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Segunda-feira, Janeiro 24, 2022

O ano da Colômbia: em 2019, país foi às ruas contra a desigualdade

Primeira greve geral desde 1979 foi reprimida com violência; acordo de paz com FARC completou três anos.

por Amanda Harumy, Opera Mundi

A Colômbia encerra o ano de 2019 com crescimento econômico de aproximadamente 3,2% segundo dados da CEPAL, número relevante se comparado a outras economias da região, que enfrentam um desaceleramento do crescimento do PIB. Todavia, esses dados não camuflam a deterioração das condições sociais que o modelo neoliberal tem produzido na sociedade colombiana. Atualmente, a Colômbia é o segundo país mais desigual do continente, possui baixos índices educacionais, escasso acesso à saúde e enfrenta uma alta taxa de desemprego (10,2%) e trabalho informal (47%).

E, neste cenário, logo após o Chile iniciar suas ondas de manifestação, a Colômbia também começou a experimentar fortes levantes populares.

Desde 1977, não ocorria uma greve nacional na Colômbia – fato que mudou neste ano. Após a convocação dos movimentos sociais para uma greve geral no dia 21 de novembro, uma agenda de reivindicações levou grande parte da população às ruas. As principais demandas eram contra a reforma trabalhista, contra a reforma de pensões, contra a exploração financeira, contra privatizações, contra a corrupção, contra a reforma tributária, por um salário mínimo digno e pelo cumprimento do Acordos de Paz com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC) e dos direitos humanos.

As manifestações foram grandes e populares, ocorreram de maneira festiva e os casos de vandalismos não as deslegitimaram. O dia 21 de novembro foi apenas o primeiro dia dos demais que ocorreram no último mês. Grandes atos com panelaços mostraram a força e amplitude do levante popular colombiano. Não foram apenas manifestações desarticuladas e isoladas, mas verdadeiros levantes populares, massivos e com diversidades temáticas.

Todavia, em 2019, o terrorismo de Estado não oprimiu apenas as populações da região de conflito armado, mas todos os atores que se posicionaram contra o Estado. As manifestações foram marcadas por uma forte e desproporcional violência do Esquadrão Móvel Antidistúrbios (Esmad) contra a população que se manifestava.

No dia 26 de novembro, foi confirmada a morte do jovem de 18 anos Dilan Cruz, um estudante que foi atingido na cabeça por um projétil do Esmad durante uma marcha pacífica. Dilan se tornou um símbolo da resistência à violência de Estado e sua morte intensificou as manifestações. O Escritório de Assuntos Latino-Americanos de Washington (Wola), grupo de acadêmicos e ativistas, reivindica que o Esmad seja substituído ou reformado, segundo as diretrizes de direitos humanos, respeitando protestos pacíficos com o uso mínimo da força.

O Acordo de Paz com as FARC

O Acordo de Paz assinado em 2016 entre as FARC e o Estado colombiano completou três anos em 2019. Após anos de debate com os movimentos sociais e os principais atores do conflito, a assinatura do acordo em Havana significou um grande passo para a democracia da Colômbia. As FARC se comprometeram em entregar as armas e realizar a disputa política por meio das estruturas democráticas, enquanto o governo garantiu a anistia de seus ex-combatentes e diversas ações políticas para a desconstrução das condições que intensificaram o conflito. Entretanto, o ano foi marcado por ações do próprio Estado que ajudaram a estagnar o avanço do pacto.

Colombianos nas ruas: ano no país ficou marcado por manifestações populares.
Foto: CUT/Reprodução

Movimentos sociais denunciam a violência do governo do presidente Ivan Duque contra grupos organizados da sociedade. Segundo eles, a militarização aumentou nas regiões de conflito e pelo menos 212 defensores de direitos humanos foram mortos, e 44 ex-combatentes das FARC que estavam em processo de reintegração foram assassinados.

No dia 29 de agosto de 2019, Iván Márquez, ex-número dois das FARC, anunciou a volta de uma dissidência do grupo à luta armada. Para ele, o processo de paz foi usurpado pelo Estado e suas principais medidas estão sendo descumpridas. “Anunciamos ao mundo que a segunda Marquetalia (local de origem das FARC) começou sob a proteção do direito universal que ajuda todos os povos do mundo a se armarem contra a opressão.”

A fala o guerrilheiro expõe a opressão que a população sofre, mesmo após a assinatura dos acordos. Para Iván Márquez, o Estado colombiano não tem cumprido as obrigações de garantias de vida, pois continua assassinando e perseguindo lideranças por razões políticas. Além disso, o Estado nega a criação de instâncias jurídicas que pressionem o avanço do Acordo de Paz.

E, no mesmo dia, o governo autorizou a operação ‘Atair’, executada na área rural de Candilejas, no município de San Vicente del Caguán, departamento de Caquetá. O objetivo era atacar um dos líderes da dissidência das FARC conhecido pelo pseudônimo de ‘Gildardo Cucho’. O bombardeio atingiu 18 pessoas que estavam no campo. Destes, 15 foram identificados, dos quais oito eram menores. Três dos corpos ainda não foram reconhecidos.

Logo em seguida, a operação de bombardeio foi elogiada pelo presidente Ivan Duque como “meticulosa, impecável e com todo o rigor”. Guilherme Botero, o então ministro da Defesa comemorou em suas redes sociais, deixando explícito o objetivo de militarização e intensificação do conflito por parte do Estado. “Os criminosos são avisados: eles se renderão ou serão derrotados”, afirmou.

A morte das oito crianças e as consequências políticas do atentado aumentaram as críticas ao governo e as denúncias de abuso e terrorismo de Estado. O ministro Botero renunciou em meio a protestos estimulados pela forte insatisfação popular.

O ano de 2019 ainda não acabou e as manifestações continuam vivas. Não é possível prever os desdobramentos dos levantes populares, porém é possível destacar que a  resposta da população aos casos de abuso e violência por parte do Estado é o fortalecimento da democracia. A história política da Colômbia é marcada por grupos armados e insurgências que buscaram por meio da revolução armada a desconstrução da realidade colombiana. Mas, após mais de cinco décadas de conflito, esse caminho se demonstrou extremamente custoso e desgastante.

Dessa forma, em 2019 a organização e fortalecimento dos movimentos sociais possibilitaram que os colombianos expressassem suas reivindicações de maneira democrática e pacífica. O povo colombiano escolheu o caminho da paz e das manifestações democráticas. Agora, cabe esperar qual será o caminho escolhido pelo Estado colombiano.


por Amanda Harumy | Texto em português do Brasil

Opera Mundi

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