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João de Sousa

Sábado, Maio 25, 2024

Nós cegos

Eduardo Águaboa
Eduardo Águaboa
Escritor, Ensaísta, Comentador político especializado em ideias gerais

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Nunca se entenderam.

Ela chamava-o ora mau, ora cómico.

Ele pouco se ralava, agia por instinto, achando que circulava na região dos génios.
Aquele bar punha-lhe o coração a dançar dentro do peito.

Para ela, as glórias dele, as suas riquezas intelectuais, eram a sua profunda miséria.

Tanto desentendimento, tanto violar dos botões da sua blusa, originaram, naquela noite, mais uma acesa discussão.

Ela, aos amores ainda os suporta, às ilusões é que não.

Ele, cansado de tanta reprimenda, foi para o meio da rua e com o coração vacilante tomou a direcção do bar onde podia espalhar desassossegos e partilhar a importância das ansiedades.

Ela bem lhe gritou da janela «não faças isso outra vez»!
-Não te mexas daí até eu chegar!

E toda a cidade assistiu a uma correria louca.
Ela, e só ela, como se não tivesse um único amigo no mundo que a ajudasse, perdeu a noite e um pouquinho da manhã a tentar alcançá-lo.

Agora, se quiser de volta o coração do homem, terá de ir caminhando até lá, onde ela sabe estar acolhido.

A memória desse ninho diz-lhe uma coisa, o orgulho outra, quem cederá?

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