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Sexta-feira, Outubro 22, 2021

O amor como bem de consumo para jornal

Beatriz Aquino
Formada em Publicidade e Propaganda. É escritora e atriz de teatro. Nascida no Brasil a viver em Portugal.

Não há nada que me remova a ideia de que o amor é um lugar bom. Sem jogos, manipulações e culpa. Apenas quatro retinas dizendo sim. É saber exatamente onde no outro dói em você e onde em você dói no outro, fazer os arranjos necessários para evitar hemorragias severas e pronto. Simples assim.

O amor se dá porque é simples. Deve ser simples. E também porque nele resistimos. Não há ou deveria haver mistério nenhum nisso. O amor é aquela pessoa que dorme entrelaçada em você à noite. Você troca o conforto das tuas costas, a dormência do teu braço pelo hálito honesto de quem ama, acorda de manhã, vai para o trabalho, no final do dia volta pra casa e se entrelaça novamente naquela pessoa que te faz doer menos e só. Confesso que coisas do tipo me interessam profundamente. É o mais próximo que já chegaram do amor. O resto é ópera, concerto de música, ballet russo. O amor é o abaixar para pegar a frigideira em baixo da pia, enquanto o outro lava os copos do final de semana. É lembrar de comprar duas escovas de dentes e a marca preferida do absorvente dela. Ou do creme de barbear dele. É isso. O problema é que esse tipo de amor não vende. Então o transformaram em estrela de picadeiro. Trapezistas saltando sem rede em roupas de cores berrantes, patrocinadores ofertando pipocas caramelizadas de ansiedade. E nos venderam a ideia de que ele deve ser arrebatador. Um grand finalle que só é válido se doer do inicio até o último instante onde tudo se resolve antes que o trem da estação francesa parta. E feito isso, ninguém mais quer achar graça nos chinelos virados em baixo da cama, nos cabelos dela na pia do banheiro, na espuma de barbear dele manchando o espelho.

O amor virou uma aquisição. Um capital de alto risco em joint venture com a tal felicidade. Outra invenção também a ser estudada minuciosamente. E então meus caros, é martírio na certa. É a corrida pra ver quem tem o melhor peito, a melhor bunda – hoje em dia ela tem que encostar na nuca -, o melhor carro, o melhor cabelo, o melhor discurso, a melhor carreira, o maior número de likes.

Passamos boa parte do tempo nos transformando em algo que não somos para conseguir algo que não existe. Tiraram de nós uma capacidade inata, um sentimento natural e o colocaram em cima da montanha mais alta. E para chegar lá da-lhe personal trainer, da-lhe botox, livros de auto ajuda, planos de carreira, stock options. O falo do homem nunca foi tão insuficiente. Por isso os carros esportivos, os escritórios nos andares mais altos, os contratos milionários. O sexo feminino também nunca foi tão deficitário. Por isso o sexo anal, a depilação à laser, a virginização. É preciso consertar os lábios, deixa-los simétricos e rosados, alinhavar o períneo para dar a impressão de que homem nenhum jamais passou por ali. Estamos nos plastificando por inteiro. Todos precisam parecer bonecos rosados e felizes. E eu não consigo parar de pensar naquelas caixas da Barbie onde vinha o Ken, o carro, a casa de praia e as crianças, que eram assustadoramente perfeitas. O sonho americano venceu. Nos pegou a todos de jeito. Hoje todos nós fazemos a mesma pose da caixa da Barbie. O maxilar no ângulo certo, a boca entreaberta, a cor de um rosa infantilizado e o olhar atônito de quem não faz ideia de what the f**ck is going on. Nunca tivemos tantas academias e ao mesmo tempo tantas pessoas doentes. O número de farmácias é assustador. De terapeutas também. Nos tiraram o poder da narrativa. O de elaboração idem. Estamos todos querendo dar um nome pomposo à boa e velha angústia humana. Porque nos é impossível imaginar que a vida seja bem mais ordinária e simples do que queremos. Uma vida simples é uma perda. Desejamos o pódio, o Olimpo. E a indústria do entretenimento e de produção de consummer “goods” expele de suas gargantas famintas dez mil novidades por segundo.

A cultura do first place pariu uma geração de necessitados. É preciso ser rico, famoso, ditoso, impressionante, retumbante. Nada menos que isso. Ninguém mais quer prepar o pão na padaria. A não ser que ele seja gourmet, é claro. Aliás todo mundo virou gourmet ou especialista em alguma coisa. O porteiro do meu prédio, o acensorista, o moço que vende verdura na feira. Viramos todos seres muitissíssimos especiais. O escritor do ano, a cantora do ano, o grande e lustroso falo do ano, a boca mais sexy da galáxia e adjacências. E fico imaginando que em algum lugar um deus bom ou um ser de boa luz deve estar queimando as retinas costurando dia e noite uma grande e resistente camisa de força que irá finalmente por um pouco de paz nesse grande espetáculo em que a humanidade se transformou.

Mas é claro que estou sendo demasiadamente ingénua romântica. O mais provável é que após algum tempo, esgotado o estoque de irrelevância daqui, de Marte e da lua, um mendigo levantará sua mão carcomida em plena Times Square e dirá entre seus dentes apodrecidos: Fiat Lux!! E todos o seguirão. Ele será o hit do momento. E a luz, ou algum tipo de luz, é claro, se fará.

Só espero estar viva ou sóbria o suficiente para escrever sobre isso…


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