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Quinta-feira, Fevereiro 22, 2024

Organização internacional leva saúde oral a populações africanas carenciadas

Joaquim Ribeiro
Joaquim Ribeiro
Jornalista

Ignacio Calatayud, médico dentista espanhol coordenador da Dentalcoop, esteve em Torres Vedras para uma conferência sobre os projectos de ajuda a países africanos no campo da saúde oral.

A Dentalcoop é uma associação de voluntários para a saúde dental, com sede em Espanha. Organiza ou ajuda a organizar expedições a países onde a população tem poucos recursos e praticamente não existem cuidados de saúde oral. Em muitos casos tratam pessoas que nunca viram um dentista na vida. Assume-se como uma organização aberta e colectiva que presta formação do pessoal voluntário e fornece equipamentos e produtos necessários para que os voluntários possam desempenhar o seu trabalho no terreno.

Voluntariado em África

Segundo Ignacio Calatayud, neste momento estão a trabalhar em África entre 200 e 300 voluntários, em vários países com enormes carências sócio económicas. Trata-se, no fundo, de solidariedade com base “numa atitude moral e um princípio ético”, mas é também uma opção pessoal “que transforma a nossa forma de viver e de pensar”, porque procura melhorar a vida dos beneficiários. “A solidariedade transforma a realidade”, afirma o médico espanhol.

Há várias entidades a fazer voluntariado em África, mas a Dentalcoop desvia-se um pouco das organizações clássicas. É sobretudo um agrupamento de voluntários que funcionam em rede. “A nossa missão é facilitar que um dentista possa exercer o seu voluntariado num local que eleja”  Diz Ignacio Calatayud. Para cumprir os seus objectivos a Dentalcoop precisa da adesão contínua de novos membros para estabelecer novas linhas de acção e missões de ajuda caritativa. O objectivo é gerar sinergias entre várias instituições ou organizações que desenvolvem actividades solidárias, sendo a Dentalcoop uma opção de ajuda e recursos no campo da saúde dentária.

“Não somos uma agência de viagens”, frisa o especialista. Quando alguém se oferece como voluntário para ir em missão a um determinado território, a Dentalcoop arranja os contactos e ajuda a organizar a expedição. É sempre preferível inserir esse voluntário num grupo que já esteja constituído. Caso contrário, incentiva a formação de um grupo, aconselha a falar com voluntários que já estiveram antes no mesmo local e auxilia na preparação da viagem. Cada equipa deve ter no mínimo três pessoas e no máximo oito e cada comissão dura entre 10 a 12 dias.

Um voluntário desenvolve a sua capacidade de iniciativa, de improvisação e flexibilidade, em condições difíceis, com carências materiais impensáveis e junto de pacientes com uma mentalidade e uma cultura diferentes da nossa” Adverte Ignacio Calatayud. No terreno executam os cuidados básicos, incluindo extracções, se for o caso. Em alguns locais é muito difícil trabalhar, como na Guiné Equatorial, por motivos políticos, mas nos Camarões ou no Gana trabalha-se muito bem. Depende fundamentalmente do apoio de uma organização local, que é imprescindível para o sucesso das missões.

O caso do Sahara Ocidental

Ignacio Calatayud falou em particular do caso do Sahara Ocidental, colónia espanhola até 1975. Desde essa altura uma parte do país está sob o domínio de Marrocos, junto à costa, onde os cerca de 200 mil saharauis passam por uma situação de conflito armado. Há depois mais 150 mil a 200 mil saharauis que vivem num campo de refugiados na Argélia. E há ainda uma parte do território, o denominado Sahara Ocidental Livre, onde se estima que existam entre 10 mil e 20 mil nómadas saharauis.

É nestas duas últimas zonas que a Dentalcoop tem actuado. No campo de refugiados da Argélia a situação não é muito boa, mas apesar de tudo é melhor, porque pelo menos consegue obter ajuda internacional. Nos chamados Territórios Livres do Sahara Ocidental isso não acontece.

Tifariti está localizado a cerca de 350 quilómetros a sudoeste dos campos de refugiados de Tindouf, na Argélia, e foi a última população bombardeada por Marrocos durante a guerra. É um centro de referência para os mais de 10 mil nómadas saharauis que passam por um dos desertos mais difíceis e inóspitos da Terra, onde a temperatura no verão ultrapassa os 50 graus e quase nunca chove. Para aqui já foram, através da Dentalcoop, 18 comissões que envolveram 170 voluntários e foram atendidos cerca de 4.400 pacientes.

Actualmente, em toda aquela área, como no resto dos territórios livres, os hospitais estão em muito más condições. Em Novembro de 2013, a ONG Sahara 4×4 Solidário, que colabora com o Crescente Vermelho saharaui, forneceu veículos para o transporte de equipamentos médicos e instalou duas cadeiras dentárias no Hospital Navarra de Tifariti. Em abril de 2014 a Dentalcoop acabou de equipar essa clínica com instrumentos e equipamentos médicos.

A ideia inicial do projecto era realizar campanhas de dentistas voluntários em diferentes áreas dos Territórios Livres. Até Dezembro de 2015, cerca de 30 voluntários viajaram para Tifariti e até Miyek, no sul desta região, a mais de 800 quilómetros dos campos de Tindouf, numa área onde os trabalhadores humanitários nunca chegaram antes. No total, cerca de 800 pacientes de várias patologias foram tratados.

Mas o projecto Dentalcoop não se concentrou apenas na assistência médica no Sahara Ocidental. Em colaboração com as autoridades locais, iniciou em 2014 um programa de formação científica para dentistas saharauis. Os voluntários, liderados por Ignacio Calatayud, estabeleceram uma série de actividades de treinamento médico e conseguiram financiamento para apoiar os salários desses profissionais.

 

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