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João de Sousa

Sexta-feira, Dezembro 9, 2022

No Dia Internacional da Não-Violência

Paulo Casaca, em Bruxelas
Paulo Casaca, em Bruxelas
Foi deputado no Parlamento Europeu de 1999 a 2009, na Assembleia da República em 1992-1993 e na Assembleia Regional dos Açores em 1990-1991. Foi professor convidado no ISEG 1995-1996, bem como no ISCAL. É autor de alguns livros em economia e relações internacionais.

Desde 2007, na sequência de uma iniciativa das autoridades indianas, as Nações Unidas estabeleceram o aniversário de Mahatma Gandhi, dia dois de outubro, como o Dia Internacional da Não-Violência. O Fórum para um Bangladesh Secular decidiu juntar-se à iniciativa com um seminário em linha. Estou muito grato tanto a Shahriar Kabir como ao Fórum por me convidarem a aderir a esta iniciativa.

Gandhi era um humanista e patriota indiano; a sua mensagem é indiana – no essencial desenvolvida antes dos horrores da partição do subcontinente. No entanto, foi também sempre uma mensagem universal, de alguém que viveu e trabalhou através de vários continentes, credos e etnias; alguém que através da sua ação e palavras compreendeu e moldou o que o humanismo significa nos nossos tempos.

Mahatma Gandhi

E sim, estamos a recordar a sua mensagem agora – quando a Europa é confrontada com uma invasão russa ameaçando tornar-se nuclear, quando em Myanmar uma ditadura militar persegue minorias étnicas e causa mais de um milhão de refugiados no Bangladesh, quando os talibã continuam a ocupar o Afeganistão e a impor repressão, censura, misoginia e miséria.

No entanto, caros amigos, a luta mais importante pela liberdade, pela igualdade de direitos e pela democracia está agora a desenvolver-se no Irão, onde a resistência das mulheres ao código de vestuário fascista imposto pela teocracia levou a uma revolta de toda a nação contra a ditadura clerical.

Parafraseando Mahatma Gandhi, os iranianos podem não ser ‘suficientemente fortes para serem totalmente não violentos no pensamento, na palavra e na acção’, mas iniciaram a sua guerra de libertação através dos meios mais pacíficos – em manifestações de centenas de milhares de pessoas contra o véu forçado.

As mulheres iranianas têm vindo a desafiar repetidamente os governantes através da desobediência civil às normas de vestuário, e estes actos de bravura foram respondidos com assassínios brutais quer nas prisões quer a tiro nas ruas.

As mulheres iranianas e todo o povo iraniano não precisam de mais ninguém para fazer a revolução em seu nome, mas precisam do nosso apoio.  Precisamos de seguir outro dos princípios mais importantes da doutrina de Gandhi: a não cooperação com aqueles que usurparam o poder no Irão.

É mais do que tempo de a comunidade internacional recusar quaisquer contactos com Ebrahim Raisi, um dos principais orquestradores e carniceiros do massacre de presos políticos de 1988 (com trinta mil vítimas). É mais do que tempo de parar a vergonhosa charada das pseudo-negociações sobre as armas nucleares, que só servem de encobrimento para novas agressões contra o povo iraniano e os países vizinhos – e, obviamente, abrirão caminho para que o regime crie a sua própria bomba atómica, se os iranianos não o derrubarem a tempo.

Todos devemos exigir a libertação imediata das dezenas de milhares de pessoas detidas por protestarem contra a ditadura religiosa no Irão! Todos nós devemos exigir explicações para as centenas de assassinatos dos últimos dias, bem como para as últimas dezenas de milhares de assassinatos. Todos devemos apoiar o direito do povo iraniano à autodeterminação, à liberdade e ao regime democrático numa república livre de controlo ilegítimo por parte dos clérigos.

A luta pela liberdade no Irão é a luta pela liberdade no Afeganistão, na Birmânia, na China e em qualquer outro lugar do mundo; é hoje a melhor forma de homenagear o legado de Mahatma Gandhi!

Obrigado!

(adaptação à língua portuguesa feita pelo autor)

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