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Sexta-feira, Setembro 17, 2021

O relançamento da candidatura de Ana Gomes

Paulo Casaca, em Bruxelas
Foi deputado no Parlamento Europeu de 1999 a 2009, na Assembleia da República em 1992-1993 e na Assembleia Regional dos Açores em 1990-1991. Foi professor convidado no ISEG 1995-1996, bem como no ISCAL. É autor de alguns livros em economia e relações internacionais.

A Dr.ª Ana Gomes que nunca morreu de amores por António Costa tem assim luz verde para disparar frontalmente contra o líder do PS, que se tornou o seu alvo favorito a propósito de tudo e de nada.

  1. A revelação do ‘Lailat-ul-Qadr’

A pandemia fez esmorecer a candidatura da Dr.ª Ana Gomes, portanto, anunciada na sua entrevista ao Diário de Notícias de dia 8 de Março a que fizemos referência aqui no Tornado. As acrobacias hipocondríacas do senhor Presidente em nada lhe tocaram a popularidade – provavelmente porque o povo português se sentiu no fundo bem representado – e a leitura comparada da necrologia a que os portugueses fechados em casa se entregaram foi clemente para com o nosso Primeiro-ministro. Posto isto, é verdade que a República Islâmica do Irão terá provavelmente sido dos países do mundo mais atingidos pela pandemia, pelo que tão pouco havia inspiração vinda daí.

E tivemos assim mais de dois meses de quase silêncio antes de, no Lailat-ul-Qadr – noite do Ramadão em que o Corão se terá revelado a Maomé – a Doutora Ana Gomes vociferar no órgão central da sua candidatura: ‘o PS não é o partido do Dr. Costa’ leia-se, o PS arrisca tornar-se no partido da Dr.ª Gomes.

E tivemos assim finalmente a comunicação social portuguesa a virar a página sobre a pandemia do vírus bonzinho (como dizia acertadamente uma entrevistada no mesmo jornal) para uma pandemia mais perigosa, a da manipulação política directa do eleitorado socialista pelo fanatismo islâmico orgânico de Teerão.

Se o 13 de Maio de 2020 revelou um quarto pastorinho, o 18 de Maio revelou outra pastorinha cujo segredo mal-escondido é assumidamente o de recuperar o poder no PS, seja através da manipulação de um líder fraco, como tinha acontecido com António José Seguro, seja pela assunção directa dos comandos.

A Dr.ª Gomes e o Dr. Assis (que parece interessado em ser o novo Seguro da Dr.ª Gomes) apoiaram claramente o bloco central em 2014, mas pretendem agora ser necessário correr com o Dr. Costa por este, em 2020, rejeitar a Geringonça e refazer um bloco central presidido pelo Professor Marcelo Rebelo de Sousa. O total oportunismo da cambalhota não parece contudo ter intrigado nem comunicação social nem eleitores socialistas.





Se só com muita fé se poderá ver na devoção a Fátima ou ao Corão a força motriz da ‘parelha populista de putativos presidenciáveis’, só com considerável cegueira política se pode ver aqui algum acto que tenha a ver com a ‘Esquerda’, a democracia interna do PS, a luta contra a corrupção ou qualquer coisa desse género.

  1. A viragem geopolítica de Portugal

Pela primeira vez, vimos a imprensa fazer uma investigação às fontes de financiamento de um partido político, o Chega investigação que, se for fidedigna, o dá como sendo financiado dentro de portas por organizações religiosas.

Creio que a história de Portugal das últimas décadas se tornaria muito mais límpida se fosse feito o mesmo em Portugal em relação aos principais partidos políticos e seus dirigentes nacionais, sendo que estou em crer que tal investigação iria seguramente revelar a importância das fontes externas, as mais importantes, também relacionadas com religião…

O flirt de várias administrações americanas com a China e com a teocracia – e muito em especial a Administração Obama – começou a ser invertida com a presente administração que, no seu estilo pouco diplomático, foi dando a saber que se opunha frontalmente a qualquer concessão portuária ou aeroportuária nos Açores ou mesmo no Continente à China e desmontou o projecto (que sempre me pareceu mais de intenções para obter submissão do que real) de construção de uma rede de distribuição do gás iraniano a partir de Sines.

E aqui, o Bloco Central foi paulatinamente mudando de agulhas por reconhecer que tinha mais a perder com a continuação dessas apostas, e com isso, progressivamente, vimos o Irão e a Venezuela a marcar distâncias e o Governo de Costa a mudar de agulhas na sua política portuária e de alinhamento internacional.

A Dr.ª Ana Gomes que nunca morreu de amores por António Costa tem assim luz verde para disparar frontalmente contra o líder do PS, que se tornou o seu alvo favorito a propósito de tudo e de nada.

A marcação presidencial será certamente apenas um episódio, e podemos ter a certeza que outros surgirão com o único objectivo de derrubar quem, tendo sido o símbolo da geringonça, aparece agora, curiosamente, como o principal obstáculo à transformação do PS num instrumento de forças externas antidemocráticas e imperiais.

  1. A infiltração jihadista na Esquerda ocidental

Para entendermos o que se passa, convém começar por ter em conta que este processo político nacional tem seguramente particularidades, mas que no essencial ele reflecte o mesmo fenómeno que se desenrola nas democracias que nos são mais próximas.

Entre estas, no que respeita às influências externas, as democracias americana, britânica e mesmo a espanhola têm-se revelado como mais transparentes do que a francesa, italiana, portuguesa ou alemã. No Reino Unido, o Irão conseguiu impor um ex-colaborador do canal externo de televisão dos guardas revolucionários islâmicos – a Press-TV – como dirigente do principal partido da oposição, enquanto em Espanha colocou um ex-funcionário de um outro canal de televisão estatal iraniana a encimar um partido que se tornou charneira na disputa do poder (Podemos).

Nos Estados Unidos da América, a rendição do candidato da esquerda, Bernie Sanders, ao jihadismo foi também clara e transparente e culminou com a cedência por Sanders do palco do comício mais importante nas suas primárias do Michigan ao representante oficioso da teocracia nos EUA, o Imam Sayed Hassan Al-Qazwini.

As primárias do Michigan eram a última oportunidade de a esquerda poder estar presente nas presidenciais americanas, uma esquerda, totalmente infiltrada e manipulada pela extrema-direita jihadista, diga-se de passagem, mas é curioso que a campanha de Sanders se tenha disposto a retirar qualquer veleidade de independência em relação ao regime iraniano ao colocar um clérigo xiita, e não uma congressista tipo ‘Ana Gomes’, no principal palco de campanha no seu momento decisivo.

Uma esquerda doutrinariamente indigente mostra-se assim presa fácil de monstruosas ditaduras. Fazer passar os ditadores comunistas por epígonos da esquerda é já prova do colapso moral da velha esquerda, mas fazer passar o mais reacionário, agressivo e retrógrado clero do mundo (o clero da teocracia iraniana) por farol da esquerda é muito pior ainda.

E se é claro que como democrata e socialista não fico contente com a amálgama da esquerda num Bloco Central, muito mais claro ainda é que a transformação da esquerda na tropa de choque da extrema-direita clerical e imperial é algo de muitíssimo pior de qualquer ponto de vista.

 


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