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João de Sousa

Sexta-feira, Dezembro 9, 2022

O Mestre e o Aprendiz

Rui Vitória – agora Rui Carlos Pinho – foi, uma vez mais, vítima do melhor treinador português da actualidade: Jorge Jesus.

O ‘mestre da táctica’ banalizou um modelo de jogo que ele próprio construiu e moldou durante seis temporadas, fazendo-o com recurso a apenas 11 jogadores (ou 13), segundo afirmou o actual técnico do Benfica na ante-visão ao jogo, num ‘mind-game’ que foi defendido e contra-atacado pelo cérebro de Alvalade. Defender e contra-atacar, viria também a ser a imagem do 0-3 com que o Sporting brindou os encarnados no Inferno da Luz, catapultando o mestre Jesus para o topo da hierarquia de treinadores portugueses, superando José Mourinho que vive um período negro nos ingleses do Chelsea.

O Sporting apresentou-se de forma consistente e pragmática, fazendo o jogo que lhe competia e sem precisar de ser exuberante para ao intervalo ter um resultado (0-3) que já era o melhor de sempre da sua história, em casa do Benfica, após 45 minutos disputados. Com Rui Patrício a corresponder nas poucas vezes que foi chamado, uma defesa de betão liderada por Paulo Oliveira e com consciência de um princípio básico como a defesa em linha, um meio-campo com os dois suspeitos do costume (William Carvalho e Adrien) mas com a ajuda de Bryan Ruiz e João Mário nos flancos, que são de origem jogadores para ocupar posições interiores, e um ataque letal com Teo e Slimani, que souberam aproveitar as poucas oportunidades de que dispuseram, os leões controlaram o jogo a seu belo prazer, com a chave a estar na superioridade numérica de 4 para 2 que constantemente conseguiam materializar no centro do terreno. Jorge Jesus disse-o no final do jogo, sabia o que fazer para anular este Benfica ainda com muitas das suas ideias. Rui Vitória disse que também sabia o que fazer. Um conseguiu prová-lo, outro não.

O Benfica foi escasso de oportunidades, escasso de ideias, escasso de processos, escasso de concentração e principalmente escasso de liderança e de jogo colectivo. Com um plantel pouco diferente daquele que teve à disposição na época passada, os encarnados sentiram a sua maior diferença no treinador, provando que é no banco que muitos dos jogos são decididos. Os 3 golos resultam todos eles de uma linha defensiva deficiente, com os laterais Sílvio e Eliseu em plano de destaque pela negativa, mostrando que o trabalho de casa, que já leva alguns meses, não está a ser feito, não podendo ser branqueado por declarações que fogem à realidade. Juntemos a isto o erro de ‘casting’ cometido com a titularidade de Jiménez em detrimento de Mitroglou, que não só retirou uma referência de área crucial para uma equipa que jogava em casa e precisava de empurrar o adversário para o seu reduto na busca dos 3 pontos, como também excluiu a importância do jogador grego que nas últimas 2 épocas conseguiu 23 golos em 39 jogos, por outro que tem 2 golos em 31 partidas.

O derby – e clássico – que teve o apito inicial às 17 horas de ontem, na verdade já tinha começado muito antes do árbitro Carlos Xistra autorizar. Jorge Jesus foi acusado, ao longo dos últimos meses, de todas e mais algumas tropelias: a (ainda por provar) história dos sms para os seus ex-jogadores na véspera da Supertaça, o aliciamento de elementos da estrutura do Benfica e, por último, o roubo de ‘software’ do Estádio da Luz. Não foi, no entanto, acusado da maior travessura que fez: deixar o Benfica orfão de Treinador. Sim, daqueles com um T maiúsculo, com um nível de treino anos-luz à frente do comum, com uma confiança excessiva e vista frequentemente como falta de humildade e com jogos mentais que passam para dentro das quatro linhas.

Rui (Vitória?) tentou lutar com as mesmas armas, mas se não o conseguiu perceber após o jogo, hoje, após reflectir como homem inteligente e culto que o é, já terá percebido que não tinha as mesmas balas: experiência, conhecimento e “ratice”. O atrevimento valeu não só a humilhação dentro de campo, como fora dele, com Jorge Jesus a ter um discurso fluente e pertinente numa conferência de imprensa onde ainda teve tempo para com um simples gesto minimizar as competências do técnico que herdou o seu lugar, em mais um episódio deselegante mas que só é permitido a quem vence e convence.

Muitas acusações depois, muitos processos depois e muitas histórias depois, o que se comprova é que o Benfica de Rui Vitória tem 3 derrotas à 8ª jornada, tantas quanto o Benfica de Jorge Jesus teve no campeonato passado ao fim de 34 jornadas, perdeu com o Sporting quase 10 anos depois da última derrota em casa e aumentou para dois os confrontos perdidos com os leões nesta temporada, depois de um período de 6 anos onde o Benfica de Jorge Jesus só tinha saído derrotado por uma vez com os verde e brancos em 15 confrontos.

Há quem diga que os números valem o que valem, a verdade é que os números são o indicador mais racional do futebol e andam sempre de mão dada com a competência. A competência que Jesus levou para o outro lado da 2ª circular.

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