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Quarta-feira, Junho 19, 2024

O mundo está a desdolarizar-se – Parte III

Arnaldo Xarim
Arnaldo Xarim
Economista

PARTE III

Depois de já ter abordado a relação entre o dólar e o yuan ou o uso do dólar como arma silenciosa, porque não pensarmos na hipótese de amanhã só os americanos usarem o dólar?
A persistência de notícias sobre guerras comerciais e boicotes económicos de duvidosa justificação merece uma observação que vá além do mero facto relatado, do histrionismo do autor ou das consequências imediatas e depois de já ter abordado a relação entre o dólar e o yuan ou o uso do dólar como arma silenciosa, porque não pensarmos na hipótese de amanhã só os americanos usarem o dólar?

V – A Europa e o euro

Mas a UE não é apenas a sua vertente geoestratégica; é também a Zona Euro, isto é a primeira grande experiência duma união monetária na qual a difusão das moedas digitais poderá significar a recuperação do poder da emissão monetária perdido com a criação de uma moeda única distorcida em benefício do sistema financeiro.

Além disso, as contas de clientes seriam abertas directamente com os bancos centrais, geridas on-line pelos próprios clientes (como já acontece com os serviços de banca electrónica, apesar dos diferentes graus de penetração nacional)

e acelerando o processo de desintermediação do vínculo entre bancos de último recurso e utilizadores, passando a moeda digital a ser um passivo público e não de uma empresa privada, como acontece actualmente.

A realidade europeia deixa antever a hipótese de formação de um nível europeu de coordenação das políticas monetárias com um nível nacional de emissão monetária e os agentes de mercado (públicos e privados) ligados por uma união dos mercados capitais organizados à volta do sistema bancário, mas permitiria que as estruturas nacionais ou comunitárias tomassem parcialmente a liderança na decisão e financiamento de grandes projectos de infra-estrutura subtraídos aos pesados encargos de um financiamento que actualmente é irresistível e fatalmente atraído pelos lucros rápidos proporcionados por bolhas especulativas, como as do imobiliário ou das start-ups instantâneas.

VI – O Império do Meio

A guerra comercial contra a China, decretada e alimentada pela administração Trump, acabará por ter como efeito uma desdolarização do continente euro-asiático, já que a China procurará outros parceiros comerciais, principalmente asiáticos, asiático-pacíficos e europeus, com os quais negociará outros contractos e fora do sistema de transferência SWIFT, usando, por exemplo, o Sistema Internacional de Pagamentos da China (CIPS) que, não é seguramente por acaso, está aberto para o comércio internacional de qualquer país do mundo.

Esta reorientação comercial não contornará apenas as tarifas sobre as exportações da China – enfurecendo os consumidores americanos de produtos chineses (e importa aqui recordar que a maioria da produção industrial norte-americana foi deslocalizada para a China e o Sudoeste Asiático, incluindo os famosos produtos com tecnologia de ponta da Apple), já que estes deixarão de estar disponíveis a preços acessíveis ou indisponíveis de todo –, mas também aumentará a importância do yuan chinês nos mercados internacionais e impulsioná-lo-á como uma moeda de reserva confiável, superando até o dólar norte-americano. De facto, nos últimos 20 anos as reservas internacionais denominadas em dólares caíram de mais de 90% para menos de 60% e deverão continuar a decrescer à medida que prevalecerem as políticas financeiras punitivas de Washington, devendo ser paulatinamente substituídas por reservas em yuan e ouro.

A juntar a isto, qual cereja no topo do bolo, os investimentos da Nova Rota da Seda (BRI), serão denominados principalmente em yuan ou nas moedas locais dos países envolvidos e incorporados numa ou mais das suas várias rotas terrestres e marítimas que eventualmente irão abranger todo o globo. Até alguns investimentos em dólares americanos poderão servir ao Banco Popular da China (o Banco Central chinês), como uma ferramenta de desinvestimento das imensas reservas em dólares (estimadas em quase dois biliões de dólares) detidos pelos chineses.

O BRI promete tornar-se a próxima revolução económica e um esquema de desenvolvimento económico sem o dólar; promete ligar povos e países sem forçar a uniformidade, mas promovendo a diversidade cultural e a igualdade humana e tudo isso quebrando a nefasta hegemonia do dólar, assim o Império do Meio resista ao vórtice do poder pelo poder…

VII – Conclusão

Parecendo cada vez mais próxima a inevitabilidade do fim do poder hegemónico norte-americano, a par com as óbvias questões de natureza militar e geoestratégicas surgem também as de natureza económica e entre estas a principal será sempre a do papel da moeda americana.

E não deixa de ser curioso que o argumento em que se refugiam os defensores do status quo, ditado pelo Acordo de Bretton Woods que elevou o dólar norte-americano ao estatuto de moeda internacional de reserva e pagamentos – conferindo-lhe um peso e um poder que efectivamente nunca teve e particularmente após a declaração unilateral da sua convertibilidade (sabendo-se que a garantia da convertibilidade foi factor determinante para aquela decisão tomada em 1944), decidida em 1971 pela administração Nixon –, é a de que os EUA ainda são um poder hegemónico e por isso todos devemos usar a sua moeda.

Mas este argumento apresenta-se hoje como uma perigosa tautologia. É que a hegemonia norte-americana assenta em grande medida no estatuto desproporcionado da sua moeda e esta deixou há muito de cumprir meras funções económico-financeiras para se transformar numa poderosa arma de sujeição e de controlo à escala global.

 


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