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Sábado, Dezembro 3, 2022

Charters de Almeida

Yvette Centeno
Yvette Centeno
Licenciou-se em Filologia Germânica, e e doutorou-se com uma tese sobre A alquimia no Fausto de Goethe. É desde 1983 Professora Catedrática da Universidade Nova de Lisboa, onde fundou o Gabinete de Estudos de Simbologia, actualmente integrado no Centro de Estudos do Imaginário Literário.

Recebo como prenda de Natal antecipada um belíssimo livro de Artista, de João Charters de Almeida, amigo de longa data, e cuja obra, no domínio da escultura e outras áreas tenho seguido ao longo do tempo.

Deu-lhe um título: O FUTURO É O PRESENTE SEM TEMPO ?

Pelo título se revela o pendor filosofante que na sua magnífica PORTA DO ENTENDIMENTO, erguida em MACAU, já se antecipava.

Charters de Almeida tem uma cabeça sempre em movimento que procura na obra realizada, ou projectada (como aquela que ainda só existe no presente do futuro) o entendimento do impulso e da essência da Arte, como absoluta necessidade na vida do criador.

A obra de arte é intemporal, na medida em que ao corporizar-se materializa um tempo, o do momento, mas também o TEMPO, na sua essência ou na sua dimensão de mistério universal.

Ocorre-me, como aconteceu com Heidegger, nas aulas que deu sobre O QUE É PENSAR, seminários de fim de vida, que o que se procura, no impulso do pensamento, é o que nos diz um poeta ( e aqui temos a poesia a iluminar o pensamento, a existência, no mundo), HOELDERLIN, no seu hino à MEMÓRIA: MNEMOSYNE. O que nos diz, no seu verso que o filósofo cita, para enquadrar o impulso primordial que nos leva a pensar, e a outros a criar – seja poema, seja pintura ou escultura ou composição musical – é que ” somos um sinal sem significado / não sentimos dor e quase / perdemos a língua na distância / … é longo o tempo mas consegue alcançar-se”.

Não podia encontrar melhor enquadramento para este livro de pensador que é o de Charters de Almeida do que esta citação de um poeta que inspira o filósofo de SEIN UND ZEIT, o SER e o TEMPO.

As páginas que introduzem o negro como suporte do branco da escrita, no livro, para além da dimensão estética conduzem-nos a uma reflexão de que Jung gostaria, a da completude que negro e branco formam, sinalizando um Todo que se espera, num tempo longo…
e cito:

O HOMEM
É
A SUBLIME
CONTRADIÇÃO
DO
UNIVERSO ?

e em continuação da busca da consciência de si, do significado (perdido?) do sinal que somos, desse mesmo universo:

SOU PARECIDO COM:
A MINHA MÃE
O MEU PAI
COMIGO
CONTIGO
COM QUEM?

Jordan Peterson, psiquiatra hoje em dia muito citado, junguiano assumido, com um toque de alquimista que escandaliza os menos cultos, define a condição humana como um somatório de sensações e emoções que se materializam no todo que pode ou não levar a que se materialize em obra de arte. Para tal tem de haver uma consciência de si, do outro, do mundo que subtilmente espiritualize o significado do sinal que afinal todos somos no universo (o Tempo) criado.

Não cabe no breve espaço de um post o comentário a todas as reflexões, desafios, pensamentos com que Charters de Almeida neste livro nos deixa. O que é bom.

Cabe ao seu leitor virar as páginas, parar e escolher na sua íntima relação com os versos, que mais se aproximam do conceito dos Haikai taoístas, aquele que a si mesmo pode iluminar, numa relação com o seu inconsciente agora revelado.

É o Tempo, que sendo longo, acaba por nos tocar. E concluímos, como ele faz no fim do livro: “A minha sobrevivência é o acto criativo”.

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