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Sábado, Julho 20, 2024

Os filhos de Rousseau ou de pai desconhecido?

Alexandre Honrado
Alexandre Honrado
Historiador, Professor Universitário e investigador da área de Ciência das Religiões

DO AVESSO

Lido, com lupa e cuidados de apreciador, o artigo de João Almeida Santos Os Filhos de Blair e a Gravitas e seguindo, com interesse cultural democrático, coisa que escasseia e que até nos assusta, as eleições legislativas francesas que terão o seu segundo ato daqui a dias, sem cavar pessimismos temo pelo desfecho.

Não me deterei no texto de Almeida Santos. Podem e devem lê-lo e relê-lo no Jornal Tornado, mas parto dele para refletir, sobre a condição humana – que antropológica e cientificamente tanto me motiva – e sobre as eleições francesas, pois a grande pátria laica e dos valores humanos está ameaçada, nitidamente enferma, e vergada ao peso dos populismos, dos nacionalismos, dos extremismos, do ultraliberalismo, e, como uma mariposa que confunde pontos de luz com a grandeza do sol, tonta de existir, rodopiando na vaga existência, perdendo a ética, desdenhando da sua própria e por vezes exemplar história vivida, que é Democrática, laica, fraterna, igualitária, libertadora, humana.

Os candidatos mais bem posicionados em França são construídos sobre conceitos que afetam o Homem de um modo geral, tolhido que está pelos equívocos da contemporaneidade. Digamos que nos seus discursos não há nada que não se tenha ouvido já em Portugal, mais recentemente no estertor de Passos Coelho ou na ameaça da caricata mas perigosa febre biliosa da nossa direita, com os pequenos Populares em bicos de pés, em artes circenses, do malabarismo ao slackline, com a Impostora – como na telenovela da TV – em cabeça de cartaz.

A ilusão de ser francês

Vemos em França emigrantes e filhos de emigrantes, com a ilusão de serem agora franceses, mesmo de segunda, apelar ao voto em candidatos contra a emigração e os novos emigrantes ou ainda pobres de vida sufocante a celebrar os estigmas dos mercados e os seus intérpretes.

Como já se disse repetidas vezes, uma sociedade que tolhe o desejo, alimenta ao mesmo tempo o consumo, sôfrega e vertiginosamente; cria povos inebriados, que bebem vinho barato com a ilusão de que podem pagá-lo e usufruir dos seus efeitos.

A Europa, continente de refugiados, migrações, diásporas e diversidade, é também um continente de valores e de filosofia, de tolerância e de inteligência, de multiculturalidade e espaço para o intercultural. Mas também é uma triste memória, continente de grandes cicatrizes – basta rever o horror do século XX – e de decisões mal tomadas (Hitler foi eleito, Salazar perpetuado, Marine Le Pen vai à segunda volta, os Populares até já foram governo em Portugal, a lista de absurdos é infinita) – águas nunca passadas que se pagam muito caras.

A Democracia enreda-se nos seus caprichos: quer respeitar o estado de direito e a voz de quem a usa, desprezando muitas vezes a organização do mesmo estado, a educação para a cidadania, os valores democráticos, a voz dos que não a usam.

A França restringida

A França dos últimos anos é uma França da diminuição: do limite dos direitos humanos, das restrições da liberdade individual e religiosa, da musculação de um sistema que soma fraquezas. É a França do Charlie Hebdo e do Bataclan, e da força de trabalho dos emigrantes que a sustentam. É a França da falta de liberdade, da ausência de igualdades, sem sombra de fraternidade.

Para mal da sua sorte, a Inglaterra produziu o Brexit, Margaret Thatcher, Tony Blair. Mas também produziu o pensamento de Thomas Hobbes, por exemplo. A França produziu Bonaparte, Le Pen, que fala de uma saída do euro com uma ambiguidade de quem não pode tê-lo nem viver com ele, ou Sarkozy, o emigrante, filho de um membro da pequena nobreza da Hungria que chegou a Presidente da República. Mas também teve Rosseau.

Thomas Hobbes, escolheu a segurança do indivíduo como base para a construção de seu sistema; o genebrino Jean-Jacques Rousseau atribuiu o mesmo papel à preservação da liberdade. Ao apoiar-se na universalidade do medo da morte violenta como paixão dominante entre os seres humanos, Hobbes articulou um sistema em que é racional, para cada sujeito, alienar uma parte da liberdade de que originalmente dispunha no estado de natureza em troca da garantia da sua segurança. Para Rosseau, o cavaleiro solitário, a alienação da liberdade priva o homem do que lhe é mais essencial e constitutivo, a ponto de que o que resta não valer a pena ser defendido.

Rosseau morreu nos últimos anos – e a França está à espera dos paramédicos. Não sabemos se os franceses – filhos de Rousseau? De pai desconhecido?  – serão capazes de fazer-lhe chegar cuidados intensivos adequados. É verdade: Thomas Hobbes já confessa as saudades do euro e não sabe o que fazer à vida made in England.

Por opção do autor, este artigo respeita o AO90

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