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Segunda-feira, Janeiro 24, 2022

Os donos disto tudo

Beatriz Lamas Oliveira
Médica Especialista em Saúde Publica e Medicina Tropical. Editora na "Escrivaninha". Autora e ilustradora.

Ao contrário do que a imprensa ocidental subserviente aos interesses que a dominam escreve, o presidente Trump não toma decisões de forma impulsiva. Não é um elefante na casa das porcelanas. Ele acredita num plano que já o levou ao poder: gerir de crises usando falácias cobertas por milhões de dólares, enquanto  ganha outros milhões com a industria militar.

Mas a situação internacional desde 2009, depois da crise financeira de 2007/2008, levou ao surgimento de forças militares, económicas e políticas que entraram em competição com os Estados Unidos.

Depois da queda da União Soviética e do colapso do sistema socialista, foi repescada a narrativa ideológica dos teóricos neo conservadores da globalização usada como contexto económico e cultural, seja por ex, as teses de Samuel Huntington (guerras futuras seriam travadas não entre países, mas entre culturas) ou de Francis Fukuyama, que fechou a história do modelo americano defendendo a tese de que “democracias maduras raramente ou nunca entram em guerra entre si”.

Acabadas as guerras acabava a História??

E ainda a narrativa de todos os que acreditaram que o presidente dos EUA é o líder do mundo, de um mundo americano como o ideal da evolução humana e o supra sumo do conhecimento e da liberdade.

Trump, no seu discurso de twitter e em conferências de imprensa diz-se dono de uma virtuosa sabedoria. E acrescenta na “minha grande e inigualável sabedoria”. Enlouqueceu? Não. Mas quer enlouquecer-nos a nós todos. Talvez ande a ler a o Livro Vermelho de Mao Tse-Tung pensando que foi escrito pelo querido presidente Xi, the great guy!

Os Estados Unidos fizeram guerra no Afeganistão e no Iraque, manifestando que o faziam para defesa da democracia, mas de facto nesses países o domínio e a autoridade nunca passou para as mãos e a vontade desses povos. O Conselho de Segurança das Nações Unidas foi desprezado. A liderança do mundo, deixou de ter por base a partilha de benefícios e equilíbrio nas relações internacionais e a da Carta das Nações Unidas ficou dentro de um envelope fechado e selado.

Para modernizar o cenário a China emerge como uma força económica e a Rússia como uma força militar e económica que decidem que têm uma palavra a dizer no contexto internacional. Outras forças regionais e internacionais como Índia, Brasil, África do Sul e Irão, também eclodiram, causando uma dor de cabeça política à administração americana, que pensava ter feito xeque mate ao mundo. Estes países  começaram a marcar uma presença cada vez mais visível no Conselho de Segurança e colocaram forças militares no terreno em vários países, para desespero dos falcões militares americanos, isto já desde o segundo mandato de Obama.

Trump entra neste xadrez político usando um tom arrogante, arruaceiro, popular que cala fundo nos corações americanos que se iam sentindo diminuídos na sua orgulhosa convicção de que eram os donos disto tudo. Trump entrou na Casa Branca com um discurso sobre a América que tinha perdido o seu norte e o seu prestígio, acusando Obama de ser fraco e o causador do caos e propondo-se a fazer renascer a fénix das cinzas, utilizando o poder financeiro e militar.

Quase sem aparentemente mexer grandes forças militares no terreno, foi violando convenções  e tirando legitimidade às  organizações internacionais, sem se ralar muito nem perder cabelo, com o Congresso, o Pentágono, a CIA , os jornais e cadeias de televisão do seu próprio país. O Twitter transformou-se na voz oficial do presidente.

Em vez de leis internacionais e de tratados a Casa Branca exerce o poder económico e militar que conseguiu agregar para controlar o mundo. E usa o dólar americano como arma, estratégia em que não é o único residente da Casa Branca a usar. Uma arma que lhe permite impor sanções económicas aos países mal comportados.

Tal como disse Vladimir Putin em Julho de 2018 na décima cimeira do BRICS na África do Sul, o governo dos EUA está a cometer um erro estratégico ao usar o dólar como ferramenta política. Putin esclareceu que quaisquer restrições ao uso de transações em dólares diminuem  a confiança no dólar como moeda de reserva mundial. O presidente russo fez notar que  há dezenas de países  insatisfeitos e por isso exploram alternativas ao dólar no comércio. Uma nova moeda de reserva mundial ou mesmo o aumento de moedas regionais poderia contribuir para uma economia mundial e um sistema financeiro global mais estável.


Por opção do autor, este artigo respeita o AO90


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