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João de Sousa

Sábado, Outubro 23, 2021

No que é que isto deu?

Nesta altura em que se comemoram 43 anos de Liberdade em Portugal, a associação de estudantes da FCSH da Universidade Nova de Lisboa organizou um ciclo de debates para discutir Abril como herança social e histórica dos que habitam o tempo presente.

O debate do dia 26 de Abril, no rescaldo das comemorações do dia anterior, fez-se das intervenções da professora da FSCH e antropóloga Paula Godinho, do historiador e especialista nos assuntos do PREC e pré-revolução Ricardo Noronha (investigador no Instituto de História Contemporânea) e de José Mário Branco, cantautor e figura incomparável da Arte em Portugal antes, durante e após a revolução de Abril.

No que é que isto deu?

A pergunta que os alunos da FCSH colocaram em cima da mesa foi: “No que é que isto deu?”

José Mário Branco respondeu logo: “Não sei”- e passou a palavra aos colegas de mesa. Respondeu assim a um grupo de jovens muito mais sedentos de uma provocação como esta, do que de outra qualquer resposta que daria apenas para evitar dizer a verdade: “Não sei”.

Mas, é claro, não deixou a sua intervenção por aqui. Falou de arte, utopia, comunismo e cristianismo, falou das experiências do cientista Ehrlich  no combate à sífilis – mas, sobretudo, falou da enorme inquietação que o persegue sempre: a vontade de resistir, a necessidade de viver apaixonado sempre por alguma coisa, ou pelas coisas todas.

Partilhou a ideia da Arte como um tripé feito do que é essencial à sua existência: Técnica, Estética e Ética. Explicou como desde os anos 80 tentam convencer-nos de que a Ética é um componente descartável da produção artística e que é por isso que a Arte tanto sofre hoje.

Um tripé cai se não tiver três pernas. A Arte cai se não for feita a pensar nos outros.

Contou a história do bacteriologista alemão Paul Ehrlich que, nos anos 20, se dedicou à aventura de tentar curar a sífilis.Tentou centenas de vezes até que um dia produziu o “Tratamento Ehrlich 606”. Mas não conseguia tratar a doença sem matar o doente, e continuou a tentar. A cura, que encontrou finalmente, chamou-se “Ehrlich 914”. José Mário Branco pergunta quantas vezes já tentámos nós. Se 606, se 914, se mais ainda, se menos.

Decerto não tentámos 914. E estamos bem longe de chegar às 606.

Mundo triste, mas continua

O mundo mudou e está triste. Mas continua aqui e nós também. A Arte continua em todo o lado, à espera que agarremos nela com o número certo de mãos: três. Porque produzir é tão fácil. Mas inventar, e inventar sem esquecer que vivemos também dos outros é o desafio apaixonante de quem cria.

José Mário Branco não dá lições, nem dá conselhos. Fala do mundo como o vê e explica-o aos outros com palavras só suas. Depois de lhe perguntarem para onde ia “o sonho”, “o projecto”, “a utopia”, respondeu que era preciso agir “no perto, no pequeno e no agora”. Canalizar a inquietação que não nos larga para tudo o que nos rodeia, como forma de chegar a um sonho maior, tropeçando menos pelo caminho e sem ter pressa de chegar.

Acima de tudo não esquecer o entusiasmo do “agora”. E para quem nasceu depois da revolução, lembrar a única certeza que o nosso tempo partilha: o futuro pode ser tudo, porque está absolutamente em aberto; e pode ser bom, se soubermos ser artistas ao inventar o tempo, ou seja, se acreditarmos no enorme poder que vem de criar a pensar nos outros.

 

Catarina Alecrim

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