescem sob os nossos olhos. Aos que duvidariam do carácter representativo de tais assembleias, encontro está marcado na Praça da República, a sua voz será escutada”, remata.

 

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