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João de Sousa

Segunda-feira, Agosto 2, 2021

Onde há fome, há fartura

pobreza

Lemos no no estudo Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico que “cerca de 122 milhões de pessoas estiveram em situação de pobreza ou exclusão social em 2014. Portugal está pior do que a média europeia neste indicador, bem como no indicador de risco de pobreza. Roménia, Bulgária e Grécia têm a situação mais deteriorada da Europa.”No caso português, pelo menos, o inquérito foi realizado em 2014 mas a informação de base é de 2013. 

O Tornado foi falar com várias pessoas e instituições que andam no terreno, para tentar perceber como vivem os portugueses mais pobres, numa altura em que este tema quente se apresenta na comunicação em geral com dados alarmantes. Ou alarmistas.

Abundância é forma pouco usual de adjectivar seja o que for em Portugal. Partimos sempre do pressuposto de que a escassez ou a falta de recursos faz parte do ADN do nosso povo e sociedade.

O que não é verdade é que, hoje em dia, numa casa portuguesa haja sempre pão e vinho sobre a mesa…ou haverá?

Em Lisboa existem várias instituições que têm como prioridade máxima ajudar os sem abrigo. Ou tirar a fome das ruas e de dentro das casas que pedem ajuda.

Fiz voluntariado há pouco tempo, durante a noite a parte da madrugada, pela Comunidade Vida e Paz (CVP) e apercebi-me de que quando chegávamos aos locais onde é suposto deixar comida, quase todos já estavam servidos. Servidos por quem?

O Tornado falou com o C.A.S.A (Centro de Apoio aos Sem Abrigo) que sozinho distribui em Lisboa cerca de 400 refeições (as chamadas “voltas” são semelhantes às da CVP, ou seja, lugares onde encontram os sem-abrigo).

Mas não é só nas ruas que se distribui comida. Actualmente são distribuídos também 120 cabazes a 120 famílias carenciadas, as que se conhecem, claro, pelo projecto Casa Amiga que funciona na Ajuda às segundas-feiras e em Sete Rios às quintas.

Os donativos chegam de todo o lado: desde o Pingo Doce, Continente e Jumbo, ao El Corte Inglês e Bom Dia Continente. Mais ainda: pastelarias, mercearias, padarias de Lisboa contribuem também para que nada falte.

Já temos o C.A.S.A. no Porto, na Figueira da Foz, Coimbra, Sintra, Cascais, Lisboa, Setúbal, Évora, Faro, Albufeira e Funchal. Voluntários? Sim. 377 em Lisboa, 855 a nível Nacional.

“O Banco Alimentar agradece aos 2340 doadores que na campanha de 2015 ajudaram online a “Alimentar Esta Ideia”.
Graças à generosidade demonstrada, vai ser possível ajudar quem mais precisa com os alimentos doados nas quantidades indicadas no site.” Podemos ler isto no site do Banco Alimentar (BA), onde o slogan “alimente esta ideia” ainda funciona, tendo por base um modelo de gestão conduzido pela Drª Isabel Jonet, que não nos pôde responder a algumas questões por estar fora do país à data em que o redigimos. É uma das mais meritórias e eficazes instituições que existem em Portugal no combate à fome e a campanha online estará de novo disponível em Novembro de 2015. Sempre a crescer, sempre a ajudar. Aqui as coisas funcionam de outro modo e são as instituições que ajudam os carenciados que, organizadamente, se dirigem ao BA e os distribuem. O Tornado falou com uma dessas Instituições, o Centro Social da Musgueira, situado numa das zonas mais problemáticas da cidade.

Dar de comer a quem tem fome

Ana Barata diz-nos que o Centro começou a trabalhar a zona da Musgueira Norte com o objectivo específico de dar de comer a quem tem fome. Desde o primeiro dia articulam o apoio do BA (em produtos) com refeições por eles confeccionadas numa média de 300 por dia e que são servidas aos seus utentes (desde crianças, a idosos, bem como dependentes que estão em casa por doença, acamados ou em situações de maior vulnerabilidade).

Com o tempo, o Centro cresceu no sentido de oferecer serviços à comunidade, como a ajuda na formação a jovens e adultos, trabalhando em parceria com o Instituto de Formação Profissional no programa Vida Activa. Neste momento contam com 130 formandos, em seis cursos que são ministrados.

Tudo parecia conjugar-se de forma a que estes serviços de integração ou de apoio a desempregados passasse a ser a prioridade, mas nos últimos anos, e com o desemprego a crescer, a questão da alimentação voltou a números que já tinham baixado. Agora é preciso ajudar mais. A criança que toma o pequeno almoço tem agora que levar reforço para casa. 54 famílias recebem cabazes de acordo com as suas necessidades, outras, porque não têm sequer gás em casa para os confeccionar, acabam por precisar de outro tipo de apoio.

Neste Centro existem 50 colaboradores, 36 funcionários em forma de prestação de serviço, e a área alargou-se, passando agora pelo Lumiar e a antiga Ameixoeira (agora chamada Santa Clara).

Aqui o lema é mesmo adaptarem-se às necessidades conforme elas vão surgindo: ou mais alimentação, ou mais formação, integração e ajudas específicas, num universo de pessoas que conta com uma taxa de desemprego na ordem dos 32% e onde o analfabetismo – puro e duro – ronda uns escandalosos 13%.

Mas ajuda para quem precisa

Mas Lisboa tem mais ajuda para o combate à fome. E esta vem directamente da Comunidade Islâmica de Lisboa.

O Tornado falou com o Imã  Sheik David Munir que nos passou rapidamente ao “homem do terreno”, Mahomed Abed Gulamo, Coordenador da Comissão Social e Cultural da Comunidade Islâmica de Lisboa. Conta-nos este homem que desde 2005 qualquer pessoa com fome se pode deslocar à Mesquita para almoçar completamente de borla, duas vezes por mês. Seja muçulmano ou não, porque a fome não escolhe religiões.

Esta refeição inclui sopa, pão (cozido na Mesquita), conduto (prato principal), sobremesa, águas e refrescos. Esta campanha solidária para carenciados permite ainda que as pessoas levem comida para casa. Conta-nos Abed que serviram já 5250 refeições, fora os litros de sopa e os quilos de peças de fruta que as pessoas levam para casa. De sopa, estima que sejam à volta de 400 litros por mês.

Estes homens não vão buscar comida a nenhuma instituição. É tudo prata da casa, feito com o intuito de ajudar quem tem fome. Seja muçulmano ou não-muçulmano.

Resume assim, quando lhe perguntamos se tem havido acréscimo ou decréscimo de pedidos de ajuda: “em 2010 iniciámos a campanha da Sopa. Em 2011 cresceu o pedido de procura, mas a partir de 2012 estabilizou”. Acrescenta que talvez se deva ao facto de, nessa altura, ter entrado outro player com impacto muito forte: a campanha que se fez de sensibilização e recolha de desperdícios.

Existem casos muito dramáticos, conta. Mas o facto é que as pessoas que recorrem à Mesquita se têm mantido. Vão regularmente e criam até laços sociais. As refeições mantêm-se no refeitório da Mesquita quinzenalmente, às sextas-feiras, entre as 19.30H e as 21H30.

Em 2009 a Mesquita do Laranjeiro junta-se a esta ajuda. E agora já não os vemos apenas “dentro de casa”. Existe uma equipa, conta-nos Abed, que vai para as ruas e distribui refeições aos sem-abrigo. Sobretudo na zona de Xabregas e Santa Apolónia.

E não. Não acha que haja mais fome em Lisboa agora. Sabe que tem sido feito muito mais no sentido de a combater. E no Natal até há cabazes. Como reza o documento que nos enviou, “esperamos por vós estimados irmãos e irmãs, que são sempre bem-vindos”.

O Tornado foi ainda investigar porque razão, no fim de contas e de passagens pelas ruas da Capital, não encontramos sem-abrigo ou gente carenciada da comunidade chinesa, que é grande e apresenta uma taxa de crescimento considerável.

Será que a fome não chega a um chinês, ou será que é porque dominam alguma restauração na cidade?

Falámos com uma representante desta comunidade que nos explicou delicadamente que tudo isto de que falamos aqui não existe no horizonte de um chinês deslocado da homeland.

Nestas condições, todos são como uma grande e una família, quer se conheçam, quer não. Se a vida se torna dura e a fome aperta, o chinês não vai pedir. É o orgulho que fala mais alto e são as portas que se abrem dentro de toda a comunidade.

Ninguém fica sem tecto ou comida, até porque isso seria uma pressão social. É obrigação moral ajudar o conterrâneo, porque essa situação é encarada com vergonha e fica mal. É quase ofensivo, diz-nos esta chinesa, ver alguém numa situação dessas. O chinês não permite o abandono de um conterrâneo e toda a comunidade ajuda.

Conta-nos que não tem conhecimento de chineses em situação de receber subsídios, seja de desemprego ou de inserção e nem pedem esse tipo de ajuda. É tudo “dentro de casa”.

A integração é rara, também. A nossa entrevistada conhece chineses que vivem em Lisboa há 30 anos, na Comunidade, e não conhecem outra realidade.

Fome na comunidade chinesa em Lisboa? A resposta é curta: “Não e será impossível enquanto houver comunidades Chinesas. Seria uma vergonha.”

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