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Sábado, Novembro 27, 2021

Nuno Félix da Costa, na ed. Companhia das Ilhas

Yvette Centeno
Licenciou-se em Filologia Germânica, e e doutorou-se com uma tese sobre A alquimia no Fausto de Goethe. É desde 1983 Professora Catedrática da Universidade Nova de Lisboa, onde fundou o Gabinete de Estudos de Simbologia, actualmente integrado no Centro de Estudos do Imaginário Literário.

Neste momento estou a ler os dois livros. Sabendo que o autor é poeta, com obra publicada, comecei com a Pequena Voz, Anotações sobre poesia.

Uma escrita de reflexão descontraída, de forma aforística, sobre o que é poesia, ser poeta, escrever um poema movido por qual impulso. Não se decide ser poeta. É-se poeta, por isso se escreve. Mas de onde, no silêncio ou no turbilhão da alma se forma o primeiro verso? O autor é médico psiquiatra, mas para lá da ciência em que se formou, escreve, pinta, e não desdenha o ensaio como forma também ela de criação. É o que acontece aqui, nestes dois livros, e não há dúvida de que a forma que escolheu, de ir dizendo o que lhe ocorre, ao sabor da mão, partindo de leituras feitas, de filósofos como de autores preferidos nos desafia e leva a “pensar” mais longe. Gosto que me façam pensar – concordando ou hesitando em concordar – porque a leitura deve fazer isso mesmo, provocar quem lê, seduzir num verso, numa ideia, numa imagem. Algo que ao mesmo tempo nos distancie de nós, do que sabemos ou julgamos saber, e nos abra algum novo horizonte, racional ou emocional. Com Nuno Félix da Costa estaremos mais no domínio do emocional, enquadrado em pensamento filosófico, de onde parte, com uma referência que parece casual, ou a que chega, no seguimento do discurso. Há uma preferência pelo pensamento alemão, o que não me admira, uma vez que ele escreve pensando o próprio pensamento, no acto de poetar e reflectir sobre o que é poesia. Um pouco como fez Heidegger, no último Seminário que deu ao regressar à sua Universidade de Heidelberg, depois de perdoado pela sua adesão ao nazismo de Hitler. (Escrevi neste blog um post sobre essas lições de fim de vida, Was ist DenkenO que é Pensar, que abrem com uma citação de Hoelderlin no seu Hino à Memória.

Há algo de semelhante aqui, entre Heidegger e Félix da Costa: a interrogação, que busca resposta (a possível) a começar pela filosofia grega, os pré-socráticos, até aos mais modernos, como um Schopenhauer, no seu tratado sobre O Mundo como Vontade e Representação. No caso de Nuno Félix é feliz esta alusão que faz: da vontade nasce o impulso, o poema será a representação. Porque não há realidade objectiva no poema, há expressão (representação) de uma emoção sentida. Vem à memória o célebre quadro de Magritte, do cachimbo que tem por baixo a frase ceci n’est pas une pipe. Não esperemos pois que na poesia, no acto de poetar e escrever um poema nos devolvam o real. Não é disso que se trata, é do contrário, de dar a ver uma parcela de emoção, de sentimento, de imaginário que só ali se encontra, no poema. Por isso Heidegger, o grande pensador do Ser e do Tempo, Sein unde Zeit, é em Hoelderlin que encontra a primeira inspiração, nos belíssimos versos de Mnemosyne: “somos um sinal, sem sentido / sem dôr e quase perdemos / a língua na distância”.

Trata-se, no poeta alemão como aqui, em Nuno Félix, de recuperar ( ou de buscar) o sentido desse sinal que somos, e dessa “língua”, perdida na distância, mas que permitirá, uma vez alcançada, exprimir o sentido do que somos, o Ser no tempo dado. Poesia para um, como em Rilke, nascida de emoção e de impulso forte, pensamento em Heidegger, algo de mais elaborado, pois procura “sistematizar” o pensar de cada um,  a começar por ele próprio.

No capítulo 2 das Anotações, Nuno Félix embora sublinhando que ” são difíceis de imaginar os primeiros tempos da poesia quando tudo estava por dizer e as palavras eram paisagens paradas com regatos, bosques, veados, rouxinóis. Eram pastores que se apaixonavam e faziam soar as flautas nas encostas dos montes onde ninguém os ouvia”. Surge à ideia um Orfeu, figura emblemática por excelência do amor e da poesia eternas. Numa linguagem metafórica, própria de um poeta, diz ainda “Não havia palavras para as coisas leves do pensamento nem para as cores das nuvens do fim de tarde nem para as vibrações do corpo quando não sabe o que quer. Os poemas eram relâmpagos que não encontraram as palavras, ecos de sorrisos no contentamento dos prados quando os amantes emudeciam entre beijos, mas nada do que acontecia ultrapassava o que podia ser dito e, por isso, a poesia carecia de profundidade como reflexos num charco quando, após um aguaceiro matinal o sol irrompe e faz as coisas aconteceram” (p.11).

O autor não ignora que nessa aurora rosa da linguagem primordial a poesia ” era a única linguagem: a da memória, dos mitos, dos costumes, das crenças, das normas, mas também a do desejo, da angústia, da aversão, do medo, num mundo mal compreendido” (p.11). Estaremos aqui com a obra de Homero, que tudo recolheu.

Mas as anotações vão seguindo de reflexão em reflexão, de forma ora mais livre ora mais condensada, lembrando Rochefoucauld, ora em parágrafos mais alargados ora numa única frase incisiva onde podemos ver como o seu pensamento sobre poesia incide muito no sentido do que se diz, recusando o sentimentalismo, o supérfluo, o redundante da auto-satisfação contemplativa – algo que Rilke nas suas Cartas a um Jovem Poeta não deixa de fazer. A poesia é uma escolha de vida ou de morte, e só na consciência do que isso representa se pode vir a ser poeta. Sobre o poeta diz, a páginas tantas: ” o estilo é a sua presença na obra” (p. 177). Aqui podemos perguntar: existirá estilo sem sentido? O que foi o programa dos surrealistas, a escolha do cadavre-exquis como exercício de grupo, o Manifesto futurista senão uma tentativa de abolir estilos, para alcançar uma nova liberdade de expressão, desconstruindo, abolindo normas por demais gastas? Dir-se-á que nesses novos caminhos que o Modernismo abriu, em cada artista (poeta, pintor) se verá um estilo, que é seu, a sua marca distinta de autor. Imitando um pouco o nosso poeta, recordarei Boileau: le style c’est l’homme – o estilo é o homem. Mas esse era o tempo da racionalidade cartesiana, e continuando a ler descobriremos que Nuno Félix prefere Spinoza a Descartes. Há nele uma atenção especial, um apelo da natureza, dos sentidos, para lá do sentido que a linguagem, poética ou outra, filosófica, nos conceda.

No outro livro que leio, A Clínica e a Patologia dos Sistemas, mais recente, por um lado o médico torna-se mais presente mas o prazer da escrita solta permanece  e com ela a presença do corpo (não é por acaso que se fala de patologia e de sistemas).

A edição é cuidadosa, tendo antes de cada capítulo uma gravura que é colagem do autor, e em que o ambiente Goyesco ( o negro, os pesadelos da noite) ou o das tábuas de Bosch, prevalecem  com formas disformes, rostos de pavor, uma dimensão onírica que será abordada no decurso do ensaio.

Podemos ver pelo Índice que estão presentes, em conjunto, a clínica e a cultura. E esta abordagem será por certo o que confere a este estudo uma dimensão diferente das habituais, no tocante à medicina, às suas práticas, e ao comportamento de alguns médicos do sistema, que Nuno Félix não se coíbe de censurar  com alguma acrimónia. Evoca, como é natural, Hipócrates, a dimensão ética do juramento, e o que considera desvios actuais de práticas que ignoram o corpo, a dor (que é também frequentemente da alma) e não se resolve apenas com a prescrições de algumas drogas.

As colagens que antecedem os capítulos, é para isso que apontam: a deformação dos sistemas, perante a deformação tremenda da condição humana.

Pode a cultura (filosófica, artística) de algum modo ajudar ? Eu concordo com o autor, a Arte (literária, pictórica, ou outra, a música, a dança ou o teatro) é salvífica. Freud sabia, também ele se interessou e analisou um célebre quadro de Leonardo da Vinci, descobrindo na posição do braço de Santa Isabel algo de um movimento que ele viu como alusão sexual. Mas temos no seu discípulo, depois dissidente, Carl Gustav Jung, uma verdadeira recuperação, seguida por Marie Luise von Franz, dos mitos arcaicos e dos símbolos de várias civilizações, de tradições populares, como nos contos de Grimm cunhando um novo conceito o de inconsciente colectivo, que Freud não aceitava. Podemos seguir a correspondência de ambos, em que discutem as suas diferenças, até ao rompimento final. Nuno Félix, ao valorizar como vai fazendo ao longo deste estudo os contributos de filósofos e criadores aproxima-se mais de uma visão junguiana, embora não a refira, do que do nosso pioneiro e brilhante Freud. Félix fecha o livro com uma reflexão sobre o que é tratar. Conceito que não tenho competência para abordar mas que me faz também a mim reflectir sobre a importância do amor, do carinho, da presença generosa e disponível para o outro, que pode ser uma criança, um adulto, um idoso que se entrega com a esperança de ser curado e salvo. Freud já dissera a Jung, com alguma frieza: nunca os poderás salvar a todos… é bem verdade. Mas basta que se salve um para que a profissão de médico já se valorize.

O livro vai contudo para muitas outras paragens. E a mim, o que é natural, seduziu-me em especial o cap.8, sobre a medicina e a arte. Já nas Anotações eu tinha referido  o gosto pela escrita livre, de associação fragmentada ao modo dos aforismos, reflexões que surgem, não necessariamente por ordem, mas só por movimento interno de pensamento. Aqui acontece o mesmo, e o leitor fica à vontade, pode seguir ou ir escolhendo este ou outro momento que lhe diga mais ao entendimento, ou ao conhecimento ou mesmo à descoberta de novas realidades e emoções. Porque se descrever um crise de sofrimento emociona, a arte não emociona menos. Com algo que é importante para se poder continuar a viver: a contemplação da Beleza, o belo tão esquecido por vezes de um Platão que não se lê. No capítulo 6 sobre “incorporação do corpo”, p.127, o modo como são criticadas modas e deformações e excessos, esquecendo o todo, ou um todo que é o corpo -terá Nuno Félix lido Paracelso, embora não o cite? Este foi o grande precursor nas suas obras de um visão que hoje é recuperada, por inclusiva, abrangente, não descurando os valores da alma, que na alquimia o mercúrio representa. E quem diz Paracelso diz Cornelius Agrippa, inspirador de Goethe (o célebre cão que o seguia, fazendo constar que seria de um diabo, como acontece no Fausto).

Mas medicina não é magia, embora se exija dessa arte (termo que Félix rejeita), ou dessa ciência que possa e deva ser um olhar para o todo do ser humano, e não apenas para este ou aquele órgão de que haja queixas. Cito: “n.58 As coisas mais importantes para uma pessoa , não são as rotinas e o estado do corpo, mas o que a pessoa atinge, o que compreende o que realiza. Não são o como se exprime, mas o valor do que exprime; não são as sensações do corpo mas a representação (eis-nos com a representação, inevitável no pensamento ou na arte, como já se referiu) e a compreensão do mundo a partir da qual planeia e organiza a sua vida. O mais importante não é a mão que escreve, mas o poema que resulta”. A criação artística, por outras palavras, manifesta-se pelo todo, e assim adquire a sua dimensão universal.

Vou então para a minha área preferida: a importância da arte na cura, ou mesmo na salvação. O autor refere os médicos (e de facto são muitos, penso em Namora, em Torga, só para dar dois exemplos) que exercendo a sua profissão praticam a seu lado, e se calhar com mais felicidade a poesia, a pintura, a música, que lhes preenche a alma. Os exemplos escolhidos no ensaio (que abre com uma colagem onde surgem entranhas e esqueletos, as vísceras da alma? Uma alma que o artista envolveu nas danças da morte medievais?) são muitos, revelando uma grande cultura literária. A demora nos alemães, como já sucedera com os filósofos – Schopenhauer, Hegel, outros – fá-lo escolher Gottfried Benn: “26. Por que escolheu Gottfried Benn a patologia forense? Para decifrar as condições da morte ou para observar a própria perda da morfologia da vida?(…) Em certos poemas sente-se ser a poesia que apela a imagens e vivências que só a experiência clínica e anátomo-patológica lhe poderia proporcionar” (p.184).  De um G. Benn mórbido nas escolhas, passa de repente o nosso autor para um grande, na minha opinião mais interessante, sem dúvida, do que Benn: fala de Rabelais. Leitura de paixão foi para mim o livro 5 da sua obra. Mas a lição de Rabelais que mais seduz, e também neste caso, é a utopia da Abadia de Thélème, que tem como lema “fais como voudras” – faz o que quiseres. Para um jovem que melhor lema, que maior prazer do que seguir na vida aquilo que lhe apraz? Mesmo com riscos. Rabelais, tal como Nuno Félix o entende, estudou e entendeu o corpo humano, a condição que no sacerdócio o espiritualizava e que Rabelais troca-o pela medicina, que do corpo nada rejeitava, “até o mais repugnante e o mais obsceno” (p.185). O convento de Thélème albergava homens e mulheres, “livres, pândegos, estudiosos e bons garfos, notável precursor do comunismo anarquista”. Aqui terei de discordar, nunca o comunismo aceitou o anarquismo, nem a anarquia, o seu modelo nunca poderia nascer de Thélème, que antes recuperava, mas ao modo renascentista, a libertinagem dos Monges Vagantes da Idade-Média, bebendo e cantando (algumas das canções estão nos Carmina Burana). Continuando ainda com a reflexão do autor, ele conclui que foi a medicina que lhe forneceu um corpo de conhecimento que ajudou a prolongar o seu humanismo, e lhe permitiu praticar uma moral laica, naturalista, que se descobre na sua ficção (p.185).

Não cabe no espaço de um post a análise mais detalhada de cada autor citado: deixo alguns dos nomeados: Schiller, Tchekhov, Conan Doyle, Keats, André Breton, que também estudou medicina, embora sem chegar ao fim do curso, que era de neuro-psiquiatria. É como se diz aqui, ” um caso interessante de cruzamento da medicina com a literatura e a arte” (p.186). E sem dúvida que a essa formação se deve a sua doutrina do surrealismo, da associação livre que informa a sua obra, do gosto pelo cadavre-exquis, e da sua vocação de activista social e político (um precursor neste campo) Nele sim, encontramos o apelo à anarquia libertária, criadora ( e que ao contrário do que se possa pensar, não era do agrado de Freud, estudioso, e severo conservador).

Continuo com Nuno Félix, que percebemos que gosta mais de Breton do que os outros citados: ” O mérito de Breton foi trazer para a literatura e para a arte uma abertura ao irracional que, na época, surgia de vários cantos da Europa, e que a obra de Freud divulgou. A noção de inconsciente e de associações livres de ideias como meio de exploração desse inconsciente no qual alguns sintomas enraizavam (…) Breton analisou de perto os doentes mentais apreciando também o valor estético da sua escrita. A loucura, que sendo ela própria um sintoma, parece levar as figuras da linguagem poética a um limite surpreendente. Este irracional que resulta do descontrolo do pensamento na doença, ele tornou-o o núcleo da escrita automática surrealista”.  (p.187)

Assim podemos continuar a ler este estudo, que percorre muitas vias, de ligação da clínica à arte, e despertará, na variedade e formação dos seus leitores, um interesse especial, concordante ou discordante.

Mas é mais de discordância que surgem novas ideias, que farão avançar a ciência e a arte…ficarei por aqui.

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