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Segunda-feira, Julho 4, 2022

O 1º de maio de 2022 aponta para mudanças e novas esperanças

João Carlos Gonçalves, Juruna, em São Paulo
João Carlos Gonçalves, Juruna, em São Paulo
Metalúrgico, sindicalista, Secretário Geral da Força Sindical, vice presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo.

Depois de dois anos em ações online por causa da pandemia, voltamos às praças para comemorar o 1º de maio. Retomar as ruas mostra que o corte de financiamento promovido por Temer e Bolsonaro não acabou com a força dos sindicatos!

O evento unificado das Centrais Sindicais na Praça Charles Miller completou os Dias do Trabalhador realizados desde o aprofundamento, com a posse de Jair Bolsonaro, da escalada recessiva e conservadora. Nos quatro anos desta gestão presidencial marcada por um perfil anti-trabalhador unimos forças para enfrentar todos os males que tivemos e ainda temos que enfrentar. Realizamos dois atos online nos anos em que a pandemia estava mais forte, 2020 e 2021, e presenciais, um no início e outro no fim do desgoverno.

Comparações que alguns insistem em fazer entre o evento deste ano e os megaeventos realizados na Praça Campos de Bagatelle, com shows populares e sorteios de prêmios para a população, são incorretas. Desde 2017 as comemorações, além de reafirmar nossas lutas, expressam nossa resistência, nosso pesar com a pandemia e a denúncia do atual governo que tem aprofundado o desemprego, carestia e pobreza.

Importante trazer esse contexto para desfazer interpretações que usam medidas de comparação incompatíveis com a realidade atual. Importante porque os atos do 1º de Maio servem como um termômetro político e tem um peso muito grande em um ano eleitoral. A falsa comparação do 1º de Maio de 2022 com outros eventos e a cobrança de uma linearidade que não existe, induz a uma avaliação política errada, de esvaziamento, quando na verdade estamos atuando em prol das mudanças que o país precisa.

Não vamos deixar de fazer aqui um balanço daquilo que podemos melhorar. Para além dos discursos sobre nossas pautas, que são necessários, mas que precisam fluir melhor, a comemoração do Dia do Trabalhador deve, antes de tudo, atrair o povo. E não há incompatibilidade em fazer um evento popular com um nível político elevado.

Podemos, nós sindicalistas, mudar algumas coisas, fazer juntos ou separados, convidar artistas de sucesso e até mesmo realizar sorteios para que o público compareça para prestigiar, se divertir e se envolver nos debates acerca dos rumos do país. Avançamos em nosso papel de mobilizar e de atualizar o movimento sindical.

Mas, à parte todo e esforço e boa vontade, devemos considerar que existem questões de fundo que dizem respeito à disseminação no senso comum de uma campanha antissindical. Campanha que tem a mesma raiz da mentalidade escravocrata que se perpetua no Brasil mesmo após a abolição de 1888. Isso está no centro dos problemas que pavimentaram as reformas liberais de Michel Temer, a vitória de Jair Bolsonaro, a pobreza, o desemprego, a precarização.

Hoje a mentalidade antissindical se traveste de um discurso moderno. Os defensores da reforma trabalhista, por exemplo, dizem que devemos olhar para a frente e não olhar para trás. Como se restituir direitos fosse olhar para trás e aprofundar a reforma, olhar para frente, quando na verdade é a reforma, com sua ampla retirada de direitos que é o retrocesso ao Brasil pré-CLT.

Mais do que isso, a fantasia pós-moderna que prega um discurso antissindical mascara ideias conservadoras que não ajudam os trabalhadores. Estamos falando da exaltação de discursos que incentivam a divisão do movimento social e político em pautas individuais baseadas em diferenças em detrimento da união de forças daqueles que querem e precisam se organizar para a luta. Esta é uma arma que atualmente os neoliberais usam para colocar os trabalhadores uns contra os outros e, sobretudo, contra o movimento sindical. Está claro quem ganha com isso. E, percebendo sua decadência, os defensores do liberalismo tenderão a ficar ainda mais agressivos.

Após a longa pandemia e com a crise política e econômica, entretanto, a realidade se impõe, a consciência sobre a importância dos sindicatos e da luta pelos direitos ganha espaço e cada vez mais pessoas percebem a falsidade do discurso meramente identitário sem base social e de classe. A fundação do sindicato na Amazon nos EUA e as mudanças na legislação trabalhista na Espanha são alguns exemplos.

Essas são as questões de fundo que não só desafiam o nosso 1º de Maio, mas que tentam nos liquidar dia a dia. Por tudo isso, aproveitando o ensejo do mês inaugurado com o Dia do Trabalhador, além de continuar avançando em nossos atos e exercícios de diálogo e de unidade, precisamos também reforçar o discurso pró-trabalhador e empreender um esforço para elevar a consciência política do povo brasileiro.

Lançar o mês do trabalhador é uma forma de valorizar e reforçar nossa identidade operária para que todos e todas tenham em mente tudo pelo que devemos lutar: jornada de trabalho decente, valorização salarial, saúde e segurança no trabalho, aposentadoria digna, convenção coletiva. Nosso movimento é agregador, promove a diversidade e aproxima a todos. E é com ele que vamos superar a crise, o desgoverno e criar condições para um país melhor.


por João Carlos Juruna e Ronaldo Leite   |  Texto em português do Brasil


  • João Carlos Gonçalves, 69 anos, metalúrgico, secretário geral da Força Sindical, vice-presidente do Sindicato dos Metalúrgico de São Paulo. E-mail: [email protected]; twitter: @juruna53
  • Ronaldo Leite, 44 anos, carteiro, secretário geral da CTB (Central de Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil), Conselheiro Fiscal do Sindicato dos Correios do Rio de Janeiro. Email: [email protected]; twitter: @ronaldo45158210

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