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Sexta-feira, Junho 14, 2024

Os Bancos Centrais brincam com o fogo

Arnaldo Xarim
Arnaldo Xarim
Economista

Com a recente crise bancária norte-americana a alastrar já pela Europa, os receios da repetição do colapso de 2008 ganharam novo alento e ficou ainda mais claro o absurdo da insistência nas políticas dos bancos centrais, que outra coisa não têm feito senão aprofundar o processo de transferência social e de concentração da riqueza.

Após a intervenção das autoridades bancárias norte-americanas no Silicon Valley Bank, e no Signature, no passado mês de Março, rapidamente se assistiu ao resgate do First National Bank, assegurado por um sindicato bancário que juntou o JPMorgan, o Citigroup, o Bank of America, o Wells Fargo, o Morgan Stanley, o PNC Financial Services Group e uns indispensáveis 30 mil milhões de dólares para tentar estabilizar o banco, seguido da compra do Credit Suisse pela UBS, “negócio” onde este investiu 3 mil milhões de euros e o banco central suíço disponibilizou uma linha de liquidez extraordinária de mais 101 mil milhões de euros.

Com as ações do banco suíço (que pela sua dimensão e atuação global era tido pelos mercados como uma das instituições financeiras de dimensão e risco sistémico) sob forte ataque, rapidamente se propagou uma onda de desconfiança que atingiu três grandes bancos franceses (Société Génerale, BNP Paribas e Crédit Agricole) e um alemão (Deutsche Bank), aumentando a percepção para os riscos de um choque de crédito e elevando as críticas dos que associam a subida das bolsas de valores à origem da tempestade.

Embora inegável, o efeito da sobrevalorização dos activos financeiros não deverá ser a única explicação e outro factor começou também a ser considerado, parecendo agora inegável que os problemas da banca estão relacionados com a política de rápida subida dos juros, escolhida pelos bancos centrais para conter a subida da inflação e iniciada em Março de 2022 pelo Fed (o banco central norte-americano) ao ritmo mais rápido desde os anos 1980. Embora ainda se mantenham muito abaixo da inflação, o efeito da subida das taxas directoras (taxas a que os bancos centrais financiam o sistema financeiro) levou ao correspondente aumento das taxas de juro da dívida recentemente emitida e à natural descida do valor da dívida antiga (emitida a taxas muito baixas) e à consequente desvalorização dos passivos dos bancos, especialmente daqueles que aplicaram a sua liquidez – importa aqui recordar que, desde 2008 e num período em que os juros permaneceram muito baixos, os bancos receberam enormes volumes de liquidez e que face à retracção dos investimentos produtivos optaram por adquirir grandes quantidades de títulos de dívida pública, títulos que sofreram uma forte desvalorização com a subida das taxas e se mostram agora insuficientes para responder aos levantamentos exigidos pelos clientes – em activos de maturidades mais longas, mecanismo explicado recentemente por Michael Hudson (o famoso autor do esgotadíssimo «J is for Junk Economics: A Guide to Reality in an Age of Deception», obra que explica o verdadeiro modo de funcionamento da economia, quem ganha e quem perde com ele) e que ajuda a compreender as razões imediatas do choque.

Tudo isto sem esquecer que, apesar das solenes promessas da época, a economia de casino exposta em 2008 pela crise sistémica continuou a crescer desde então e se na altura o risco que representava era considerável, que dizer hoje de um mercado de produtos derivados onde se aposta sobre o preço futuro de qualquer mercadoria (desde o petróleo ao milho, à soja ou à carne) ou índice (seja a cotação das moedas, a taxa de juros ou o crescimento do PIB) e onde só os cinco maiores bancos dos EUA (Goldman Sachs, JP Morgan, Citibank, Bank of America e Wells Fargo) detinham, no final do ano passado, produtos derivados estimados em mais de 182 biliões de dólares (quase o dobro do PIB mundial), mas há quem assegure que o valor total dos produtos derivados em negociação já tenha ultrapassado o trilião (1015) de dólares, valores irreais que aumentam exponencialmente os prejuízos causados por uma variação mínima nas cotações e podem originar prejuízos incomensuráveis e desencadear a maior hecatombe bancária.

Perante este cenário, que, como a história o confirma, pouco tem de futurista e ainda menos de alarmista, é preciso contestar duas ideias generalizadas para conter a inflação: a primeira é a da indispensabilidade da manutenção da política de subida das taxas de juro, seja porque a situação de inflação de vivemos não resulta de um aumento aa procura por via do excesso de moeda, antes de uma redução na oferta global de bens e serviços (como efeito combinado da quebra dos circuitos de produção e distribuição provocada pela pandemia com a guerra na Ucrânia), seja pela recente apresentação de estudos que demonstram que a relação entre inflação e taxas de juros ou é completamente falsa ou muito indireta; a segunda é a falácia da necessidade de contenção salarial, que contraria abertamente a prática dos bancos centrais injectarem milhares de milhões de unidades monetárias para salvar os bancos…

Finalmente, lembrar que existe alternativa ao modelo de financeirização das economias, através da reversão do papel dos sistemas bancários em prol da economia real e da alteração do modelo de financiamento público mediante recurso ao mesmo mecanismo de financiamento (criação de moeda pelos bancos centrais) que hoje apenas resgata a oligarquia financeira.

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