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Quarta-feira, Outubro 27, 2021

Não é engraçado ostentar luxos de um plano de saúde em um país marcado pela pobreza

Carolina Maria Ruy, em São Paulo
Pesquisadora, coordenadora do Centro de Memória Sindical e jornalista do site Radio Peão Brasil. Escreveu o livro "O mundo do trabalho no cinema", editou o livro de fotos "Arte de Rua" e, em 2017, a revista sobre os 100 anos da Greve Geral de 1917

Não é raro encontrar cronistas “engraçadinhos” na grande imprensa, que se perdem em seus egos e nos chocam com seu descaramento disfarçado de resistência à ditadura do politicamente correto.

Não faz muito tempo a autoproclamada “engraçadíssima” Silvia Pyls achou que, em nome da licença literária e do combate ao politicamente correto, tudo bem debochar de crianças com síndrome de down, ser racista e rir da cara dos pobres. Lembrei-me dela no último domingo, quando li, na revista da Folha, a coluna de uma escritora que eu até costumava apreciar, a Tati Bernardi.

Menina luxenta é o nome do texto. Começa daí.

Ela começa dizendo que, em sua infância, por constatar que sempre que um parente morria, isso se dava porque ele era pobre e que se tivesse bons planos de saúde não morreria, cresceu com a “missão existencial de ser rica”.

E segue discorrendo sobre as maravilhas que conquistou em sua vida, como um plano de saúde Einstein, Sírio, Fleury. Sem noção do ridículo diz:

Fico feliz quando chego ao Einstein. (…) Tenho vontade de rodar de braços abertos cantarolando, sempre que me perco pelos corredores espaçosos e mal sinalizados. Pensa num hotel 5 estrelas que ainda te serve morfina no quarto (se você precisar, claro) (…) Pensa numa vida sendo espetada em laboratório merda, de repente você chega a um Fleury. Tenho vontade de pedir champanhe enquanto tiro sangue. Sonho de paulistano classe média (eu) é poder dizer que foi ao Einstein em vez de dizer que ficou doente”.

Tem mais:

Certa feita, tive um acesso de choro em um Ibis de Santos e fiquei horas com meu psiquiatra na linha falando das minhas dificuldades em sair do ninho, deixar minha zona de conforto (literalmente) etc. Vai ver se eu derramei uma lágrima no Fasano de Angra. Adivinha se fiquei angustiada no Martinhal de Lisboa. Pergunta se tive crise no Soho de Nova York. Hotel bom é de uma alegria, meus amigos, de contagiar até o meu passado na fila do Delboni”.

Engraçado que, há duas semanas atrás, a mesma autora escreveu um texto, no caderno Cotidiano da Folha, em que ressalta como deve ser legal se filha do jornalista Glenn Greenwald com o deputado David Miranda e, pelo que entendi da frase “Imagine que no meu aniversário chega a Erundina, em vez da chata da sua avó?”, neta da Erundina (não sei como são as avós dela, mas as minhas não eram chatas nem racistas e, com todo respeito à Erundina, eu não as trocaria por ninguém). Imagina essa crise de identidade!

Naquela crônica em que diz que seria tão legal ser filha do Glenn, Tati coloca um personagem fictício, o Fabinho, que “nasceu em uma família tradicional cristã” e cujo pai, que gosta de ser chamado de “doutor” acha o Bolsonaro um “figuraça sem papas na língua”. Será que a família do Fabinho não é mais do tipo que se exalta com o privilégio gozar dos luxos do Einstein e de hotéis caros? Será que não é a família de Fabinho que cresceu com a missão existencial de ser rica?

Imaginem vocês se Erundina declararia ao mundo a felicidade de chegar ao Einstein! Imaginem Glenn rodando de braços abertos e cantarolando, perdido pelos corredores espaçosos e mal sinalizados do rico hospital. Pensem se David Miranda já cogitou pedir champanhe enquanto tira sangue no Fleury. Será que algum deles, ao verem parentes morrendo por falta de assistência médica qualificada, cresceu com a “missão existencial de ser rico/a”? Ou será que, ao olharem o mundo ao redor, cresceram com a missão existencial de lutar por melhorias sociais, inclusive saúde e o acesso à lazer para todos, que é o que eles realmente fazem?

Em uma sociedade em que as pessoas morrem sem atendimento médico, não é engraçado ostentar os luxos de um plano de saúde que deve ser caríssimo. Não é legal esnobar em uma crônica de um jornal de grande circulação em um país tão marcado pela pobreza. Como disse Cazuza:

“a burguesia não repara na dor
Da vendedora de chicletes
A burguesia só olha pra si
A burguesia é a direita, é a guerra”.


Texto em português do Brasil


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