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Quarta-feira, Julho 6, 2022

Nuno Félix da Costa, Fotografia esculpida…

Yvette Centeno
Yvette Centeno
Licenciou-se em Filologia Germânica, e e doutorou-se com uma tese sobre A alquimia no Fausto de Goethe. É desde 1983 Professora Catedrática da Universidade Nova de Lisboa, onde fundou o Gabinete de Estudos de Simbologia, actualmente integrado no Centro de Estudos do Imaginário Literário.

A Deusa-Mãe esculpida, mão direita no peito e mão esquerda no sexo, com o amante a seus pés. Será morto, depois do encontro fatal da iniciação. É assim que se repete, todos os anos, na gruta oculta de Inanna o rito que permite o eterno retorno à terra fértil, que nasce do sangue derramado. São muitos os rituais arcaicos em que sacrifício e sangue, dos mais belos, mais jovens, mais valorosos heróis como nos Maias, ou na lenda grega do Minotauro – para dar exemplos de civilizações e culturas diferentes – são a base da construção de uma sociedade que se deseja continuada pela repetição de algo que tem a ver com o princípio dos princípios da vida na terra criada por um deus que entretanto se ausentou e incumbiu os humanos de lhe dar continuidade.

Podemos ler em Chrétien de Troyes, no seu Perceval le Gallois o drama da terre gaste, ou no Parsifal de Eschenbach ou de  Wagner a ferida infligida por Kundry a Amfortas, cuja ferida não sara, até que um cavaleiro inocente apareça no seu reino do Graal e faça uma pergunta que será chave de salvação e transformação do reino. Em ambas as narrativas se revela a crueza do Eterno Feminino, devorador de energias que enfraquecem o Homem quando a ele se entrega, sob a forma de mulher (serpente ou feiticeira) sedutora e depois redentora (no final da ópera de Wagner).

O sangue não deixa de estar presente como elemento simbólico, no Perceval: no cap.VII o jovem cavaleiro vê três gotas de sangue que deixou para trás um dos patos selvagens que ele tentou caçar, sem conseguir. O animal ficou ferido, mas ainda assim fugiu. As gotas de sangue no solo gelado de neve daquele acampamento do rei, trazem-lhe à memória o belo rosto da jovem que não consegue esquecer. Adiante se dará o encontro com ela, mas de momento fica ali a fixar aquela imagem do sangue na neve, como a pureza das faces da bela, que o hipnotizam a ponto de quase parecer que adormeceu. De novo um sangue, e uma vida que se irá transformar por completo.

Na fotografia de Nuno Félix da Costa a mulher inclina a cabeça de modo quase terno, maternal, sobre um jovem que parece implorar, ou o seu amor ou a sua compaixão, para não morrer depois de tanta entrega e tanto amor.

Também, pelo misterioso apelo que ali se pressente, poderíamos ver nessa Mulher uma variante da Mater Dolorosa, a Virgem Mãe que sabe, ao aceitar a Graça que o Anjo lhe veio comunicar, que esse Deus-filho que ela aceita e se fará carne humana na sua própria carne, será, por essa razão, sacrificado. Temos nesta fotografia tantas leituras possíveis da nossa humanidade e do nosso imaginário mítico e simbólico.

O Homem aos pés da Mulher pode ser Rei (Jesus glorificou-se como Rei dos Judeus, Cristo no Reino dos Céus) tanto quanto pode ser uma criatura em rito sacrificial, oriunda das memórias arcaicas mais distantes, sem que nada se perca da sua força inicial – a do desejo – que também ali se adivinha no encontro dos corpos materializados.

Representação de leitura aberta, mas que no secreto mistério que a envolve apeteceria ver esculpida para ser exposta num museu. A obra de fotografia artística de Nuno Félix, poeta e pintor, merecia estudo e destaque.

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