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João de Sousa

Quinta-feira, Dezembro 9, 2021

O Brasil dos abismos

“Nosso projeto de desenvolvimento sempre se articulou na defesa de interesses externos em íntima vinculação com o capitalismo internacional. Isto levou a um projeto de aliança com as elites locais para implementar políticas que conduzem não à defesa dos interesses e direitos da população, mas ao favorecimento de interesses privados e externos”.

Muitas vezes ficamos espantados com o que vivemos hoje em nosso País. No entanto, se considerarmos muitos intérpretes de nossa formação histórica, ficamos certamente espantados é em ver que o que se passa é uma nova configuração de uma estruturação societária que nos marca desde as origens (D.T. Baptista) de seu estabelecimento através de uma colonização escravocrata, que produziu “uma sociedade cruel forjada na escravidão” que assim encontra formas de perpetuação, como nos diz Jessé Souza. Nosso projeto de desenvolvimento sempre se articulou na defesa de interesses externos em íntima vinculação com o capitalismo internacional. Isto levou a um projeto de aliança com as elites locais para implementar políticas que conduzem não à defesa dos interesses e direitos da população, mas ao favorecimento de interesses privados e externos.

A última etapa nesse processo ocorreu através do grande pacto (grandes grupos econômicos ligados a interesses internacionais sobretudo da esfera financeira, a grande mídia, o Poder Judiciário, grupos parlamentares), que levou ao impedimento de 2016 e é agora radicalizado, cujo verdadeiro objetivo se revelou logo através da redução drástica dos pequenos avanços conseguidos através de muita luta política no processo da recente redemocratização, com o objetivo fundamental de configurar uma sociedade alicerçada na efetivação dos Direitos Humanos. O encerramento forçado deste processo, interrompe estas tentativas de mudanças para fazer de nosso País um “modelo” de um regime neoliberal apresentado como a salvação de um pretenso socialismo (pasmem) que estaria destruindo o País. Este acontecimento faz, diz-nos G. Alves, o País retornar a seu curso histórico, voltando a ser “uma colônia do neoliberalismo hegemônico. Nunca tão poucos espoliaram tantos em tão pouco tempo”.

O resultado é o estabelecimento de um Estado de Exceção que, lembra J. Souza, aniquila o Estado Democrático, conquistado a duras penas. Isto constitui uma atração forte para a classe média marcada por um moralismo conservador, exacerbando uma combinação de raiva e medo dos pobres e banalizando e reduzindo aos “bons” os direitos fundamentais, negando serem eles de qualquer ser humano independentemente de sua origem ou posição social em todos os momentos e lugares, segundo a Declaração Universal dos Direitos Humanos.

Economicamente, isto, conduz a uma concentração maior de renda dos endinheirados com hegemonia do grupo rentista e do agronegócio, com aumento da exportação de commodities e destruição sistemática do meio ambiente. O relatório do IBGE nos dá uma amostra do que isto significa socialmente: em 2017, aumentou em quase 2 milhões o número de cidadãos que vivem com menos de 140 reais mensais. Abaixo da linha da extrema pobreza vivem 15,2 milhões de pessoas e mais grave ainda é que um terço é de crianças e adolescentes com menos de 14 anos, dos quais 58 milhões têm acesso “restrito” à educação. Nas cidades, 78 milhões não têm acesso ao tratamento de esgoto e 27 milhões vivem em moradias inadequadas. Isto implica um enorme abismo social para o qual parece que há no País uma indiferença também enorme.


por Manfredo Oliveira, Professor de Filosofia da Universidade Federal do Ceará – UFC | Texto em português do Brasil

Exclusivo Editorial PV (O Povo) / Tornado


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