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Sábado, Novembro 27, 2021

Os filhos de Blair e a gravitas!

João de Almeida Santos
Director da Faculdade de Ciências Sociais, Educação e Administração e do Departamento de Ciência Política, Segurança e Relações Internacionais da ULHT

Dizem que Emmanuel Macron – e até já perguntaram isso a Tony Blair – navega por essas águas, as da famosa e execrada “Terceira Via”.

A que procurava, sim, superar a velha social-democracia (e os sinais de Blair foram muitos, a começar pelo fim da famosa Cláusula 4, inscrita nos cartões dos militantes trabalhistas) sem se confundir com o neoliberalismo de que tantos (socialistas) a acusaram. A ela e a Blair, mortificado por ter caído na esparrela bushiana do Iraque, em resultado da velha aliança entre o Reino Unido e os Usa. Sim, Macron é verdadeiramente um liberal que quer mais e melhor Europa. Mas não tem partido, como Blair tinha.

Tem, sim, uma pequena locomotiva onde se desloca, mas não se sabe se este veículo se tornará um partido. O que se torna difícil já com as legislativas à porta, em Junho, e com um sistema eleitoral maioritário a duas voltas que não favorece a afirmação e a fixação de pequenos partidos, como aconteceria com um sistema proporcional. Pelo meio, temos ainda as Presidenciais, numa disputa difícil com Marine Le Pen. Provavelmente teremos um poderoso Presidente da República, mas sem corpo orgânico que suporte o seu governo.

Por outro lado, não se vê bem o desenho ideológico de Macron ou, pelo menos, uma verdadeira “cartografia cognitiva” que sirva de bússola ao povo da esquerda moderada que ele poderia seduzir para um novo projecto. Temos algumas medidas, um projecto parcelar para o relançamento da União e pouco mais. Ao que parece não é de esquerda nem de direita! Mas então o que é verdadeiramente? Aquele centro revolucionário de que falava Giddens? Mas isso não é um oxímoro?

 Velocitas

Na verdade, também Macron me parece ser um “velocista”, para usar a expressão de Giovanni Sartori que já aqui evoquei, quando nos deixou, aos 92 anos. Só que o velho politólogo se referia, como vimos, a Matteo Renzi. Mas a mim parece que também Macron o é: além de conquistar rapidamente, ainda

muito jovem, Brigitte, professora de francês e sua professora de teatro, com mais 24 anos do que ele, e agora sua mulher, enveredou pela banca, onde, como se sabe, a rapidez nas decisões é equivalente à velocidade estonteante com que circulam os fluxos financeiros! E há pouco mais de um ano criou o seu próprio movimento (“En Marche!”) para preparar uma rápida caminhada para o Eliseu, agora em curso e com boas probabilidades de lá chegar. Rapidez, portanto.

Isto para não falar da leveza que deixa transparecer, propícia à rapidez. Categorias, de resto, que Italo Calvino elevou a “Memos for the Next Millennium” nas “The Charles Eliot Norton Lectures”, em 1985-86. Leveza e rapidez, duas categorias para a arte no Milénio em que já estamos. Mas elas, as categorias da arte, valem também para a política, como teria gostado o velho filósofo, poeta e dramaturgo alemão Friedrich Schiller (1759-1805), teorizador,  em “Cartas sobre a Educação Estética do Homem” (1795), de um novo tipo de Estado, precisamente o “Estado Estético”? Os politólogos de peso, a começar por Sartori, dizem que não, que a política deve ter “gravitas”, o que é exactamente contrário ao “velocismo”, que exige leveza e fuga à gravidade.

Até no modo de falar e de vestir – incluída a gravata – Macron me parece um “velocista” ultraleve. Mas se é verdade que estas categorias, na arte, são compatíveis com um certo conceito de “gravitas”, no sentido da universalidade, na política sê-lo-ão também? Como hoje são entendidas em política, parece que não!

Gravitas

Dizia, de facto, Sartori que Matteo Renzi é um peso pluma, ultraleve e “velocista”. Sem “gravitas”. E são muitos os que – conhecendo-o – o acompanham nessa definição. Antes, como agora, que ganhou com 70% as eleições primárias do Partido Democrático, contra Andrea Orlando (19,5%) e Michele Emiliano (10,5%), em cerca de 2 milhões de votantes, quase 6% dos eleitores efectivos que votam para a Câmara dos Deputados. Também aqui foi rápida a recuperação de Renzi depois do colapso referendário, em Dezembro, e da recentíssima cisão de Pier Luigi Bersani, inspirada por Massimo D’Alema.

Mesmo assim, Beppe Grillo, o líder do MoVimentoCinqueStelle, referiu-se às primárias do PD como algo muito pesado, orgânico, velho, comparado com a leveza do voto digital e das decisões tomadas em ambiente digital do M5S! Com alguma razão, diga-se! Mas não será este ritual orgânico do voto que introduzirá “gravitas” onde ela não existir sob outras e mais densas formas!

Mas também Renzi poderá ser considerado um filho da “Terceira Via”? Certamente não, em linha directa, mas talvez seja, se reflectirmos sobre o seu posicionamento político e sobre a forma como se relaciona com a cidadania e com os meios de comunicação, a começar pela televisão. Um estilo algo parecido com o de Blair. Até na “velocitas” e no modo como “fura o ecrã”! O jornalista Giampaolo Pansa até achava, em 2014, exageradamente, que Renzi era “o primeiro líder populista que apareceu na cena política italiana”, ao lado do qual o próprio Beppe Grillo parecia um “Mister Nessuno”, um “Senhor Ninguém”!

Pansa até chegou a aflorar a ideia de um autoritarismo renziano em crescendo, através da construção de um autêntico partido pessoal, ideia que foi retomada aquando do referendo sobre a reforma constitucional de Dezembro de 2016. Algo com “gravitas”, portanto. Mas da “má”, para alguns! Talvez haja aqui algum exagero!

O problema é mesmo a “gravitas”, sobretudo em períodos de grandes mudanças estruturais quando é preciso agir para além do imediato e dos imperativos do monitor televisivo. O que é o caso. Ver-se-á logo que iniciar a discussão de uma nova lei eleitoral e na definição do calendário eleitoral, considerando que governa um seu homem de confiança (Paolo Gentiloni), com o apoio do PD. Não creio que vá para eleições antecipadas. Mas, se for, isso significará que a “velocitas” se impôs à “gravitas”.  Ver-se-á também  em relação à Europa e ao desenho ideológico de um novo PD!

A decadência da política orgânica

E estas não são questões de somenos, quando assistimos a uma forte personalização da política, em grande parte devida à expansão das plataformas comunicacionais e da força do audiovisual nos processos comunicacionais e, naturalmente, políticos. Na verdade, a política dos vínculos orgânicos própria dos velhos partidos-igreja, fortemente ideologizados e centrados numa classe média estabilizada cedeu já o lugar à nova política dos vínculos comunicacionais, própria dos «catch all parties», do minimalismo ideológico e de uma classe média profissionalmente instável, culturalmente fragmentária, existencialmente nómada e mais afecta aos estilos de vida do que às concepções do mundo. Mas esses tais «catch all parties» não são uma novidade de agora. Eles já vêm dos anos sessenta e setenta. E são partidos do arco governativo.

Só que as suas características essenciais se radicalizaram com a evolução dos tempos, a ponto de os podermos hoje designar por «partidos do público», fortemente personalizados. E não por mera retórica vanguardista, mas, mais prosaicamente, porque as sociedades foram evoluindo de tal modo que a incorporação das novas variáveis se tornou politicamente imperativa. De resto, é hoje comum na literatura política encontrar delineada a passagem da chamada «democracia de partidos» para a «democracia do público», com profundas implicações nos mecanismos de funcionamento dos próprios partidos e do próprio poder político.

Dou um exemplo. Hoje, um líder pode dirigir-se directamente aos militantes através dos media e da Rede, prescindindo das instâncias orgânicas. Foi isso que um dia Clinton disse no tradicional jantar anual com a imprensa, a que, desta vez, Donald Trump, o do Twitter, ostensivamente faltou, porque a considera inimiga do povo. Mas nesta relação, os militantes e os cidadãos podem avaliar as capacidades do líder, usando os mesmos mecanismos cognitivos que usam no seu quotidiano. «Read my lips!» – Bush-pai dizia isto na televisão, falando de impostos, numa Convenção do Partido Republicano. A personalização da política é, pois, hoje uma variável incontornável.

À direita, ao centro e à esquerda. Praticá-la sem a reconhecer é exercício de pura hipocrisia política. Na verdade, a personalização da política já é uma função do novo espaço público. Não só porque, neste, um rosto vale eleitoralmente mais do que mil palavras, mas também porque o discurso mediático exige cada vez mais a conversão dos programas, das ideias e dos valores em fórmulas simples e rápidas que possam ser convertidas na própria linguagem operativa dos media. Sim, é verdade. Mas hoje já avançámos para além desta fase.

Na verdade, já chegámos a uma era em que a desintermediação da política e da comunicação é cada vez mais intensa, perante cidadãos que já não precisam de um enquadramento orgânico para intervir na política, bastando-lhes capacidade individual de aceder a um novo espaço público – que hoje designamos por espaço público deliberativo – que lhes permite influenciar as agendas pública e política, sem pedir licença aos velhos «gatekeepers» e aos comentadores instalados nos principais interfaces da comunicação. E nem sequer aos partidos. Manuel Castells já teorizou esta nova forma de exercício de cidadania, chamando-lhe «mass self communication», a que corresponderia finalmente uma “democracia de cidadãos”. E outros encontram o seu referente conceptual na ideia de um “poder diluído” (Jesús Timoteo) correspondente à nova forma de exercício da cidadania através das novas e revolucionárias plataformas comunicacionais!

É nestas passagens que o fenómeno da rapidez e da leveza em política pode ser lido, mas é nelas que também é possível começar a ler a necessidade de “gravitas” não só para interpretar os desafios emergentes como também para encontrar e promover soluções duradouras e progressivas para eles. A velocidade cega e provoca esquecimento, dizia Paul Virilio. E se é verdade que vivemos num tempo em que a velocidade e a leveza dominam, também é verdade que sem “gravitas” corremos o risco de cair sob a ditadura do presente e de perdermos essa nuclear dimensão da profundidade temporal – passado e futuro – que sempre tem feito avançar a história.

E esta é a grande questão que é preciso pôr quer a Emmanuel Macron quer a Matteo Renzi (para não dizer a Martin Schulz, a Jeremy Corbyn, a Pedro Sánchez, a Susana Díaz ou ao nosso António Costa).

A política como arte

É claro que a política também é, como se sabe, uma arte. E por isso também tem de adoptar algumas categorias da arte e de procurar atingir a universalidade para ser reconhecida historicamente. Macron estudou teatro e foi o teatro que lhe determinou a vida pessoal. E talvez seja mesmo por aqui que a política do futuro deva recomeçar, usando, naturalmente, outros meios que não só os artísticos. Schiller lá dos confins dos tempos agradeceria. Quando a beleza dá forma à verdade e por isso se torna inspiradora para uma melhor cidadania, mais activa e harmoniosa. Ou não foi o quadro falso do Iraque que acabou por liquidar definitivamente a criatividade e até a existência política de Blair? E, por isso, e por mais que tente, já não consegue entrar nas galerias mais cotadas da política, ainda que tenha boas ideias, como a que acabou de (quase) renegar (em recente entrevista ao correspondente do La Repubblica): transformar as próximas eleições legislativas de Junho numa batalha contra o Brexit! Mas Blair era verdadeiramente um político com “gravitas”? Só a história o poderá dizer!  O que parece ser certo é que a “Terceira Via” deixou alguns herdeiros… pelo menos no estilo!

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