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Sábado, Outubro 23, 2021

O regresso adiado de Malfez Razão Cassamo

Delmar Gonçalves, de Moçambique
De Quelimane, República de Moçambique. Presidente do Círculo de Escritores Moçambicanos na Diáspora (CEMD) e Coordenador Literário da Editorial Minerva. Venceu o Prémio de Literatura Juvenil Ferreira de Castro em 1987; o Galardão África Today em 2006; e o Prémio Lusofonia 2017.

“O melhor de uma verdade é o que dela nunca se chega a saber”
Vergílio Ferreira

Malfez Razão Cassamo ia para Lisboa, viver na Freguesia de São Domingos de Rana em Cascais, longe de sua amada Farida Ahmade. Conseguira arranjar uma passagem aérea e um termo de responsabilidade que lhe permitiam seguir viagem. Esperava-o o senhor Pinto José, da agora extinta firma Portelinhas de Lisboa, um cocuana ex. retornado profundamente humano.

Na sua despedida no moderno Aeroporto Internacional de Mavalane em Maputo com alguma emoção o jovem zambeziano dizia: «Eu vou na Europa e volto dentro de um ano . Não te preocupes meu amor do coração, não há “viage” sem regresso que não seja a morte. Eu te amo juro mesmo a fé de Cristo! Imanse curâne Xarife!»

Não importava o juramento, fosse ele cristão ou muçulmano. Ela tinha de acreditar.

Foi o que fez.

Despediram-se, ele apanhou o avião e partiu em viagem. Passaram-se entretanto três anos e acontecia tudo menos a chegada de notícias do seu amado Malfez Razão Cassamo.

Começou o desespero.

Ao quarto ano finalmente, Farida Ahmade recebeu uma carta que dizia:

«Minha amada do coração, estou com muitas saudade tuas, parece mesmo homem sozinho numa ilha. Talvez estás “dimirada” com tanta poesia e melodia, capaz pensas aprendi aqui, mas nada, ando ler “vadide véne” nossos Charrua juntamente com Mia Couto e Ungulani com Craveirinha e White completamente.Lirismo moçambicana puro!

– Como vais na saudè?

– Você sabes? Estó viver em São Domingos de Rana em Cascais. Parece Rana é latim puro, quer dizer que havia muitas rã aqui mesmo e por isso ficou decidido que o Santo era de Rana,exclusivamente! É uma completa lindeza! E não tem baracas, nem palhotas de macubari!

E o teu pai como vai também mesmo?

Eu quero você mesmo ir-me receber no dia vinte de Janeiro no Aeroporto Internacional de Mavalane em Maputo. Veste lá a melhor capulana que você tens, aquele mesmo tem desenho do Santo Papa João Paulo II. É capaz ele dá sorte não é? E por isso é Santo padre! Estou imaginar tuas beleza completamente. Teus cabelo parece mesmo barbas de milho de Nicoadala, teu rosto parece papaia madura melada de Namacurra, teus olho parece azeitonas portuguesa mesmo, tuas mama parece ananás grande e madura de Licuári, tuas perna grossa parece manga de Milange,tuas nádega parece de Hema Malini. Parece até Dharmendra fica com ciúmes dela!

Quero você preparar mesmo os melhor oputo e sura para mim e minhas visita mesmo, juntamente com arroz de coco, mucuane e mucapata, aqui mesmo nenhuma mutiana me vai-me enganar!»

Malfez Razão Cassamo fizera um pedido a Farida e ela assim fez cumprindo à risca tudo o que o seu amado pedira.

No dia vinte, foi esperá-lo ao Aeroporto conforme o combinado, não sem antes viver as dores de cabeça burocráticas habituais.

O seu brilho era tão grande que até despertava a curiosidade e a atenção de qualquer pessoa presente ou de um possível passageiro mais atento, tamanha era a sua beleza e singularidade.

Mas de Malfez Razão Cassamo nem sinal!

Farida Ahmade, desesperada recebeu a triste notícia de que o seu amado havia engravidado uma jovem portuguesa de nome Maria das Dores, através de um amigo moçambicano bolseiro que regressara de férias entretanto.

Ele trazia uma carta que dizia o seguinte em jeito de promessa:

«Amor do coração. Estou maningue triste com responsabilidades de um filho que não sei se é meu. É mesmo possível engravidar uma mulher com beijos e carícia? Estou maningue confusionado. Eu desconsigo de dormir. Mas sabes amor, vou fazer divinha no macangueiro Guineense da Avenida de Berna em Lisboa. Aqui na Europa chamam astrólogo, professor ou mestre aos macangueiro e feiticeiro e saem mesmo nos jornal diário (“Correio da Manhã”, “Público” e “Diário de Notícias”), com foto e tudo, sabias? Se for meu filho mesmo, eu regresso para ti com ele, panho o primeiro vião juro mesmo morrer aqui agora! Faz conta ele é teu filho também!

– É que sabes? Parece ela andou brincar com fogo. Era mulher da vida! Aqui chamam acompanhante de luxo! Era muito cara, mas simpática para mim.

Tenho tanto amor, tanto amor por ti que não cabe no coração, a fé de Cristo! Imanse curâne Xarife! Di Djé gúluè! Garanto-te que sou como a água do rio que vai e volta e não tem fim também.

Do teu eterno Malfez Razão Cassamo!»

Passaram-se anos entretanto e de Farida Ahmad já nada se sabe. Talvez se tenha perdido na longa espera por Malfez Razão Cassamo ou simplesmente tenha encontrado a paz numa morte provavelmente anunciada.

Malfez Razão Cassamo, esse, continua perdido no seu mundo, entre o sonho do regresso anunciado, sua esposa de “emergência” Maria das Dores, seu duvidoso filho “fundista” e a lembrança de sua amada e eterna Farida Ahmade

 

Breve glossário:

  • Macangueiro-o mesmo que curandeiro; astrólogo; feiticeiro; adivinha.
  • Vião- avião.
  • Divinha- adivinha.
  • Viage- viagem.
  • Imanse curâne xarife- juramento muito vulgar entre os crentes muçulmanos pelo sagrado livro do Alcorão.
  • Charrua- Revista literária moçambicana.
  • Mia Couto- escritor, poeta, jornalista e biólogo moçambicano.
  • Ungulani Ba Ka Khosa- escritor e professor moçambicano.
  • José Craveirinha- poeta e escritor moçambicano, Prémio Camões.
  • Confusionado- confuso.
  • Vadide véne- muito(a).
  • Milange – distrito e município da província moçambicana da Zambézia.
  • Di djé gúluè- juramento muito vulgar entre os crentes muçulmanos de Quelimane que falam chuabo ou elomwè e que significa ” Que eu ccoma porco!”, um grande castigo e ofensa para o crente muçulmano.
  • Dimirada- admirada.
  • Sura- bebida tradicional moçambicana feita com base no coco.Muito vulgar na Zambézia.
  • Sô- senhor.
  • Maputo- antiga Lourenço Marques, capital da República de Moçambique e da província de Maputo.
  • Hema Malini- actriz indiana de cinema, esposa do lendário actor indiano Dharmendra.
  • Baracas- barracas.
  • Mutiana- garota, adolescente, jovem.
  • Cocuana- velho(a),idoso(a).
  • Mucapata- puré de arroz e feijão siroco.Muito comum na Zambézia.
  • Mucuane- esparregado feito com folhas de abóbora e leite de coco.Muito comum na Zambézia.
  • Macubari- folhas de palmeira e coqueiro que servem para cobrir o tecto das casas(palhotas).Muito comum na Zambézia.
  • São Domingos de Rana- Freguesia do Concelho de Cascais em Portugal.
  • Licuári- localidade do distrito de Nicoadala na Zambézia.
  • Namacurra- distrito e município moçambicano da província da Zambézia.
  • Dharmendra-um dos melhores actores do cinema comercial indiano; ídolo de milhões, é considerado uma lenda viva.
  • Panho- apanho.
  • Saudè- saúde.

Por opção do autor, este artigo respeita o AO90


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