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Sábado, Dezembro 3, 2022

Não. Putin não quer invadir a Ucrânia

José Mateus
José Mateus
Analista e conferencista de Geo-estratégia e Inteligência Económica

Putin sabe muito bem que os USA não vão pôr sequer um par de botas no terreno por um objectivo que nada diz aos interesses estratégicos americanos e que está a milhares de quilómetros de distância. Sabe igualmente muito bem que a União Europeia não tem qualquer capacidade militar e que apenas tem forças para ajudar as velhinhas a atravessar a rua e para regular o trânsito. Sabendo Putin muito bem que não haverá qualquer força ocidental entre ele e qualquer ponto da Ucrânia, porquê a massiva e prolongada concentração de forças junto à fronteira ucraniana? Por várias razões mas não pela temida invasão da Ucrânia (que deixaria os pobres dos ucranianos entregues ao “deus dará”…).

A primeira dessas razões, do meu ponto de vista, prende-se com a afirmação de novos conceitos geopolíticos e com a reafirmação da velha lógica moderna (em contraponto à lógica pós-moderna que é a dominante na União Europeia e talvez ainda também nos USA). Se no Ocidente o conceito geopolítico de Estado-Nação é dominante e fundamenta (na sequência da vitória americana na II Guerra) a ONU e outras instâncias como o FMI ou a OMS, a visão dos teóricos russos (e chineses…) da geopolítica não é essa. Eles consideram o Estado-Nação como coisa ultrapassada e avançam com o conceito de Estado-Civilização. É neste novo conceito que Putin fundamenta o seu direito a interferir nos assuntos dos vizinhos para, nomeadamente, proteger as populações russófonas aí residentes. Ou para recusar a ideia de que um Estado da área “civilizacional” russa entre na NATO ou na União Europeia…

Segunda razão: o interesse estratégico de Moscovo na Ucrânia não é a velha história de ocupar território e controlar a sua população. Não há interesse nem sequer condições para isso. O interesse estratégico de que Moscovo (que está a uma distância da Ucrânia bem inferior à que Lisboa está de Madrid) não pode abdicar é que a Ucrânia seja um estado-tampão, um “buffer state”.

Se estas são razões profundas e pouco visíveis, a terceira é mais da conjuntura estratégica e seus processos políticos. Mais visível, portanto. Putin não pode admitir (nem os russos lhe admitiriam…) que num momento de reconstrução da potência da “mãe Rússia” tudo fosse posto em causa ou mesmo desfeito por uma “leviandade” de ucranianos (que ele considera manobrados por alemães coadjuvados por americanos ou ao serviço destes). Isso seria remeter de novo a Rússia para a posição em que Ieltsin a deixou: sem auto-estima, sem o respeito dos adversários ou dos inimigos e sem a consideração dos amigos ou dos aliados. Intolerável, portanto.

Qualquer destas razões, por si só, justifica as manobras de Putin. A convergência das três…

Convém também recordar que, de um ponto de vista ocidental, um excessivo enfraquecimento do Estado russo não é de grande conveniência. Sem chegar ao cinismo de alguma direita radical europeia que (em plena guerra fria) continuava a ver no “império russo mesmo se vestido de vermelho” uma muralha para travar as hordas asiáticas e sua barbárie, convém perceber que Moscovo desempenha um papel insubstituível nos equilíbrios da Ásia (ou da Eurásia como dizem os novos teóricos da geopolítica russa, para quem a Ásia chega aqui ao Atlântico).

Se a invasão e consequente guerra não é do interesse de Putin também não é do interesse ocidental. De facto, só ao actual “challenger”, a China, interessa que a potência dominante (os USA) se esgote num conflito longe da fronteira chinesa. Mas também lhe interessa que a potência com quem disputa o controlo da Ásia se esgote num conflito no seu flanco ocidental. E interessa-lhe igualmente que a Europa seja posta de rastos por tal conflito… Nada disto, obviamente, escapa ao olhar de Putin, um mestre do xadrez e do judo, que já vê, há anos, demasiados chineses (para o seu gosto…) na Sibéria oriental e mesmo em Vladivostoque.

Portanto, a crise na Ucrânia está para durar mas a II Guerra  (salvo asneira grossa) não se vai repetir ali. Putin terá, porém,  de obter qualquer coisa para apresentar aos russos e que lhe permita dizer que ganhou…

Nota:

O filme que pode ver no link abaixo é da britânica “Forces Support Page”. Para esses amigos vai o nosso agradecimento.

Russian Armed Forces 2022

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