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Sábado, Julho 20, 2024

A nossa pequena natureza

Alexandre Honrado
Alexandre Honrado
Historiador, Professor Universitário e investigador da área de Ciência das Religiões

Quando um ciclone varre zonas ocupadas pelos seres vivos, ou as cheias submergem um país, destruindo tudo – bens, esperança, vida –, a pequenez de cada um de nós diante da natureza fica, por momentos tão presente que outra leitura que não seja a da evidência do conformismo e das nossas incapacidades individuais e coletivas será ridícula.

Por mais que nos agigantemos, por mais que tentemos impor a nossa força às forças naturais, a nossa debilidade é evidente.

Aconteceu agora na Austrália e no Peru, mas já assistimos ao mesmo tantas e tantas vezes. Não há decisões de governos que travem uma tempestade de areia, a queda de uma arriba fóssil, as inundações de uma aldeia, a derrocada de uma montanha, uma avalanche, um furacão, um terramoto, mesmo que essa decisão minimize estragos ou de forma inteligente os acautele.

Da Somália, da Nigéria, do Sudão do Sul, as notícias que nos chegavam em simultâneo às das avalanches no Japão, das cheias no Peru, ou dos ciclones na Austrália – eram de mortes, de crianças subnutridas às portas da morte, de populações afetadas por causas não naturais (à seca soma-se a impiedade da guerra), não têm causas naturais.

A vala comum descoberta em Mossul não foi uma catástrofe natural. Os crimes da coligação liderada pelos Estados Unidos que apoia o presidente Sírio não são forças de intempéries. Famílias inteiras morreram em bombardeamentos porque o exército iraquiano tinha recomendado aos civis de Mossul que não abandonassem a cidade, segundo nos relata a Amnistia Internacional.

 

O ser humano, indigno desse nome, devia coletivamente ocupar o banco dos réus.

Lemos relatos de sobreviventes “As paredes caíram-nos em cima, fugimos com aquilo que pudemos trazer. Se fossemos mais numerosos poderíamos ter sido atingidos quando fugíamos.” Depois, vem o coro dos inquietos que se opõem ao apoio a quem foge, a quem é vítima, a quem perdeu tudo, até a solidariedade de quem pode ainda apoiar.

Dentro do casulo da vergonha, assistimos à metamorfose do mundo. Não nascerá dele um inseto de asas coloridas, mas a sua condenação. Qualquer violação do direito internacional humanitário tem a ver connosco. Pois põe em risco o nosso próprio futuro. Estados Unidos, França e Inglaterra, que ganham milhares de milhões com a guerra em vários pontos do mundo, veem nos seus próprios territórios a ameaça do extremismo.

Não é já o extremismo de grupos terroristas de intenções bem marcadas – fingir a ação por motivos religiosos para defender os grandes interesses do capital, que vive dos negócios dos combustíveis fósseis, da guerra, da construção civil que age depois da destruição… – mas o extremismo nacionalista de grupos que querem chegar à liderança dos povos que arrastam como vítimas, e que, nas horas de desorientação, pedem ditaduras para substituir as liberdades que lhes parecem excessivas.

Sabemos que está em curso um inquérito para averiguar quem no exército iraquiano ou na coligação executou ataques aéreos sobre Mossul e em que condições.

E que estão a ser analisados mais de 700 vídeos de ataques aéreos da coligação internacional para apurar se as explosões que originaram a morte de civis foram causadas por bombardeamentos americanos ou da coligação (de acordo com o que disse no Pentágono o porta-voz do Comando Central das forças armadas norte-americanas no Médio Oriente, coronel John Thomas).

Também a Rússia, acusada de crimes de guerra pelos ocidentais durante o cerco de Alepo, “vai colocar questões” sobre Mossul diante do Conselho de Segurança das Nações Unidas (de acordo com o ministro dos Negócios Estrangeiros russo, Sergei Lavrov, cujo país não integra a coligação “antijihadista” no Iraque).

Somos nada perante a natureza. E a nossa natureza é um pouco menos do que nada. Há dias em que me apetece dizer isto. É a minha pequena natureza a manifestar-se.

 

Por opção do autor, este artigo respeita o AO90
Imagem Alison Scarpulla

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