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Quinta-feira, Abril 18, 2024

A neurociência pode explicar o comportamento humano?

“Se as neurociências permitem alguns avanços, elas não podem resolver todas as questões sem assumir o papel de demiurgo, pois é importante evitar que uma razão totalitária nos leve a uma sociedade de seres cibernéticos incapaz de garantir a dignidade humana”.

Nosso cérebro é tão complexo quanto fascinante, com quase 100 bilhões de neurônios interconectados em redes altamente sofisticadas que interagem com células gliais. A neurociência explora a organização e o funcionamento do cérebro (mais amplamente, do sistema nervoso), saudáveis ou doentes, da molécula ao comportamento, e em todas as fases da vida. A janela aberta pela neurociência no autoconhecimento e no comportamento humano gera crescente curiosidade na mídia, e às vezes suscita forte controvérsia. Assim, a neurociência acaba sendo tema de notícias, surgindo inclusive disciplinas como neuroeducação ou neuromarketing, mostrando como o conhecimento que geram tem desenvolvimentos em muitas áreas. As abordagens modernas permitem desvendar os circuitos envolvidos nas várias tarefas, sensações, emoções e até pensamentos.

Avanços na pesquisa de neurociências revelam que o cérebro codifica o que será feito antes da tomada de consciência e memorização de informações não conhecidas, e isso coloca a questão do livre arbítrio. Esses avanços mostram a extraordinária adaptabilidade do cérebro e a influência do ambiente social e ecológico, do estresse, dieta ou atividade física em seu desenvolvimento, funcionamento e envelhecimento. Os avanços permitem que se considere os modos de educação, saúde e atividade social para melhorar o desempenho cerebral.

Mas esse conhecimento não leva a soluções prontas. Assim, por exemplo, a compreensão dos mecanismos cerebrais subjacentes ao aprendizado e seus distúrbios pode esclarecer o campo da educação, que deve ser entendido incluindo a pedagogia, a psicologia, a sociologia, a linguística…

A neurociência também alterou nossa visão de certos distúrbios classicamente associados à psiquiatria, que hoje parecem ser verdadeiras neuropatologias ligadas à remodelação anormal de circuitos cerebrais. E tornaram possível desenvolver novas estratégias terapêuticas para várias patologias cerebrais e explorar caminhos para a neuroproteção ou reparação, mas o caminho é longo para poder compreender e curar as doenças do cérebro. Eles também dão uma base para o desenvolvimento de interfaces cérebro-máquina, cujo objetivo, longe de um cenário de ficção, é recuperar autonomia para pessoas com deficiências importantes, ao capturar e traduzir os sinais cerebrais para o controle, ou levar informações ao cérebro.

Certamente a neurociência, em interação com muitas outras disciplinas, permite compreender melhor o cérebro, suas funções e suas patologias, com múltiplas implicações para a sociedade. Mas não têm uma resposta para tudo. Poderá um dia ser criado um cérebro idêntico ao nosso, ou ainda mais poderoso? Diante da mídia e da pressão social para otimizar e curar o cérebro, nossa responsabilidade como neurocientistas não é alimentar a esperança gerada pelo conhecimento desse órgão tão misterioso quanto emocionante, com uma neurociência-ficção.

É impossível examinar o inconsciente sob o microscópio!

Durante o estudo fisiológico do sistema nervoso, a neurociência une biologia, química, matemática, bioinformática ou neuropsicologia, mas a psicanálise como método é muitas vezes excluída desse campo transdisciplinar. Há quem acredite na neurociência como a esperança de poder transplantar neurônios para recuperar ou curar a degeneração do Alzheimer, destruindo as proteínas amilóides que comprimem os neurônios responsáveis pela doença. Sem prejuízo dessas expectativas, o destino humano, longe de ser apenas exclusivamente biológico, não pode ignorar a fala e a cultura como parte da realidade introduzida pelo significante.

Sabemos que o discurso científico sonha em reduzir o fato psíquico a uma secreção neuronal, da forma como o fígado secreta a bile (como esperava La Mettrie, no século XVIII) ou relacionar o desejo com o funcionamento hormonal, quando a sexualidade humana é acima de tudo subordinada a múltiplos determinantes, linguísticos, imaginários e culturais.

A neurociência neutraliza a causalidade psíquica em nome de uma objetividade que evita o estudo da subjetividade resultante das declarações formadas por de ficções, erros e mentiras, sintomáticas do conhecimento inconsciente. Mas o inconsciente não é nem um lugar nem uma substância. A subjetividade não está em nenhuma molécula, nem é provável que se examine o inconsciente ao microscópio, mesmo que seja atômico.

Os avanços científicos revelam precisamente o desconhecimento do lugar e da função da linguagem na relação que o homem tem com o impulso, considerado como um eco de uma “fala” no corpo.

Como a neurociência é produzida? A que lógica epistemológica ela responde? Em que medida ela obscurece as demandas dos pesquisadores e dos seus financiadores, conscientes dos custos que há por trás do anonimato da tecnologia? Essas perguntas questionam os avanços neoliberais que se vangloriam da objetividade, mas cuja ideologia implícita convida a “tratar os homens como coisas” (Adorno).

Afirmar que a epistemologia foi refutada pela neurociência porque identifica as crenças com estados neuronais é resultado de um naturalismo que não consegue encaminhar o fato humano ao seu componente cultural e social, à sua divisão constitutiva entre declaração e enunciação, entre conhecimento e verdade, entre corpo e prazer.

Como o correlato neural dos comportamentos não foi demonstrado, o exame das condições para a validade epistemológica das avaliações científicas se revela essencial, tanto para contrariar o frenesi que caracteriza a ação científica, técnica e comercial, como para invalidar a ilusão de conhecimento total do produto. A neurociência não pode reduzir a subjetividade humana a um fenômeno observável sob imagens médicas.

A neurociência não está relacionada com o modelo biopolítico das racionalidades científicas voltando-se para a ideologia do poder a favor das aplicações cognitivas em economia, marketing, direito ou inteligência artificial em um contexto “trans-humanista”.

Finalmente, se as neurociências permitem alguns avanços, elas não podem resolver todas as questões sem assumir o papel de demiurgo, pois é importante evitar que uma razão totalitária nos leve a uma sociedade de seres cibernéticos incapaz de garantir a dignidade humana.

Por:

  • Lydia Kerkerian-Le Goff, Presidente da Sociedade de Neurociências da França
  • Dominique-Jacques Roth, Psicanalista e psicólogo clínico
  • Tradução para português de José Carlos Ruy

Exclusivo Editorial PV / Tornado

Texto em português do Brasil

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